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Isabella

Dei um gole na minha cerveja e olhei pra Talita que estava concentrada nos cadernos. Vim fazer trabalho na casa dela, mas eu mesma tô mais bebendo do fazendo. Por isso que essa ideia de comprar uma cerveja pra animar não dá certo comigo, saio do controle.

Celular dela começou tocar e ela se levantou atendendo.

Talita: oie amor... porque? O que ele disse? —seu semblante mudou e ela me olhou— não, ela não tá aqui. A ligação tá cortando. —tirou o celular da orelha e desligou— levanta e corre, Isabella.

Isabella: que?

Talita: vai minha filha, vai embora. Foge, o Branco descobriu que você é parente de alemão. Eu não sei como, Brito me ligou e disse que estão vindo pra cá e que o Branco tá atrás de você pra te matar. Pelo tom de voz do meu marido a coisa tá muito feia.

Fiquei sem ar na hora, meu coração começou acelerar e eu senti meu corpo ficar gelado no mesmo instante.

Talita: minha moto tá na garagem, pega e sai. —me deu a chave e o capacete— põe isso na cabeça, é a melhor opção. E faz um coque nesse cabelo.

Isabella: e se me pararem e pedir pra tirar?

Talita: não tira, acelera e vai. Mas eles conhecem minha moto, vão pensar que sou eu. Anda logo, vai.

Eu coloquei o capacete na cabeça e fui até a garagem junto com ela. Eu tinha pilotado moto umas duas vezes na vida. Essa seria a terceira.

Talita: quando tiver na sua casa me avisa. Eu te amo! —me abraçou de lado e eu retribui.

Isabella: te amo, Tata.

Subi em cima da moto e ela abriu a garagem. Liguei a ignição e sai acelerando, dirigia o máximo que eu podia tentando desviar das crianças e dos buracos da rua, não estava vendo absolutamente nada, só conseguia sentir medo e nervosismo. Minhas mãos soavam mais que tudo, molhando o guidão, comecei sentir o molhado no meu rosto e me dei conta que estava chorando sem parar.

Estava próximo a saída da Penha quando vi várias motos subindo, acelerei mais desviando de um dos vapores que entrou na minha frente. Ouvi um barulho de tiro sendo disparado provavelmente porque não obedeci a ordem de parada. Me assustei com o vidro do carro ao lado quebrando.

Respirei aliviada quando fiz a curva e cai na avenida Brasil, pelo menos eu tinha conseguido sair de lá viva. Precisei desacelerar um pouco pra me acalmar, pois na velocidade e no estado emocional que eu estava, iria me matar fácil.

Tirei o capacete na entrada da Vj para ser vista e fui direto pra casa, abri a porta e sentei no chão da sala tentando recuperar o fôlego. Apensar de estar em casa, o medo ainda aflorava na minha pele. Eu sentia uma dor no coração, as lágrimas escorriam com mais velocidades e minhas mãos tremiam como nunca tinha ocorrido.

Meu celular tocava pela terceira vez seguida, desliguei vendo que era o Branco. Na quarta vez, resolvi atender.

Isabella: Michael... eu posso —ele me interrompeu.

Branco: eu não quero saber de nada. Você foi uma traíra do caralho, veio no meu morro de tróia pra cima de mim. Se eu fosse você, ficaria com medo e se escondia bem. Porque se eu te ver em qualquer lugar, eu vou te matar. Fica longe da minha favela, dos meus parentes, de tudo que se refere a mim! E foge mesmo, porque se eu te pegar, vai ser a pior tortura. —encerrou a ligação— mas foge pra outro lugar, porque na Vila João a gente vai te penerar.

Suas palavras eram de puro ódio e eu podia sentir o desprezo e a fúria daqui de casa. Mas que porra eu tinha na cabeça de achar que em algum momento o que eu estava fazendo daria certo? Era tudo uma questão de tempo para ele saber de onde eu era e descobrir que eu menti durante esses meses na maior cara de pau.

Minha cabeça martelava cada vez mais tentando descobrir como que ele soube de tudo assim do nada. Logo num momento que estávamos tão bem. Eu estava de fato me entregando.

Isaura: Isabella, que foi minha filha? que isso? —chegou em casa e me olhou toda preocupada. Ela se ajoelhou próximo de mim e alisou minha cabeça— o que aconteceu?

Isabella: eu não quero falar, vó. —abracei ela e me permitir chorar sentindo o conforto de seu abraço.

Isaura: machucaram você?

Isabella: não. Ninguém fez nada contra mim.

Ela entendeu que eu não queria falar por enquanto e parou de perguntar, mas não saiu do meu lado em momento nenhum. Ficou fazendo carinho e me abraçando até eu me acalmar. Depois eu fui pro sofá e ela me olhou com o olhar preocupada dela.

Isaura: eu vou pegar uma água pra você. Quer comer?

Isabella: não, brigada.

Peguei meu celular e ia mandar mensagem pra Talita, porém a foto dela de perfil tinha sumido. Já estava ficando mal pensando que ela estava puta comigo por algo, quando chegou um sms dela.

Talita: parece que um x9 que falou que você era sobrinha do Jhony, chegar me avisa meu amor
Talita: tô preocupada com vc

Isabella: cheguei, tô bem na medida do possível.

Talita: que bom 🙌🏼
Talita: vou ficar off um tempo, discuti feio com Brito e vou pro desenrolo mais tarde

Isabella: porra amiga, n queria que sobrasse pra vc

Talita: relaxa, eu quem te chamei e insisti pra vir aqui a primeira vez. Eu me viro, fica em paz
Talita: amo vc e jaja volto

Isabella: tb te amo, te encontro na faculdade se deus quiser

Isaura: e aquela moto lá fora? —estendeu o copo de água e eu dei um gole.

Isabella: de uma amiga, vim com ela. Será que a tia Neusa deixa guardar na garagem dela?

Isaura: deixa sim, ninguém usa. Tem b.o? —neguei— quando você quiser conversar, se quiser, a vovó tá aqui meu amor. —beijou minha testa.

Ela saiu e eu suspirei fundo olhando pro teto. Tava tudo fluindo tão bem, pra do nada acontecer isso. Peguei meu celular novamente e por extinto fui ver o número do Branco, mandei mensagem e não chegou. Até tentei ligar e deu caixa, certeza que me bloqueou!

No alto do caos Onde histórias criam vida. Descubra agora