MARATONA
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Isabella
Eu tava precisando de um dia só pra mim. Peguei meu dinheiro e fui me mimar. Comprei umas roupas pra mim e pro bebê, depois passei no salão, fiz meu cabelo, e pra fechar com chave de ouro, cai pra pista com a Talita.
Primeiro, fui na faculdade trancar minha matrícula. Por enquanto, acho melhor dar um tempo. Depois, partimos pra um restaurante japonês chique, comemos até dizer chega. A intenção era ir pra casa e descansar, mas o marido da Talita avisou que tava na Vila João, num pagode de comemoração.
Fazia um tempo que eu não botava os pés aqui, e confesso que bateu saudade de sentir essa energia. Mas, assim que pisei, senti que tinha algo diferente. Os soldados, o clima, tudo parecia mudado. Não era nada ruim, só... diferente.
Ainda na entrada, demos de cara com o D2, que tava no meio da mudança. Ia sair da favela e do movimento. Tava com uma mochila preta nas costas. Quando contei da minha vó, ele ficou chocado sem entender o quão longe ela foi.
Isabella: Mas vamo com a gente no pagode curtir um pouco, sua despedida.
D2: Sei não, pô. Geral foi expulso, só deixaram eu fazer minha mudança pela força que dei no seu sequestro. Se eu aparecer lá, pega mal.
Isabella: Pega nada, cê vai tá comigo. Fica um pouco só.
Talita me olhou de canto, franzindo a testa.
D2: Tô com meu primo lá em casa, vou buscar ele e broto lá, pode ser? Vou fazer um dez só, não quero problema.
Isabella: Vou tá na sua espera, não demora.
Ele concordou e saiu andando, enquanto Talita me cutucava.
Talita: O cara não deveria nem estar aqui e você arrastando ele pro pagode. Isso só porque o Branco vai estar lá?
Isabella: Não viaja, Talita. Conheço o D2 muito antes do Branco, sempre fui amiga dele, e não vai ser agora que vou deixar de falar com ele, ainda mais porque salvou minha vida.
Talita: O tanto de cara lindo, solteiro e sem problema e você só repete as figurinhas.
Isabella: Que tanto de cara é esse? Tão escondido, é?
Talita: Teu problema é que só tem olhos pro Branco. Se estivesse aberta pra conhecer novas pessoas, veria que tem muita gente bem mais interessante.
Isabella: Meu encanto por esse cafajeste tá passando cada dia mais.
Falei isso, mas no fundo sabia que era conversa fiada. Ainda mais quando bati o olho nele, um pouco mais à frente, encostado na moto, trocando ideia com uma garota. Vi os dois rindo, e ele na maior intimidade.
Passei perto deles, segurando a pose.
Isabella: Boa noite.
A menina sorriu simpática e respondeu. Já ele? Ficou me olhando calado. Segui sem dar moral.
O comércio tava lotado. Pegamos uma mesa e sentei com a Talita, de costas pros amigos dele. Sabia que ele ia vir atrás de mim, então preferi ficar longe.
Soltei os cabelos e me levantei. Meu corpo tava pedindo pista. Comecei a sambar no ritmo da música, solta, leve. A barriga não me impedia de nada, e eu tava dando aula ali.
Quando D2 chegou, pegou uma cerveja e veio dançar comigo. Ele era daqueles pagodeiros natos, com molejo de quem cresceu no samba.
Isabella: Até que você tem o molho, hein.
D2: Sempre tive, Bella. Pai dá aulas no pagode, tem pra ninguém.
Ri e olhei pro primo dele, que tava plantado na cadeira sem se mexer.
Isabella: E seu primo? Não dança, não bebe, não come?
D2: Ele é tímido, deixa o cara... O cara nem queria tá aqui, acha que vai dar confusão.
Talita riu e jogou a verdade na roda.
Talita: Esperto ele, pelo menos um com juízo. Assim que o Lobo te ver, vai dar B.O.
D2: Tô ligado, por isso quando ele chegar, eu vou meter o pé. — Pisca pra ela, e a gente ri.
Eu tava curtindo como se não houvesse amanhã. Energia lá no alto. Minha única vontade agora era uma dose de cachaça. Mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa...
D2: Vou embora, princesa.
Isabella: Mas já?
D2: Se não picar a mula agora, eu vou sair sem minhas pernas. Vim ainda por sua causa, merecia alguma coisa, né?
Isabella: Você nunca perde a oportunidade.
D2: Quem não chora, não mama. Vale a pena tentar.
Revirei os olhos, rindo.
Isabella: Tchau, D2. Se cuida, viu?
D2: Sempre, Bella. E você, cuida de você e do neném.
Isabella: Um menino.
Ele sorriu, colocou a mão na minha barriga.
D2: Cuida do molecote.
Ele subiu a mão até o meu cabelo, jogou pra trás devagar, se aproximando. Senti a mão dele segurar firme meu pescoço. No ponto exato que me fez arrepiar e eu suspirei pesado próximo ao seu corpo. Ele deu um beijo quase na minha boca como provocação e eu não resisti.
Me entreguei ao momento e puxei ele para um beijo. Um beijo intenso que fez com que eu me entregasse 100% a aquele momento, aproveitando cada segundo.
Quando acabamos o D2 sorriu de canto, satisfeito.
Sorri de leve e me despedi, vendo ele e o primo sumirem no meio da multidão. Virei pra trás procurando a Talita, e foi aí que dei de cara com Branco.
A expressão dele era a pior possível. Olhar carregado. O clima pesou na hora.
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No alto do caos
FanfictionIsabela é uma jovem de família ligada ao tráfico de uma favela rival. Em busca de liberdade, ela se aventura em território inimigo e conhece Branco. O que começa como uma atração perigosa se transforma em um romance intenso, mas cheio de conflitos.
