Isabella
Me despedi da minha vó com coração doendo, ela chorando de um lado e eu do outro. Liguei para Giovana, mas não ia rolar ir pra lá, a mona estava viajando e não tinha ninguém na casa dela. Eu tinha um dinheiro que daria para um quarto de hotel/motel básico para ficar somente hoje.
Fui pro mais próximo que eu vi, entreguei meus documentos e subi pro quarto. Fui tomar um banho e coloquei um pijama para tentar ficar mais relaxada. Deitei na cama e comecei a chorar de novo, nessa gravidez eu já estou chorando mais do que o normal.
Eu não sabia como ia levar a minha vida daqui em diante, eu não iria voltar pra Vila João de jeito nenhum, fui expulsa. Sai de lá com a cabeça erguida, mas no fundo sabia que iria sentir falta da onde fui cria e principalmente da minha vó.
Fiquei pensando um tempão o que fazer, meu coração dizia pra mim ir pra Penha e me resolver com quem eu precisava, mas minha cabeça dizia pra mim tocar minha vida na pista sozinha, melhor do que morrer. No momento eu não tinha muito dinheiro na conta, não daria nem pra cinco dias hospedada, o dia de receber aluguel seria na próxima semana e eu nem sabia como que iria pegar, pois tinha um inquilino que pagava em dinheiro.
Peguei meu celular e tentei ligar no número da Talita, demorou pra atender, chamou por um tempão e caiu na caixa postal. Fui pra última opção, o número do Branco. Pra minha surpresa nem se quer chamou, apenas deu número inexistente, como se tivesse me bloqueado ou mudado de número.
Passei a mão devagar alisando minha barriga que não tinha uma única curva se quer.
Isabella: é bebezinho, a mamãe tá perdida na vida. —murmurei.
[...]
Senti meu coração acelerado, estava com um embrulho na barriga e um nó na garganta. O nome disso era medo que não cabia em mim. Decidi ir na Penha hoje tentar falar com o Branco, pensei muito se ia ou não. Mas olhei pra minha realidade atual e coloquei meu filho a frente de tudo.
Eu não ia conseguir alugar uma casa ou Kitnet pra mim no momento, qualquer lugar no asfalto estava exigindo aquilo que eu não teria no momento, porque além do aluguel, teria o depósito de 2 meses.
Paguei o moço do uber e ele desceu do carro me ajudando com as malas. Senti um leve enjoo, talvez pela ansiedade, pois nesse primeiro mês eu não senti sintomas nenhum.
Isabella: brigada. Tenha um bom trabalho.
-pra você também! —sorriu simpático e entrou no carro.
Segurei minha mala e fui caminhando lentamente até chegar na entrada da comunidade aonde eu pude ver alguns vapores. Alguns deles me olhavam com estranheza, outros com malícia. Ignorei e continuei andando.
Vi um deles vindo em minha direção com um fuzil enorme nas costas e vestindo uma blusa do flamengo.
- qual foi garota? —olhou para as minhas malas— quer o que?
Isabella: eu quero falar com o Branco. —ele riu.
- e você é quem pra querer falar com ele? Solta o verbo.
Isabella: avisa pra ele que a Isabella está aqui e quer conversar com ele. Ele sabe perfeitamente quem sou.
Ele deu risada debochando, mas virou de lado falando no radinho e eu pude ver em questão de segundos sua expressão mudando e ele virou pra mim.
- bora pô —segurou meu braço e me puxou com brutalidade.
Isabella: as minhas malas.
- alguém vai pegar, bora mina. Anda.
Fui sendo guiado por ele até uma casa velha, ele abriu uma portinha e eu entrei vendo aquele lugar com algumas drogas espalhadas nos cantos. Ele mandou eu sentar numa cadeira e amarrou os meus braços com uma corda, tão forte que me machucava e com certeza ficaria marcado. Ele pegou uma camisa preta e jogou na minha cara fazendo com que eu perdesse a visão.
Fiquei por um tempão dentro daquela sala sozinha, só ouvia algumas vozes masculinas do lado de fora. Eu estava morrendo de calor e com falta de ar devido a blusa no rosto. Respirei fundo quando ouvi a porta de madeira batendo e uns passos aqui dentro, a pessoa ficou em silêncio e eu também.
Ele puxou a blusa com força do meu rosto e eu encarei seu rosto que me olhava com um olhar que eu não sabia decifrar, mas sua expressão estava de uma forma que eu nunca havia visto antes, completamente fechada.
Branco: eu sabia que a gente ainda ia se encontrar pra resolver, só não sabia que você viria até mim. —falou com repúdio no tom de voz e veio andando devagar.
Isabella: eu sei que você descobriu as coisas de uma forma ruim, mas eu juro que jamais vim aqui na intenção de prejudicar você. Eu nunca fui X9.
Branco: não fode porra! Tu entrou na minha favela a troco de que? Mentiu pra mim, me fez de otario. —cruzou os braços e parou na minha frente.
Isabella: eu nunca fiz você de otario, Michael. Tudo que vivi com você foi sincero e você sabe, sentiu tanto quanto eu. Eu só não sabia como te falar que ele era meu tio.
Branco: você não deveria nem ter pisado na minha comunidade, nem daquela vez que te conheci e nem hoje. Tu veio pra morrer e tá ciente disso, não tá? Te avisei pô.
Isabella: solta meu braço, vamos conversar por favor. —senti meus olhos brilharem de lágrimas e pisquei sentindo elas caírem na minha bochecha— você me conhece tão bem.
Ele veio até mim e mão grudou no meu cabelo com brutalidade e ele puxou pra trás com força, abaixou na minha frente e chegou com o rosto perto do meu. Senti seu habito e sua respiração tão perto de mim fez com que meu coração acelerasse.
Branco: tu é mentirosa e alemã. Vai morrer na minha mão do mesmo jeito que tua família vai de ralo jaja. Você teve coragem de subir aqui, se envolver comigo e ainda mentir olhando no meu olho? Você acha que eu sou quem? Eu sou dono de tudo isso, sou macaco velho. Ninguém me passa a perna e sai vivo. —falou olhando olho no olho— eu vou te matar, mas antes vou te torturar até você soltar tudo que sabe.
Isabella: eu não sei de nada meu deus —chorei— eu não próxima ao Jhony, não me dou bem com ele. E eu nunca falei nada sobre você pra ele. Eu te juro.
Branco: tuas juras não vale porra nenhuma pra mim.
Isabella: você acha que eu iria vir aqui porque? Sendo que você disse que iria me matar naquela ligação. Eu só vim porque eu fui expulsa de lá, ele soube que eu estava contigo. E eu —ele me interrompeu.
Branco: e tu veio pra cá por que ficou sem ter pra onde ir? —riu— acha que aqui ia conseguir arrumar algo comigo? Tua cova tá cavada já, Isabella. Seu tio não te matou por trairagem, mas eu mato.
Isabella: ele não me matou só por causa que minha vó não deixou, porque estou grávida, Michael. —falei e ele parou de falar. Fechou a boca e abriu várias vezes, mas não falou nada. Se afastou de mim e deu as costas.
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No alto do caos
FanfikceIsabela é uma jovem de família ligada ao tráfico de uma favela rival. Em busca de liberdade, ela se aventura em território inimigo e conhece Branco. O que começa como uma atração perigosa se transforma em um romance intenso, mas cheio de conflitos.
