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Branco

Estacionamos o carro do outro lado da rua. Brito ajeitou a ponta do fuzil no único buraco que tinha no carro próprio pra isso.

Brito: Tem um cara parado na porta da casa. Tá armado.

Branco: Aguarda. Observa se tem movimentação suspeita antes da gente descer.

D2: Posso ver quem tá aí? Vai que conheço.

Olhei pra cara dele, e ele já foi levantando e colando o rosto no vidro.

D2: Segurança do Jhony. Se ela tiver com ele, tão aí.

Brito: Tô vendo pela janela da sala o Jhony andando. Pode atirar em quem?

Branco: No segurança. Ele eu quero vivo.

Brito fechou um dos olhos, mirou por alguns segundos e atirou. A arma com silenciador não fez barulho nenhum. O cara só caiu no chão e o sangue se espalhou.

Entreguei o fuzil na mão do motorista e desci com a arma no coldre. Tava eu, Brito e o moleque, que desceu sem ser chamado.

Abrimos o portão que tava destrancado e fomos andando na maciota. O coração acelerado, mas a mente fria. Brito me olhou e eu assenti com a cabeça, dando o aval. Ele chutou a porta e entrou com tudo.

Na mesma hora, a voz da Isabella gritando ecoou pela casa.

Fiz força pra segurar o impulso. Não podia ir de qualquer jeito. Jhony era maluco, e ela tava nas mãos dele.

Revistamos os cômodos um a um. O único fechado era o último do corredor.

Dei um chute na porta, e ela abriu na pancada.

Lá estava ela.

Olhos vermelhos de chorar, peito subindo e descendo rápido, a arma encostada na cabeça. O sangue ferveu. Mas eu não podia demonstrar nada.

Jhony: Se entrar, eu mato ela.

Fuzilei ele com o olhar e murmurei um "fica calma" pra Isabella. Ela assentiu com o corpo todo tenso.

Jhony: Tu foi filha da puta, né, D2? Traíra.

D2: Ela é tua família, Jhony. Tua sobrinha. Tu não vai matar ela.

Jhony: Matei o pai. Por que não mataria a filha? Se for pra escolher entre eu e ela, eu me escolho.

A frieza na voz dele me deu raiva. Eu queria estraçalhar aquele desgraçado com as próprias mãos.

Jhony: Essa hora, Branco, tu já tá queimado com tua facção. Os caras já tão ligados na história toda. Questão de tempo pra perder tua gestão e tua comunidade.

Isabella: Você é um nojento. Escroto. Seu karma vai chegar.

Jhony: Papo é o seguinte: eu deixo ela contigo se tu me deixar sair daqui. Caso contrário, eu e ela morre.

Filho da puta tava tentando negociar como se tivesse alguma moral. Como se tivesse saída pra ele.

Branco: Tá certo. Solta ela e mete o pé.

Ele ainda segurou Isabella, a arma apontada na cabeça dela, e começou a andar de costas até a sala. Cada segundo que passava, eu sentia que ia perder o controle.

Na porta, ele empurrou ela com força e saiu correndo.

No mesmo instante, acelerei os passos atrás dele. O desgraçado já tava abrindo a porta de um carro cinza quando confirmei com a cabeça pro outro lado da rua.

O disparo veio seco. Jhony caiu.

Fiquei ali, parado, olhando o corpo no chão por um momento. Era um peso a menos, mas não significava que os problemas tinham acabado.

Voltei pra dentro da casa. Isabella chorava, a cabeça encostada no ombro do D2 e me olhava ao mesmo tempo. Passei a língua nos lábios, sentindo o gosto amargo da noite toda.

Branco: Limpa a sujeira lá fora.

Brito: Vai deixar o corpo aqui?

Branco: Pode deixar. Tira foto e manda pro Lobo espalhar no grupo da facção. Quero todo mundo sabendo que esse maldito morreu.

Isabella me abraçou pela cintura.

Respirei fundo. Fechei os olhos por um segundo e senti o cheiro dela. Retribuí o abraço, sem falar nada.

Quando percebi, estávamos sozinhos na sala.

Branco: Tá bem?

Ela me olhou, os olhos marejados.

Isabella: Minha vó morreu. — o coração deu um baque. Eu sabia o quanto ela amava essa avó.

Branco: Quando isso?

Isabella: Jhony disse que uns dias atrás... Infarto. Eu nem pude me despedir dela.

Abaixei a cabeça e segurei o queixo dela.

Branco: Vou atrás pra saber onde ela foi enterrada. A gente vai lá e tu se despede do jeito que dá... Ele fez algo contigo?

Isabella: Não.

Branco: Vamos pra casa.

Fui segurando o ombro dela e saímos. No portão, os moleques já tavam entrando com o corpo do Jhony. Isabella desviou o olhar, e eu olhei de novo pra ter certeza: tava morto.

O motorista deu partida.

Branco: Tinha câmera ou vizinho?

Brito: Nada. Checamos tudo. Tá suave, chefe. Os caras tão lá te esperando, faz tempo.

Soltei o ar pelo nariz. Sabia que a merda me esperava.

Branco: Lobo deu notícia?

Brito: Tão limpando as ruas de lá.

Isabella: Vocês invadiram a Vila João?

Olhei pra ela e assenti.

Isabella: Me leva na casa da minha vó.

D2: Ih, Bella, ela não tá lá não. Fiquei sabendo que ela tava viajando, junto com a Neusa.

Isabella: Jhony disse que ela morreu.

Ela se ajeitou e colocou uma mão na minha coxa.

D2: K.O dele pra te afetar. Eu mesmo levei ela até o aeroporto semana passada. Foi pra Porto de Galinhas.

Ele riu, e Isabella ficou em silêncio. Soltei um suspiro discreto. Pelo menos isso.

Quando chegamos na entrada da comunidade, abaixamos os vidros. Do outro lado, meus soldados tavam reunidos. Kaká se apoiou no carro.

Kaká: Eles tão lá em cima. Melhor tu ir agora. Tão bolado contigo. Quer que eu leve a patroa em casa?

Olhei pra Isabella. Ela assentiu.

Branco: Não demoro. Depois passo na tua casa.

Isabella: Tá bom.

Abri a porta e desci. D2 ia atrás dela com Kaká, mas segurei o ombro dele.

Branco: Valeu pela ajuda. Sem tu, a gente nem achava ela.

D2: Tranquilo, pô.

Branco: Mas na boa, na minha favela tu não vai ficar. Mete o pé pra Vila João e troca um papo com Lobo.

D2: Só ajudei por consideração à Isabella. Mas não vou fechar com vocês. Não faz meu tipo isso.

Ele fez um joia e saiu.

Passei a mão na barba e respirei fundo. Meu corpo tava cansado, minha mente pior ainda. Mas eu sabia o que me esperava lá dentro.

Eu podia perder a gestão da favela por causa dessa história: por causa dela especificamente.

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