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Isabella
dias depois.

Troquei o Guilherme pela décima vez no dia. O moleque era um verdadeiro cagão. Nem tinha completado um mês de vida e já me fazia gastar um pacote inteiro de fraldas por dia.

Coloquei a roupinha nele e me deitei na cama para amamentar, quarto estava em meia-luz, o ventilador girava devagar, e eu aproveitava o silêncio para pensar.

O advogado do Branco disse que viria hoje. Queria alinhar alguns detalhes do caso e também precisava da minha ajuda para alguma coisa. Eu imaginava que fosse sobre o depoimento, e já estava decidida a colaborar.

Enquanto ele não chegava, peguei o celular e comecei a pesquisar fornecedores. Desde que o Guilherme nasceu, eu pensava cada vez mais no meu futuro. Mesmo tendo a renda dos aluguéis, sabia que não podia contar só com isso.

A maternidade me fez ver as coisas de outra forma. Precisava de um plano B, algo que me garantisse estabilidade. Foi aí que tive a ideia de abrir uma loja de roupas infantis aqui na comunidade. O que eu precisava agora era encontrar bons fornecedores e um ponto para montar a loja.

Estava tão concentrada nisso que me assustei ao ouvir batidas na porta. Suspirei, ajeitei o Gui no berço com todo o cuidado e fui atender. Quando abri, dei de cara com um homem alto, de terno alinhado e um sorriso profissional.

Isabella: Boa tarde, doutor.

Henrique: Boa tarde, Isabella. Tudo bem?

Isabella: Estou bem, pode entrar. Quer um café, água, alguma coisa pra comer?

Henrique: Aceito um copo de água, por favor.

Fui até a cozinha, peguei um copo e entreguei para ele. O advogado se sentou no sofá da sala, ajeitou a pasta de documentos no colo e me olhou sério.

Henrique: Bom, vim aqui repassar o caso do Michael com você, porque é o seguinte... Ele é réu primário e não há nenhuma prova concreta contra ele. Não podem incriminá-lo diretamente. Ele foi preso devido a uma ocorrência de sequestro, e seu nome consta como a vítima. Estou juntando argumentos para justificar isso diante do juiz, tentando conseguir que ele saia como inocente após o julgamento. Mas, para isso, preciso que você testemunhe a favor dele.

Fiquei em silêncio por um instante. Eu já imaginava que seria algo assim, mas ouvir da boca do advogado tornava tudo mais real. O Branco estava preso por minha causa. Mesmo que ele tenha me levado à força, não era justo ele pagar por algo que não fez.

Isabella: Eu posso testemunhar, mas preciso saber o que falar. E se perguntarem sobre o meu tio? Sobre o motivo da minha avó ter denunciado?

Henrique: E eles vão perguntar. Eu vou te ajudar a alinhar as respostas para tudo dar certo. A audiência está marcada para daqui dois meses e meio já. Antes disso, eu entro em contato para repassarmos cada detalhe. Mas é importante que estejamos de acordo nas respostas. Se eles desconfiarem de qualquer coisa, podem acabar colocando outros crimes nas costas do Michael.

Assenti, sentindo um peso enorme nas costas.

Isabella: Tudo bem. Até o dia, a gente acerta o que eu preciso falar.

Henrique: Vocês estão em união estável?

Isabella: Eu e ele não estamos juntos.

Henrique: Eles sabem que vocês têm um filho juntos. Foi com base nisso que conseguimos a sua carteirinha de visita. Mas ela foi encerrada ontem e incluímos outra no lugar. Por isso, é importante que você frise que não são casados, mas que foi até lá para conversar sobre o bebê. Vamos usar o fato dele ter se tornado pai agora. Quem sabe isso amolece o coração do juiz?

Ele riu, tentando quebrar o clima tenso, mas eu não tinha humor para brincar.

Isabella: Espera... que outra carteirinha foi incluída? A mãe dele?

Henrique: Não. Infelizmente, não conseguimos comprovar nada para que ela pudesse visitar. Foi incluído um registro de outra mulher.

Senti meu coração apertar.

Isabella: O senhor sabe o nome?

Henrique: Sei... mas não sei se devo te contar. Tenho receio do que o Lobo pode fazer comigo.

Isabella: Se o senhor não contar, eu não testemunho. Aí você vai ter que se preocupar com o que ele vai fazer se eu não ajudar a tirar o Branco de lá.

Henrique arregalou os olhos, claramente desconfortável.

Henrique: Só não diga que essa informação saiu de mim, por favor... O nome dela é Nicolle Almeida.

O silêncio caiu sobre a sala.

Eu pisquei algumas vezes, tentando absorver aquela informação. Nicolle. De novo. Não podia ser coincidência. Não bastava tudo o que já aconteceu, agora ela também estava indo visitar o Branco na cadeia?

Agradeci Henrique pela conversa e garanti que não falaria nada para ninguém sobre como descobri. Assim que ele saiu, respirei fundo para não gritar e acordar o Guilherme. Eu estava puta para caralho.

O pior era saber que o Branco estava preso há menos de quatro meses e já estava nesse desespero. Isso só confirmava o que Talita sempre dizia: homem nenhum fica sem sexo.

Talita entrou na sala, franzindo a testa ao ver minha cara de poucos amigos.

Talita: Que carrão era aquele lá fora?

Isabella: O advogado veio aqui.

Ela se jogou no sofá e me olhou desconfiada.

Talita: E por que essa cara?

Isabella: Você não vai acreditar no que eu descobri. Nicolle vai visitar o Branco.

Talita arregalou os olhos.

Talita: O quê? Por que logo ela?

Isabella: O advogado me contou.

Talita: Se eu fosse você, nem ajudava mais com depoimento nenhum. Deixa ele lá.

Cruzei os braços, pensativa.

Se fosse só por mim, depois dessa eu largaria o Branco na cadeia sem pensar duas vezes. Mas eu cresci sem um pai presente, e não queria que o meu filho passasse por isso.

Só que o Branco ia ver só. Tudo o que não fiz desde a gravidez, eu faria agora.

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