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Isabella

Terminei de me arrumar, hoje era o julgamento do Branco, pelo que entendi seria decidido se ele ia ser declarado inocente ou culpado. A audiência era pra ter sido antes, mas cancelaram. Então fazia 6 meses e uns dias que ele se encontrava lá dentro.

Talita: tá pronta? — falou balançando o Guilherme no colo.

Isabella: estou nervosa.

Talita: vai dá tudo certo, você ensaio milhares de vezes com aquele advogado. — eu me olhei pro espelho passando a mão nos meus fios de cabelo — Pedro perguntou sobre você ontem.

Isabella: eu sei que sumi do nada, sinto que preciso explicar as coisas pra ele.

Basicamente depois daquela conversa com Branco eu ainda me encontrei algumas outras vezes com ele, ficamos. Porém depois que eu tive outra conversa com Michael, aonde eu realmente parei de ver ele e respondia de vez em nunca.

Por mais que a gente nem tinha nada, eu sinto o dever de dar a mínima satisfação pra ele.

Talita: você não precisa, mas é bom né. — concordei.

Isabella: eu vou indo, vou de carona com a Jaqueline.

Talita: me dá notícias, eu e o Gui estamos curiosos pra saber já.

Dei um beijo no meu neném e eu saí de casa vendo o carro dela parado na minha porta já. Estava mega cansada, ontem fiquei o dia na rua vendo os fornecedores e a noite não dormi bem com ansiedade.

Quando a gente chegou eu senti a energia tenebrosa desse lugar, começou me dar um frio na barriga, um nervosismo. Eu respirei fundo uns minutos antes de entrar pra poder me acalmar.

Henrique: bom dia — apareceu no corredor com seu terno e sua maleta — está pronta?

Isabella: sim, tô. Eu acho né. — ri nervosa.

Henrique: só fazer como combinamos que a causa está ganha. Vamos entrar que já vai começar, melhor não atrasar.

Levantamos da cadeira e entramos na sala que estava preenchida apenas pelo juíz, policiais, conselho e a gente. Eu me sentei na primeira cadeira à frente, logo o juíz anunciou o início da sessão.

Juiz: Boa tarde a todos. Daremos início à audiência de custódia do réu Michael Inácio, detido sob suspeita de tráfico de drogas, conforme o artigo 33 da Lei 11.343/2006, e de sequestro, conforme o artigo 148 do Código Penal. O Ministério Público tem a palavra para expor os fundamentos da prisão.

Promotor: Excelência, o réu foi detido em uma favela conhecida pela intensa atividade do tráfico de drogas. No momento da abordagem, ele tentou se evadir ao notar a presença policial. Além disso, há uma denúncia anônima indicando que ele é um dos principais líderes do tráfico na região, sendo apontado como "de frente" da comunidade. Outro fato grave é que, segundo a mesma denúncia, o réu teria envolvimento no sequestro de um indivíduo, que estaria sendo mantido sob vigilância do tráfico dentro da comunidade. Durante a ação policial, essa suposta vítima foi encontrada dentro de um estabelecimento da comunidade. Diante disso, a prisão foi efetuada para garantir a ordem pública e possibilitar o aprofundamento das investigações.

Juiz: Defesa, qual a sua manifestação?

Henrique: Excelência, a defesa reforça que o réu é apenas um morador da comunidade e não pode ser responsabilizado pelo tráfico de drogas da região apenas por estar presente no local. No momento da abordagem, ele não portava drogas, armas ou qualquer material ilícito. Quanto à denúncia de sequestro, trata-se de uma alegação sem fundamento. Tanto que a suposta vítima foi localizada e está presente na audiência para prestar esclarecimentos. A defesa solicita que ela seja ouvida, pois acredita que tal depoimento pode esclarecer a verdade dos fatos. — falou mantendo a postura e exalando poder.

Juiz: O Ministério Público tem alguma objeção ao depoimento da testemunha?

Promotor: Não, Excelência. É do interesse da acusação que a verdade seja esclarecida.

Juiz: Sendo assim, ouviremos a testemunha. Por favor, se identifique e esclareça se, de fato, estava sendo mantida em cativeiro contra sua vontade. — entrei e me sentei na cadeira. Olhei pra cara do Branco que confirmou com a cabeça e eu comecei a falar.

Isabella: Boa tarde, Excelência. Meu nome é Isabella. Quero deixar claro que não fui sequestrada nem estava sendo mantido à força. Eu estava na comunidade por vontade própria, pois eu me mudei para lá e já me relacionei com o Michael, temos um filho de 6 meses. No dia da operação eu estava grávida ainda, fui supreendida quando quiseram me levar e a forma com que eles guiaram a situação, estavam me levando a força. Não fui ameaçada, nem coagida por ninguém lá.

Juiz: Ministério Público, deseja se manifestar diante do depoimento da testemunha?

Promotor: Excelência, embora a testemunha negue o sequestro, o contexto da denúncia não pode ser ignorado. A presença dela no local e o relato da polícia sobre a situação exigem investigação aprofundada. Ainda assim, reconhecemos que, no momento, não há prova concreta de que o réu tenha mantido essa pessoa em cativeiro contra sua vontade. — respirei fundo e olhei para as minha mãos que soavam.

Henrique: Excelência, a defesa reforça que denúncias anônimas sem embasamento fático não podem justificar a prisão de um cidadão. Tanto no caso do tráfico quanto no suposto sequestro, não há qualquer elemento concreto que ligue o réu às acusações.

O Juíz pediu um intervalo, já estava ficando nervosa com a situação, mesmo parecendo que tudo era ao nosso favor.

Henrique: vamos entrar, já vai começar de novo.

Isabella: não vou precisar falar mais né? — ele negou e eu entrei na sala mais aliviada.

Juiz: Bom...Considerando os elementos apresentados, verifico que a prisão foi baseada em denúncias anônimas e circunstâncias que, embora suspeitas, não possuem provas materiais contra o réu. A própria testemunha refuta a tese de sequestro, e não há flagrante de tráfico de drogas ou apreensão de entorpecentes com o acusado. Dessa forma, concedo a liberdade provisória ao réu, com obrigação de comparecimento periódico à Justiça e proibição de contato com possíveis investigados. As investigações prosseguirão para melhor esclarecimento dos fatos.

Eu levantei aliviada e abracei a Angélica que me acompanhou e me acalmou hoje. Minha vontade era correr até o Branco, mas não podia. Ele apenas me deu um sorrisão de orelha a orelha.

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