Isabella
Eu estava enrolando o Pedro fazia duas semanas. Ele vivia me mandando mensagem, me chamando para sair, e eu sempre negava. Não era por falta de vontade, porque, sinceramente, o cara era interessante, mas minha vida não me permitia esse tipo de liberdade.
Eu tinha um bebê recém-nascido em casa. Guilherme ainda mamava no peito, e simplesmente sair sem ele parecia uma missão impossível.
Talita: cara, dessa forma você nunca vai sair. Eu tô falando que cuido dele, você tira leite na bomba e deixa aí. Só não demora.
Isabella: eu não sei não... vou pensar.
Talita: você não vai ser menos mãe se ficar fora por algumas horas. Você é quem fica com ele 24 por 48. Ele nasceu tem um mês e você não ficou longe dele nem por 20 minutos.
Suspirei, me encostando na parede. Ela estava certa, e eu sabia disso. Mas não era só a preocupação com o Guilherme que me fazia hesitar.
Ficar com alguém depois de tanto tempo era um desafio maior do que eu imaginava. Eu estava acostumada com o Branco. Mesmo sem termos um relacionamento, meu corpo já sabia o caminho até ele, conhecia o toque, o cheiro, a presença. E agora, abrir espaço para outro homem parecia um passo grande demais.
Mas, ao mesmo tempo, eu queria sair. Queria me sentir mulher de novo, não apenas mãe.
Depois de muito pensar, tomei minha decisão. Não podia demorar muito, mas eu iria. Tirei leite e deixei reservado para a Talita dar ao Gui se ele precisasse.
Isabella: qualquer coisa você me liga, entendeu?
Talita: fica em paz, tá comigo, está com a madrinha — falou, me analisando de cima a baixo. Um sorriso maroto surgiu em seu rosto. — Tá muito linda, de verdade.
Isabella: obrigada, Tata. E valeu por quebrar esse galho.
Dei um beijo no meu filho, que dormia no berço, e saí assim que Pedro avisou que já estava na barreira. Preferi que não saíssemos por aqui, porque a favela era cheia de fofoqueiros, e eu não queria ficar cismada a noite inteira.
Vi o carro parado à frente e fui na direção. Conforme caminhava, sentia os olhares sobre mim. Eu sabia exatamente o que estava acontecendo. Os caras ali estavam registrando minha saída para contar ao Branco.
Pedro desceu do carro antes que eu chegasse, vindo até mim com um sorriso despreocupado no rosto.
Pedro: boa noite — ele me olhou de cima a baixo, descarado, antes de abrir um sorriso ainda maior. — Tá linda você.
Isabella: brigada — sorri de leve, mordendo o canto do lábio. — Você também tá bonito.
Ele usava um short jeans e uma camisa branca, o topete do cabelo arrumado de um jeito bom.
Pedro: vamos? — perguntou, colocando uma mão firme na minha cintura enquanto abria a porta do carro para mim.
O toque foi sutil, mas suficiente para me fazer sentir seu calor. Entrei e observei o interior do carro. O couro bege deixava tudo mais bonito, dava um ar de elegância que combinava com ele.
Pedro deu a volta e entrou também, ligando o carro e partindo rumo a um barzinho próximo.
Pedro: nem acredito que consegui te trazer. Achei que ia me enrolar mais.
Ele apoiou os cotovelos na mesa quando nos sentamos, me encarando com aquele sorriso convencido.
Isabella: eu não te enrolei, só é difícil sair com um bebê recém-nascido em casa.
Pedro: eu entendo, pô, é foda mesmo. Você cuida dele sozinha?
Isabella: eu e a Tata no dia a dia, mas tem a família paterna, que vai ver ele direto.
Pedro: a gente curte aqui, troca uma ideia, e quando você quiser eu te levo.
Assenti, bebendo meu suco. Ele me observava como se estivesse absorvendo cada detalhe meu.
