Branco
Cabeça já estava a milhão fazia dias. Cada reunião com o advogado só fazia a ansiedade aumentar, era como se o tempo estivesse me testando, me deixando nesse inferno só pra ver até onde eu aguentava.
Sentei no pátio, tentando respirar, tentando focar em qualquer coisa que não fosse o turbilhão dentro da minha mente. Mas era impossível. Minha liberdade parecia um sonho distante, minha mulher e meu filho pareciam ainda mais longe.
Comecei a procurar com o olhar, impaciente. E quando vi, ela já tava chegando perto da minha mesa. A loira sempre na postura, olhar esperto, sabendo exatamente o que tinha vindo fazer ali.
Nicolle: Oie, tranquilo? — veio até mim e me deu um beijo na bochecha antes de sentar. — Tem comida que sua mãe fez pra você. E umas outras coisas que ela pediu pra eu trazer também.
Branco: Valeu aí. E obrigada por ter vindo, não era sua obrigação.
Nicolle: Parece que vim de favor, quando na verdade você pagou. — ela riu com humor. — Lobo perguntou se você quer um celular.
Branco: Não, os caras da cela arrumaram um. Se eu tiver o meu, é muita chance de dar merda, quero ficar suave na minha. É por isso que você veio. Você vai ser meu celular móvel, quero que tu traga e leve informação pra mim.
Nicolle: Eu imaginei que seria isso. Quer que eu comece por onde?
Branco: De tudo que o Lobo te atualizou. Conheço ele, certeza que deve ter mandado tu falar várias coisas. — ela assentiu. — Me fala.
A loira começou a despejar tudo. Contou como tava o movimento na favela, os soldados, cada detalhe. Eu escutava atento, absorvendo tudo. Esse tipo de informação era ouro pra mim. Precisava saber quem ainda tava do meu lado, quem poderia tentar me foder, quem tava crescendo na quebrada.
E Nicolle serviu direitinho pra isso. Sabia que ela não ia deixar nada passar, era 157 nata, criada dentro do crime, conhecia os esquemas melhor do que muita gente.
Nicolle: Quer a parte ruim sobre sua mulher? — ela perguntou, e eu logo semicerrei os olhos, já sentindo o peso do que ia vir.
Branco: Fala.
Nicolle: Ela tava com um cara esses dias na comunidade. Ele deixou ela, a Talita e seu filho lá num dia e no outro voltou sozinho pra buscar ela. Depois levou de novo.
Eu senti meu sangue ferver.
Branco: Que cara?
Nicolle: Não sei, não conheço. Era gatinho.
Branco: Essa informação o Lobo quem mandou ou você?? — perguntei, o olhar pesado sobre ela.
Nicolle ficou sem graça por um instante.
Nicolle: Ele. Vim fazer papel de transmitir só. Jurei que eu ia pra visita íntima, mas foi aqui mesmo.
Ela quis brincar, mas eu nem registrei. O ódio subiu por dentro. Eu preso nessa porra e Isabella desfilando por aí com outro? Botando qualquer cara pra perto do meu filho? Meu estômago embrulhou, a raiva e o ciúme se misturando num veneno que eu já conhecia bem.
Agradeci pelos negócios, mas minha cabeça já tava longe. Peguei a comida, tentei comer alguma coisa, mas era como se o gosto tivesse sumido da boca.
Nicolle ainda ficou me olhando por um tempo antes de ir embora, talvez esperando alguma reação minha. Mas eu já tava no modo automático.
Entrei pra cela, as mãos fechadas em punho, o maxilar travado. Minha mente já trabalhava rápido, procurando uma forma de resolver essa merda. Assim que o Urso entrou, fui direto nele.
Branco: Preciso de um favor teu. — ele me olhou e concordou com a cabeça. — Liga pros teus contatos e pede pra eles acharem o número do Lobo. Preciso falar com ele urgente, paizão.
Urso: Me dá meia hora e eu consigo isso pra você.
Branco: Valeu, de verdade.
Meu pé batia no chão impaciente enquanto ele fazia as ligações. Precisava ouvir da boca do Lobo, precisava entender o que tava acontecendo. Porque se essa porra fosse verdade...
Pouco tempo depois, ele recebeu uma ligação. Foi pro canto da cela e atendeu, me olhando logo em seguida.
Urso: Ata, tranquilo... eu vou passar pra ele, espera aí. — virou de costas e me encarou. — É pra você, teu mano.
Peguei o celular da mão dele e encostei na parede.
Lobo: É tu mesmo, Branco? Fala comigo, parceiro.
Branco: Sou eu, pô. Tá tranquilo?
Lobo: Eu tô. Tá pegando alguma coisa aí?
Branco: Tranquilo. Um aliado aqui que me emprestou a parada pra mim falar contigo. Fiquei sabendo de uns negócios desagradáveis aí. Isabella tá com outro?
Houve um silêncio do outro lado antes de Lobo falar.
Lobo: De verdade, irmão, se ela tá pegando ele eu não sei. Eu vi ela sair e chegar com ele, papo de abraço e beijo no rosto. Mas não vi se tava pegando. — foi sincero. — Nicolle quem foi falar?
Branco: Disse ainda que era recado teu.
Ouvi a risada grossa dele do outro lado da linha.
Lobo: Porra nenhuma. Tu me conhece e sabe que eu tô puxando o fundamento antes de passar pra você. Não quero causar confusão.
Branco: Eu imaginei. Mas aí é pra tu investigar. Não quero esse fanfarrão com ela. Nem esse e nem nenhum.
Lobo: Eu não sei o que você falou com ela, mas ela tá puta contigo. Soube que a Nicolle foi visitar você e deve tá cheia de coisa na mente. Tentei contornar, mas ela não quis saber.
Branco: Caralho... Quem falou?
Lobo: Quem sabe sou eu, você, sua irmã, ela e o advogado. Eu não duvido que tenha sido a loira, não.
Branco: Isabella não fala com ela... Faz um favor, amanhã tu me liga nesse mesmo horário, mas com a Isabella na linha. Vou trocar uma ideia com ela.
Lobo: Tranquilo.
Branco: Tu sabe quem é o cara?
Lobo: Ainda não, mas a Talita conhece também. Foi vista saindo do carro dele. Ela, Isabella e o menor.
Branco: Me representa aí. Deixa esses caras chegar perto da minha mulher e do meu filho, não, porra.
Lobo: Ela disse que não era sua mulher, não. — deu risada. — Tu tá fodido.
Branco: E o menor, tá bem? — ignorei a brincadeira.
Lobo: Tá. Tua cara. Desconfiou tanto que veio até sua cor.
Branco: Tô doido pra sair daqui. Tô ficando maluco da cabeça.
Lobo: Mantém a cabeça firme. Logo mais você tá aqui. Escuta o que tô te falando. O advogado tá fazendo o trampo dele, vai tudo fluir certo.
Um carcereiro se aproximou e eu me preparei pra encerrar a ligação.
Branco: Vou encerrar, irmão. Cuida da minha família.
Lobo: E você se cuida.
Desliguei rápido e joguei o celular pro moleque, que escondeu debaixo da cama. O cara passou encarando a cela, desconfiado. Mas eu continuei na postura. Dessa vez, tinha passado batido.
Mas na minha cabeça, nada passava batido. Eu só conseguia pensar na Isabella. E no desgraçado que tava com ela.
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No alto do caos
FanfictionIsabela é uma jovem de família ligada ao tráfico de uma favela rival. Em busca de liberdade, ela se aventura em território inimigo e conhece Branco. O que começa como uma atração perigosa se transforma em um romance intenso, mas cheio de conflitos.
