Wish You Were Sober

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Com o olhar voltado para o teto e o corpo ainda deitado sobre a mesa de sinuca, Kai podia ver de relance Charlotte vestir novamente o vestido preto. Ela jogou as roupas de Kai sobre a mesa e arrumou seus cabelos. Ela apenas passou a língua entre os lábios, tentando se impedir de dizer qualquer coisa sobre aquilo.
Mesmo deitado, Kai vestiu a cueca, calça e a camisa. Aquele raro silêncio entre os dois reinava, algo que quase nunca acontecia quanto se tratava deles.

Charlotte ainda sentia suas pernas um pouco trêmulas, ela decidiu se deitar na mesa ao lado de Kai só por mais alguns segundos. Ela odiava tanto o fato de ter que se desprender daquilo, se fosse há menos de dois meses atrás eles nem cogitariam a ideia de irem embora de lá.

Kai aproximou um pouco o rosto do pescoço de Charlotte. Ele fechou os olhos e roçava o nariz contra a pele dela.
Aquele cheiro familiar inundava as suas narinas com tantas memórias boas. O aroma era uma mistura de álcool e perfume francês caro. Mesmo assim era uma combinação tão boa.

—Fica...

—O que? —ela indaga.

—Não vai embora —Kai murmura baixinho contra o pescoço dela. —Fica aqui comigo mais um pouco.

Charlotte afastou um pouco o seu rosto para poder encarar os olhos azuis de Kai. Ela engoliu em seco a sensação de sentir um patético aperto no coração.

—Por que quer que eu fique? —ela ergue um pouco o corpo, ficando semi-sentada na mesa.

—Porque se eu não ficar aqui com você, vou ter que voltar para aquela idiotice —ele aparentava usar sarcasmo para ocultar a aflição. —Eu posso até fingir que gosto de passar o tempo com a Sybil, mas ela não é você.

—Preferiria passar mais do seu tempo comigo? —Charlotte pergunta. No fundo desejando que ele desse alguma resposta sentimental, mas sabendo que não ia receber o que queria.

Kai a olhou e deu uma leve risada sarcástica.

—Você tá sendo doce demais. Tem certeza que está com a humanidade desligada? —ele debocha, mantendo um sorriso irônico.

A garota revirou os olhos e riu com ironia.

—Eu estou de bom humor. Todo mundo fica assim depois de transar —ela inclinou um pouco seu rosto para o lado. Seus cabelos caiam como uma cortina no lado direito do seu rosto e ela aproximou o seu rosto do de Kai. —E aliás, não sou eu que estou implorando pra você ficar.

Ele sorriu para ela, adorando aquela proximidade entre os dois.

—Eu não implorei, só fiz um pedido bem pequenininho —ele finge um semblante inocente.

Charlotte deu uma leve risada e balançou a cabeça negativamente. Ela ficou em silêncio por alguns segundos, observando cada detalhe do rosto de Kai. Ela se odiava por desejar tanto que pudesse implorar para tê-lo de volta.

—O que fez você desligar a humanidade?

Kai desviou o olhar pela primeira vez e virou o rosto para o lado.

—Ela não parava de mexer com a minha cabeça. Todo dia, eu não tava nem aí no início. Eu não sou psíquico, não é como se eu pudesse só lutar, fazer uma piada e matar ela —ele dizia com uma naturalidade totalmente apática. —E aí, eu fiquei esperando você voltar, só que você não voltava nunca...

—Eu tentei, Kai... —ela interrompeu com um toque de angústia.

Foi tudo que ela conseguiu dizer antes de ser Kai quem interrompesse dessa vez.

—Você não voltou, Charlotte. E pensando por um lado, eu achei que você nunca mais ia voltar —ele continuava. —Ela sempre colocava memórias ruins na minha cabeça. Um dia ela me fez sentir tudo o que eu senti quando você morreu, e eu desliguei. Já que você não ia mais voltar, por que continuar sentindo dor por memórias antigas?

A Devil RomanceOnde histórias criam vida. Descubra agora