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MARATONA
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Branco

Fiquei alguns segundos olhando pra tela, vendo aquele borrão que, de alguma forma, era meu filho. Meu moleque.

Branco: Um moleque... — falei baixo e soltei um riso de canto, balançando a cabeça. — Caralho.

Meu peito ficou pesado, porque por mais que eu quisesse acreditar, tinha aquele 1% de dúvida. O resultado do DNA ainda não tinha saído.

Branco: O teste... sai quando?

O médico folheou alguns papéis antes de responder.

Dr. Nelson: No máximo uma semana.

Assenti devagar, respirando fundo.

Olhei mais uma vez pra tela antes dele desligar, e a ficha caiu de vez. Um moleque.

Saímos do consultório em silêncio, até que Isabella apertou minha mão.

[...]

Olhei ao redor do ambiente espaçoso e pouco iluminado. O cheiro de cigarro misturado com perfume barato ainda impregnava no ar. As barras de ferro no palco deixavam claro o tipo de lugar que seria.

Minha mente já trabalhava nos planos do que eu poderia fazer com esse bordel. Podia visualizar as mudanças, as melhorias, o fluxo de dinheiro entrando sem parar.

Estiquei meu braço para Leonel e apertei sua mão firme, selando o acordo.

Branco: Eu gostei. Negócio tá fechado. — Estendi a mão novamente.

Leonel: Eu coloquei as barras porque você pediu pra ver como ficaria. Isso aumenta na compra do ponto.

Branco: Sem problema. Eu vou fechar contigo. Acerta com ele aqui, Kaká. — Fiz um sinal de cabeça. — Quero a chave pra hoje, tem como, Leonel? Tô pensando em reabrir semana que vem já.

Leonel: Não tem muita coisa pra reformar, então é moleza.

Assenti, satisfeito. Acertei o que faltava com ele e segui pra boca.

Eu precisava direcionar minha renda pra outra coisa além do tráfico. Na hora que soube que esse lugar tava vago, já visualizei tudo. Aqui já era um puteiro furreco e, mesmo assim, tinha cliente. Na minha mão, esse lugar ia virar um sucesso.

Cheguei na boca e encostei com Lobo, que tava sentado em uma cadeira de plástico, tragando um cigarro e olhando o movimento.

Lobo: Tu tem certeza disso? Querendo ou não, tua tropa me ajudou, você tava lá também. A gente divide. Metade minha e metade tua.

Branco: Eu tô suave, Lobo. Se eu virar um dos de frente da Vila João, os caras vão cair em cima. Não quero confusão.

Lobo: Mas tu sabe que, mesmo não virando de frente, as minhas quebradas também são tuas. Deixa eu te dar pelo menos uma boca. Tu gerencia maneiro e fica com o lucro dela.

Branco: Vou ficar mais rico ainda, Lobo. Hoje a gente comemora em dobro, pela tua conquista e porque agora eu sou um homem de negócios.

Lobo: Qual foi? Tá aprontando o quê?

Kaká, que tava do lado mexendo no celular, olhou pra gente e soltou a bomba.

Kaká: Branco virou cafetão agora. Comprou o bordel.

O Lobo deu uma gargalhada alta, balançando a cabeça, sem acreditar.

Lobo: Papo reto? Não tô acreditando...

Branco: A parada vai dar dinheiro, tu vai ver. Vou deixar um ambiente maneiro lá. Depois eu te levo pra conhecer o lugar.

Lobo: Vou ser cliente fiel, pode crer.

Soltei uma risada e peguei meu celular. Abri o status do WhatsApp e vi uma foto que a Isabella tinha postado há menos de uma hora.

Toda maquiada, com um vestido que deixava a barriga de fora. Um tempo atrás, ninguém olharia e diria que ela estava grávida. Agora, do nada, o corpo começou a mudar, a barriga cresceu e revelou a gravidez pra qualquer um que olhasse.

Passei a mão na barba e bloqueei o telefone, deixando em cima da mesa. Peguei um copo de cerveja e levei até a boca, sentindo ela descer gelada.

Brito encostou do meu lado e chamou o garçom.

Brito: Vai subir pro pagode que horas?

Branco: Tomar esse litrão e já broto.

O garçom trouxe um copo vazio e encheu de cerveja pra ele.

Brito: Valeu, chefe... E a criança? Fiquei sabendo que é um moleque.

Branco: Ainda bem. Menos um problema. Se a criança não for minha, eu não sei nem o que vou sentir, irmão. O teste tá pra sair. Tem que esperar até semana que vem.

Brito: Pra mim, tu já tinha caído a ficha que seria pai. Relaxa, a cria é tua. E tu e a menina, tão se dando bem?

Branco: A gente troca ideia maneiro, mas às vezes ela é cabeça dura demais. Muda comigo do nada, e eu tô ligado que é quando sai coisa em página de fofoca ou quando me vê com alguém.

Brito: Ela gosta de você, Branco. Só que ela é nova pra caralho. Saiu das fraldas agora. Você não pode culpar ela por ser imatura às vezes. Teve nenhuma recaída?

Branco: Uma vez. Mas faz tempo. E sua mulher, se resolveu?

Brito: Tá melhorando. Devagar, mas tá.

Era raro eu falar sobre minha vida pessoal com alguém. Mesmo confiando nele, a correria do dia a dia não permitia essas conversas. Mas eu respeitava muito o Brito. Ele sempre esteve do meu lado, então fiz questão de retribuir, entregando mais uma boca na gestão dele. O cara merecia.

Quando chegamos no pagode na Vila João, o Lobo já tinha organizado tudo. A favela inteira colou, geral curtindo. Desde que ele assumiu a gestão, teve que limpar a bagunça que a gente fez e ganhar a confiança dos moradores. Mas foi tranquilo, porque o Jhony já não atuava bem ali fazia tempo.

Encostamos num canto, pedimos um balde de energético e gelo de coco pra acompanhar o uísque na garrafa fechada.

O nível das meninas tava elevado. Vários rostinhos novos por ali, só mulher bonita. Eu observava de canto, reparando no jeito que algumas olhavam na nossa direção, tentando entender quem a gente era só no olhar.

Vi uma ruiva sorrindo pra amiga dela, e a amiga me olhava. Assim que percebeu que eu tava olhando de volta, cutucou a ruiva discretamente. Ela virou o rosto pra minha direção, e eu pude reparar melhor nos traços dela.

Soltei um riso leve, tomando mais um gole do uísque.

Meu ganso tava precisando ser afogado urgente. De preferência, com qualquer mulher que não fosse branquinha do cabelo longo e moreno.

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