Branco
Robacena: Sorte a tua que a gente tem consideração por ti, tá ligado? O chefe tá boladão contigo, e por ele, já tinha encomendado tua morte.
Xande: A ideia que chegou na gente é que tu tá acolhendo gente de outra facção aqui. É isso mesmo? Solta o verbo pra gente te entender.
Branco: Quem deu a letra pra vocês, deu errado!
Lk: Tu desrespeitou uma ordem que veio de cima, Branco. Tu não tinha aval pra fazer mais nada e matou o cara. E ainda largou o corpo. Quem foi limpar tua besteira foram meus capangas.
Branco: Eu não dou satisfação da minha vida pra ninguém, porque eu não fiz nada que desrespeitasse a facção. Abracei inimigo nenhum, dei casa e quem veio morar aqui foi a mãe do meu filho.
Eles continuaram me olhando com cara fechada. Sentei na mesa, cotovelos nos joelhos.
Branco: Isabella é sobrinha do Jhony, mas nunca trabalhou pra ele. Frequentava os bailes aqui, e eu não tava ligado no proceder dela até então. Quando descobri, fiquei na neurose, pô, mas a mina apareceu grávida. O que eu ia fazer? Meter o pé e deixar ela jogada?
Xande: Não sabia que tu ia ser pai... Parabéns. — falou baixo, meio sem jeito. — Mas se for isso mesmo, quando a criança nascer, a gente vai ter que passar a mina. Tu tá ligado, né?
Branco: Ela é mãe do meu filho. Ninguém vai tocar nela. Seja quem for.
O silêncio pesou e meu maxilar trincou.
Branco: Hoje eu fui atrás dela porque o próprio tio sequestrou a mina. O mesmo que matou o pai dela. Tu acha mesmo que a garota era fechada com ele? Porra nenhuma...
Brito: Papo dele é verídico. Fui junto com ele buscar a mina. Ela tava de bucha na história.
Robacena: Nada passa despercebido do chefe, pô. Ele ficou só comendo pelas beiradas até pegar a visão toda.
Apontou pro Brito.
Robacena: Tu foi cobrado por conta da tua mina. Ela conhecia a sobrinha do Jhony e trouxe ela pra cá. Não foi? Agora tá defendendo o cara por quê?
Brito: Certo é certo. Ele é meu irmão, e eu tô ligado na situação toda. Nem eu nem ele sabíamos de onde a mina era. Quando soube, ficou boladão, mas depois que ela veio grávida, não tinha como ninguém por a mão nela.
Eu via nos olhos deles que minha resposta não tinha sido suficiente. Não dava pra saber se iam deixar quieto ou se minha sentença já tava decretada.
Passei a língua nos lábios, respirei fundo e soltei:
Branco: Se o chefe de vocês tá tão bravo assim, por que ele não bota as caras? Só fica de leva e trás.
O clima pesou.
Xande: Calma aí, parceiro. Tu tá se descontrolando e faltando com respeito com paizão já. Tu sabe por que ele não aparece. A gente veio atrás de tu pra resolver, não pra levar recado.
Robacena: Você ou ela. Escolhe quem será cobrado.
Meu sangue gelou, mas não pisquei.
Branco: Nela ninguém vai encostar. Se for pra vocês meterem o pé da minha favela e deixar quieta essa história, pode me cobrar.
[...]
Cuspi no chão, sentindo o gosto amargo do sangue na boca.
Brito me olhou balançando a cabeça e veio me ajudar a levantar.
Brito: Vou chamar a enfermeira. Quer ir pra onde?
Não respondi. Meu corpo doía pra caralho. Fiz uma careta quando ele tocou no meu ombro.
Tomei uma surra do caralho, mas apanhei quieto e de cabeça erguida. Sabia que ia ser cobrado. Sabia que merecia. No crime, quem cobra também é cobrado.
Brito me ajudou a entrar no carro. Fechei os olhos e senti minha vista pesar. Apaguei ali mesmo.
[...]
Acordei no sofá de casa.
Angélica tava sentada na poltrona, falando baixo com Brito. Quando me viu, se levantou rápido, os olhos cheios de lágrimas.
Angélica: Meu irmão... um dia você ainda me mata do coração.
Se aproximou e beijou minha testa.
Angélica: A enfermeira tá chegando. Quer que avise alguém? Não contei pra mãe e nem pra Isabella. Não sabia se queria.
Branco: Não precisa avisar.
Falei baixo, sem ânimo pra conversa.
A enfermeira chegou, limpou os cortes e fez uns curativos. Por sorte, nada quebrou. Mas eu tava todo fodido.
Tomei uns remédios e fiquei deitado. A porta se abriu, e vi Lobo entrando na sala. Ele tava com cara de morto. Olheiras fundas, claramente sem dormir.
Lobo: Que isso, Branquinho? Tomou uma surra bem tomada, hein?
Branco: Brito é uma marica fofoqueira, hein...
Resmunguei, rindo de canto.
Brito: O cara ligou perguntando de tu, falei tudo mesmo. Ele ia vir de qualquer jeito.
Lobo: Vim te ver, mas também trazer notícias. A mãe do Jhony brotou na favela hoje. Não sabia o que fazer.
Pisquei, tentando processar.
Lobo: Não deixei ela subir, mas avisei que tua mina tava por aqui. A velha quis vir comigo.
Fechei os olhos. Respirei fundo.
Branco: Tô sem cabeça pra nada agora. Brito, resolve essa parada. Leva ela na casa da Isabella. Depois eu vejo o que eu faço.
Brito: Fica em paz. Eu resolvo.
Fiquei ali, trocando uma ideia com Lobo. Ele me atualizou das tretas e depois foi embora.
Quando me virei, Angélica me olhava de um jeito estranho.
Sabia que ia vir merda.
Angélica: É sério todo esse burburinho? A Isa é sobrinha de alemão?
Fiquei em silêncio.
Angélica: Você não vai matar ela, né? Se a mãe souber disso, vai pesar pra tu. Ela já não gosta da menina...
Minha paciência acabou.
Branco: Se for pra ficar falando merda, pode pegar o beco junto com eles.
Minha voz saiu firme.
Branco: Eu vou descansar. Não quero ninguém me enchendo o saco.
Ela fechou a cara, mas ficou quieta.
A noite tinha sido longa demais e eu precisava processar tudo.
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No alto do caos
Fiksi PenggemarIsabela é uma jovem de família ligada ao tráfico de uma favela rival. Em busca de liberdade, ela se aventura em território inimigo e conhece Branco. O que começa como uma atração perigosa se transforma em um romance intenso, mas cheio de conflitos.
