Branco
Ajeitei o fuzil nas costas e olhei pela brecha na janela. O tiro tava comendo firme, bala voando pra todo lado, e meus soldados seguiam firmes na atividade. O barulho dos disparos ecoava no beco, misturado aos gritos de quem tentava correr pro lado seguro.
O ar tava carregado de pólvora e tensão.
Por enquanto, eu tava na encolha, esperando mais informação. Eu precisava entender o motivo do Bope estar ali.
Não era operação de pacificação, disso eu tinha certeza. Eu conhecia os movimentos da polícia. Quando vinham só pra marcar território, as viaturas paravam na entrada, davam uns tiros de aviso e metiam o pé.
Mas ali era diferente. Tava organizado demais, objetivo demais.
Foi então que o rádio chiou, e a voz do Kaká soou desesperada:
Kaká: coé, Branco, tão levando a Isabella, porra! — a voz dele veio atropelada — Bope pegou ela!
Meu peito deu um aperto na hora. Senti o sangue subir quente pela cabeça.
Branco: qual rua?
Kaká: em frente à peixaria.
Branco: segura aí, não deixa eles descerem com ela. Eu tô indo.
Não tinha tempo pra pensar. Minha mente entrou no automático.
Joguei a pistola no coldre, ajeitei o fuzil e saí do cômodo velho onde tava escondido. O beco cheirava a queimado e sangue. Corri abaixado, desviando dos destroços, seguindo na coordenada que o Kaká me passou.
Cheguei na ponta do beco e vi.
Isabella tava sendo puxada por um deles, com vários outros ao redor fazendo a escolta. Ela debatia, se mexia, mas não adiantava.
Os caras eram grandes, treinados. Um deles a segurava pelo braço com força, enquanto os outros formavam um círculo de proteção ao redor dela.
Então, um dos policiais olhou ao redor e gritou, provocando.
Policial: cadê o chefe do tráfico de vocês, hein? Branco o nome dele, né? Manda ele mostrar a cara!
Aquela merda ali era pra mim. Levei a mão no rádio e chamei Kaká.
Branco: coé, Kaká, tá na escuta?
Kaká: tô, patrão. Quer que eu vá até você?
Branco: não. Eles tão aqui atrás de mim, vou dar o que eles querem.
Kaká: tá maluco, Branco? A gente dá conta deles.
Branco: a Isabella tá lá no meio, não dá pra ficar assim. Eu vou me entregar. Dá a ordem pra todo mundo recuar, não quero que ninguém caia junto comigo. Quando eu tiver lá dentro, aciona o Lobo. Ele sabe o que fazer.
Kaká: tu tem certeza?
Branco: eu tenho. Não deixa ninguém cair junto comigo.
Desliguei o rádio, sentindo o peso da decisão nas costas.
Passei a mão na cabeça, respirei fundo. Tirei o fuzil e a pistola, joguei no chão do beco e saí com calma, mãos na cabeça.
Branco: não era eu que tu queria? — falei alto, chamando atenção do policial que liderava a operação. Ele virou pra mim, rindo. — Eu tô aqui.
Policial: então é você quem comanda a Penha?
Branco: tu chamou pelo Branco, eu sou o Branco. Chefe do tráfico eu não sou. Se veio atrás de mim, tô aqui. Mas larga ela, minha mulher tá grávida.
Policial: levanta a camisa. Tá com alguma arma aí?
Branco: não. — levantei a camisa, virei de costas e depois voltei a ficar de frente — deixa ela sair, tem nada a ver com a situação.
Ele se aproximou devagar, ainda com a arma na mão, e deu uma risada da minha cara antes de dar a ordem de prisão.
Policial: tudo o que você disser aqui pode e será usado contra você no tribunal.
Ele puxou meu braço com força, me girando pra trás. O metal frio da algema apertou meus pulsos.
Olhei pra Isabella, que me encarava chorando, balançando a cabeça negativamente. Meu coração pesou.
Não podia fazer nada. Só assenti levemente e continuei andando, escoltado pelos homens.
Não tinha muita opção. Não era minha vida que tava em jogo. Isabella tava no meio do fogo cruzado, com meu filho dentro da barriga. Qualquer coisa que eu fizesse podia respingar neles, e só de pensar nisso me dava um rebuliço do caralho.
Faria isso mil vezes, se fosse preciso.
[...]
Dois dias trancado naquele cubículo minúsculo. O tempo passava arrastado. O colchão era fino, a comida intragável, e o cheiro do lugar misturava suor, cigarro e esgoto.
Meu advogado conseguiu me ligar. Trocamos algumas palavras rápidas. A audiência ainda não tinha data, mas ele ia fazer de tudo pra adiantar o processo.
Policial: levanta aí, Michael. Você vai ser transferido daqui uma hora.
Sentei no colchão, ajeitando a postura. Eles tentaram me arrancar alguma coisa nesses dias, mas não tinham nada pra usar contra mim. Minha ficha era limpa.
O tempo passou devagar até que vieram me buscar. Me levaram algemado até a van. Dois policiais ao lado, um dirigindo. Como se eu fosse algum criminoso de alta periculosidade.
Quando cheguei no presídio, o protocolo foi o mesmo de sempre. Mandaram eu tirar a roupa, fizeram vistoria, deram as roupas do sistema e, depois de um tempo, me jogaram numa cela que já tava entupida de gente.
Carcereiro: é aí que tu vai ficar. Entra.
Ele soltou a algema e me empurrou pra dentro.
Branco: qual foi? Tá empurrando por quê mesmo?
Carcereiro: aqui é assim, neguinho. A gente que manda.
Ignorei e entrei. Os manos me olharam de canto, avaliando. Um deles levantou e veio até mim.
Urso: eu sou o Urso, do Morro dos Prazeres. — estendeu a mão — Tu é quem?
Branco: Branco. — apertei a mão dele — Da Penha.
Urso: tô ligado quem tu é. Aqui, a gente é família. Se respeita pra ser respeitado. Comédia a gente não aceita. Tu tá sendo recebido de boa, mas qualquer vacilo é vala.
Peguei a visão. Ele era o líder dali.
Branco: tô na paz também.
Urso: senta aí, fica à vontade. Caiu por quê?
Branco: me entreguei.
O silêncio pesou.
Branco: iam levar a mãe do meu filho, grávida. Me rendi por ela.
Urso: fez certo. Família em primeiro lugar.
Fiquei trocando ideia com eles, pegando o clima do lugar. A real é que, na cadeia, se tu não se enturma, se fode sozinho.
Mas, naquela primeira noite, dormir foi impossível.
O chão era duro. Minhas costas doíam. O pensamento não parava. Minha família devia estar destruída. Isabella, então... ela presenciou tudo.
E pior, eu podia perder o nascimento do meu filho.
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No alto do caos
FanfictionIsabela é uma jovem de família ligada ao tráfico de uma favela rival. Em busca de liberdade, ela se aventura em território inimigo e conhece Branco. O que começa como uma atração perigosa se transforma em um romance intenso, mas cheio de conflitos.