Pedro: Talita já tinha me falado sobre você antes, mas nem imaginei que era tudo isso de mulher. Tu é surreal.
Isabella: vai encher meu ego e depois não vai aguentar — brinquei.
Pedro riu, inclinando a cabeça de leve.
Pedro: tô falando sério. Você é foda. Diferente.
Ele jogou essa no ar como quem não quer nada, mas o jeito que me olhava entregava o jogo.
Isabella: Tata me falava que você era bonito... mas um cachorro também.
Pedro: calúnia — riu — eu vivo a vida, mas não sou cachorro. Só não achei ninguém pra parar meu trem ainda.
Isabella: tem que aproveitar mesmo... quantos anos você tem, mesmo?
Pedro: tô com 23. Só não finjo que não sei a sua idade porque já vi no seu Instagram.
Isabella: stalkeando na cara de pau mesmo?
Ele deu de ombros, sorrindo de canto.
O clima estava gostoso, leve. Ele sabia conduzir uma conversa, fazia eu me sentir confortável. O tempo passou sem que eu percebesse. Quando notei, já haviam se passado duas horas.
Isabella: acho melhor eu ir.
Pedro não reclamou, pareceu entender o meu lado. Chamou o garçom, pagou a conta e saímos do bar. No carro, o silêncio se instalou por alguns segundos.
Isabella: obrigada por hoje. Foi a primeira vez que saí assim em anos, e foi gostoso.
Pedro: eu espero que tenha outras vezes — colocou a mão na minha coxa e apertou de leve, me olhando com um brilho intenso nos olhos. — Gostei de você. É maneira.
Meu corpo reagiu ao toque, e eu sabia que ele percebeu. O jeito que seu olhar desceu para a minha boca entregava suas intenções.
Isabella: agora que sei que você é legal, se me chamar, eu juro não te enrolar.
Ele riu, baixo. E então, ficamos nos encarando. Senti seu corpo se inclinar para mim, sua mão deslizar até a lateral do meu pescoço.
Pedro: posso?
Assenti devagar.
Ele não hesitou. Sua boca encontrou a minha com uma intensidade lenta, calculada. O beijo começou suave, mas logo tomou forma.
Minha mão subiu por dentro da sua camisa, arranhando levemente sua pele. Ele gemeu contra meus lábios e, num movimento rápido, enfiou os dedos no meu cabelo, puxando forte.
Me afastei levemente para recuperar o fôlego, e ele mordeu meu lábio antes de selar nossa boca mais uma vez.
Pedro: tem certeza que não quer que eu suba?
Isabella: tenho. Aqui tá bom pra mim.
Pedro: então me avisa quando chegar. Se cuida.
Desci do carro ainda sentindo os efeitos do beijo. Entrei na comunidade sorrindo à toa, mas o sorriso morreu quando senti passos se aproximando.
Virei e me deparei com Lobo.
Lobo: sabe que eu vou ter que contar pra ele, né?
Cruzei os braços, encarando ele sem paciência.
Isabella: por mim, você fale o que quiser. Com todo respeito, mas eu não sou mulher do Branco.
Lobo: tu foi visitar o cara...
Isabella: e ninguém veio me falar que ele tava recebendo visita de outra mulher? — ri irônica. — Todo mundo adora me vigiar, mas ninguém me avisou da Nicolle indo lá. Cômodo, né?
Lobo ficou em silêncio.
Isabella: vocês não têm direito nenhum de falar da minha vida.
Não esperei resposta. Dei as costas e fui embora.
Branco podia ter seus motivos, mas eu tinha os meus. E, dessa vez, não ia deixar passar.
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No alto do caos
FanfictionIsabela é uma jovem de família ligada ao tráfico de uma favela rival. Em busca de liberdade, ela se aventura em território inimigo e conhece Branco. O que começa como uma atração perigosa se transforma em um romance intenso, mas cheio de conflitos.
