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MARATONA
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Isabella

Tinha passado algumas semanas desde que tudo aconteceu. O turbilhão de emoções e os pensamentos confusos não me deixaram em paz. Eu ainda tentava entender, processar tudo o que se passou, mas no fundo, eu sabia que a vida não ia esperar eu encontrar as respostas. Era hora de seguir, ou pelo menos, tentar.

Hoje eu ia ao médico para a minha consulta de rotina, e aproveitei para marcar o exame de DNA. O Branco ainda não sabia dessa parte. Eu não tinha decidido se faria ou não, então guardei esse segredo.

O Branco tinha apanhado e eu não conseguia tirar isso da cabeça. Fui me lembrando de cada palavra do Jhony naquele dia, quando ele me contou sobre a facção, sobre o Branco ter deixado tudo chegar a esse ponto.

A porta da minha casa estava aberta, e o Branco bateu, entrando sem esperar muito. Olhei para ele, tentando não deixar transparecer o que eu sentia. Meu olhar percorreu o corpo dele, à procura de qualquer sinal das cicatrizes que ele pudesse ter, mas não vi nada.

Eu não o via pessoalmente desde que ele levou aquela surra, só conversávamos por mensagens, e a maioria delas era sobre a faculdade, que eu planejava voltar, mas acabei desistindo. Eu estava ficando mais perdida a cada dia.

Branco: Tá pronta? — Eu confirmei com a cabeça— Você conversou com a mulher?

Isabella: Sim. Eu agradeço sua ajuda, mas não quero ninguém aqui nesse momento. Eu estou bem.

Branco olhou pra mim, mas algo no seu olhar demonstrava preocupação. Ele tentou disfarçar, mas eu sabia o que ele estava sentindo, eu também sentia o mesmo.

Branco: Mas uma hora tua barriga vai crescer, e não vai conseguir fazer as paradas sozinha. Por que tua vó não ficou?

As palavras dele me fizeram relembrar. A mágoa em relação à minha avó ainda estava fresca, e ouvir isso me fez lembrar daquela conversa cruel que tivemos. Fechei os olhos e respirei fundo. Eu não sabia se queria que ele soubesse sobre o que tinha acontecido.

A porta se abriu novamente, e eu vi minha avó entrando. Olhei para ela e quase não acreditei. Corri até ela e a abracei com força, sentindo o aconchego dos seus braços. Não sabia se ela tinha vindo pra ficar ou se era só uma visita rápida, mas aquele abraço me deu uma paz que eu não sentia há muito tempo.

Isabella: Eu tô tão feliz em te ver. Você não sabe o que o Jhony falou sobre a senhora, eu pensei que a senhora estava morta.

Isaura: Ele fala muita bobagem. Fui eu quem deveria ter vindo aqui antes. Mas pelo menos, vim agora.

Isabella: Agora que não tem mais nada que nos impeça, você pode vir morar comigo de novo. Eu falo com o Branco, ele não vai se importar. A gente pode até voltar pra Vila João se quiser.

Ela me olhou com um olhar pesado, como se estivesse guardando um peso enorme dentro de si. A expressão dela, embora amorosa, estava carregada de dor.

Isaura: Olha Isa, eu vim te dar um recado. Eu não tenho condição de viver com o pai do seu bebê. Ele matou o meu filho. O sangue do meu Jhonatan está nas mãos dele, e eu tenho nojo dele, pavor. Você estava lá quando ele matou seu tio, e não fez nada pra impedir. Eu sei que você não gostava dele, mas você poderia ter pensado em mim.

Aquelas palavras me rasgaram por dentro, mas não me surpreenderam. Eu já sabia que a dor da minha avó era profunda, talvez até mais do que a minha.

Isabella: Vó... o Jhony me sequestrou, como você ainda conseguiu olhar pra ele durante anos mesmo sabendo que o sangue do meu pai estava nas mãos dele?

Isaura: Eu sei que ele errou, mas ele ainda era meu filho. O único que me restou. Eu perdi dois filhos, Isa. Isso não é fácil. — A voz dela quebrou, mas ela continuou— Eu superei a dor de perder seu pai, porque o Jhonatan era meu filho, e ele também sofreu com a perda. Mas... não vou perdoar um estranho por ter matado o meu outro filho. Eu não posso conviver com ele, nem mesmo por você.

Eu sentia a dor dela transbordando. As palavras dela estavam envenenadas com anos de sofrimento e rancor. Eu não sabia como responder. Naquele momento, minha avó se tornou uma estranha pra mim também, e a dor era insuportável.

Isabella: Era esse o recado? Está dado, pode ir.

Isaura: Eu te amo, Isa. E amo meu bisneto (a), mas pra mim... não dá. Você precisa entender. Se cuida, Bella.

A porta se fechou atrás dela, e eu fiquei ali, sem palavras, sem forças.

O Branco me olhava com pena enquanto eu contei. Enxuguei as lágrimas que já não consegui segurar mais e me levantei do sofá. Fui até a cozinha, sentindo o peso daquelas palavras ainda me consumindo.

Branco: Sua avó foi suja contigo. Sinto muito, mas ela poderia ter mantido contato com você sem precisar ver minha cara. A gente nem mora junto, pô.

Isabella: Ela não quis mesmo. Mas eu quero deixar isso de lado. Já passei tempo demais triste por causa disso. Eu preciso viver a minha vida.

Saímos de casa e fomos até o carro dele. As pessoas nos olhavam, cochichavam, e eu podia sentir os olhares. A publicação sobre minha gravidez ainda estava repercutindo, e era impossível esconder. A barriga já estava começando a aparecer, e todos podiam ver que não era gordura.

Isabella: Eu marquei o exame de DNA.

Branco: Achei que você ia querer esperar.

Isabella: Eu queria.  Mas aconteceu tanta coisa, eu preciso da certeza de alguma coisa, um ânimo. E se algo acontecer comigo, eu preciso que você saiba, se é uma menininha ou um menininho."

Branco: Essa parada não é arriscada?

Isabella: Eu conversei com o médico. Ele me indicou um método menos invasivo.

Branco: Você quem sabe... Mas eu esperaria sem problemas, respeito você.

Eu já tinha tomado minha decisão. Fui até o médico, e o medo crescia a cada passo, mas a necessidade de respostas também. Sentada na maca, com o gel gelado tocando minha barriga, eu sabia que essa decisão estava me mudando. A ansiedade tomava conta.

Dr. Nelson: Foi uma surpresa vocês voltarem, mas o ideal é que o acompanhamento médico seja feito em um único lugar.

Isabella: Eu sei, mas achamos melhor fazer esse exame antes do teste.

Dr. Nelson: Certo. Vou relatar tudo e fornecer a documentação para seu médico, caso ele precise — Ele olhou pra mim — Quer saber o sexo?

Isabella: Pode falar.

Ele fez o exame, e então, o som da máquina e a pressão do aparelho me fizeram sentir uma tensão insuportável. Ele olhou para a tela e sorriu. Eu olhei para o Branco, que parecia forçar um sorriso, mas era visível o conflito dentro dele.

Dr. Nelson: Parabéns... vocês terão um menino.

A felicidade foi efêmera, logo se dissipando quando o medo e a insegurança se misturaram com as dúvidas que ainda assombravam o futuro.

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