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Isabella

Isabella: tá pronta? — questionei olhando para Talita, que passava um gloss na boca, se admirando no espelho.

Talita: sim. Tá linda você — ela me olhou de cima a baixo, analisando — nem parece que ganhou bebê agora.

Dei risada. Meu corpo realmente voltou ao normal sem muito esforço. A genética foi boazinha comigo, porque, sinceramente, eu não fiz nada pra isso acontecer.

Desci as escadas com ela logo atrás, e vi Guilherme no bebê conforto, dormindo profundamente. Peguei a bolsa dele, que já estava arrumada com tudo que ele poderia precisar, e saímos de casa.

Íamos para um churrasco na casa da mãe da Talita, e, no caminho, um pensamento surgiu na minha cabeça.

Isabella: eu acho que vou pedir um carro pro Branco — comentei do nada, e ela me olhou sem entender. — Ele disse que me daria tudo que eu precisasse, nada mais justo eu extorquir ele, afinal, o cara é um vacilão.

Talita: você não tem nem carta, Isabella. Para de tirar onda. Quer tirar o juízo do cara, arruma outro.

Isabella: eu não quero macho nenhum nas minhas costas mais não, cansei. Mas quero um pra dar umas transadas, tô precisando.

Ela deu risada alta, chamando atenção de quem passava.

Talita: você é ridícula, está se revelando. Mas, se pararmos para pensar, faz meses que eu não transo. Muito antes do Brito morrer.

Isabella: não sei quem está pior de nós duas.

Talita: pior que é verdade.

O Uber chegou e entramos. Guilherme dormiu o caminho todo, mas assim que chegamos, começou a chorar. Parecia até que sentiu que estava fora de casa. Peguei ele no colo e me ajeitei em um canto para dar mama antes de subir para a laje.

A família inteira da Talita estava lá. Cumprimentamos todo mundo, e logo me sentei para comer alguma coisa. Fiz meu prato e comecei a me servir quando um menino se aproximou, me oferecendo uma cerveja.

— aceita?

Isabella: não, obrigada.

Sorri para ele, que sorriu de volta.

Analisei seu rosto. Parecia ser novo, mas ao mesmo tempo tinha uma expressão confiante, um jeito meio largado.

Pedro: sou o Pedro, primo da Talita. Posso sentar do seu lado?

Isabella: claro, a casa é da sua mãe — sorri, brincando — já ouvi falar sobre você.

Pedro: vindo da Tata, só coisa ruim, certeza.

Isabella: pior que nem foi... mas deixa baixo.

Pedro: agora que fiquei curioso.

Ele se sentou do meu lado, com um olhar divertido. Eu continuei comendo, mas percebia que ele me analisava, sem nem disfarçar.

Pedro: e esse bebê, é seu?

Isabella: sim, meu filho.

Pedro: sem querer ofender... mas não parece não. Tu parece ser irmã dele. Muita carinha de bebê.

Isabella: sou nova mesmo, tenho 20 anos.

Pedro: a cara é de 17.

Dei risada.

Isabella: exagerou.

Ele continuou me olhando. Eu não pude negar que ele era bonito. Pele morena, barba bem feita, cabelo cortado na régua. O tipo de cara que a gente percebe que sabe que é bonito.

Quando Guilherme começou a resmungar, Pedro nem pensou duas vezes e pegou ele no colo, ajeitando com uma facilidade que me surpreendeu.  Eu fiquei passada, mas deixei. Não tinha nada demais.

Pedro: achei que você fosse reclamar.

Isabella: por quê?

Pedro: sei lá, mãe nova, às vezes é cheia de frescura.

Isabella: não ligo pra esse tipo de coisa. — fui sincera.

Dei um meio sorriso, e ele me olhou como se tivesse gostado da resposta. Como aqui nem tinha criança, todo mundo babou e mimou meu filho, que só mama e dorme por enquanto.

Talita se aproximou e falou baixo no meu ouvido.

Talita: lei da atração forte a sua, tá três dias falando que ia conhecer um macho, primeira saída... conheceu.

Isabella: ele tá sendo simpático só.

Talita: Pedro é galinha, pô. Tá dando em cima na cara de pau, bancando de padrasto.

Isabella: é gatinho ele, bem que você falou da outra vez.

A conversa com Pedro foi fluindo naturalmente. Ele sempre com um sorriso de canto, parecendo se divertir com tudo que eu falava.

Na hora de ir embora, fui me despedindo de todo mundo. Quando cheguei no Pedro, ele me olhou de cima a baixo, descarado.

Pedro: já vai? Tá cedo.

Isabella: tá nada, garoto. Tô aqui desde tarde.

Pedro: você mora com a Talita agora, né?

Confirmei com a cabeça.

Pedro: eu levo vocês. Tô de carro.

Isabella: não precisa, a gente vai de Uber mesmo.

Pedro: para com isso. Até o Uber chegar, depois vocês vão ter que ir andando até a casa de vocês. Melhor eu levar e entrar lá.

Isabella: você quem sabe então, se não for incomodar.

Pedro: não vai. Vou pegar a chave do carro e a gente vai.

Avisei a Talita que ele ia levar a gente, e ela deu risada da minha cara. Entramos no carro, e ele deu partida para a comunidade.

Fizemos aquele processo de sempre. Ele barrou na barreira e abaixou todos os vidros. Os moleques se aproximaram e eu vi o Lobo observando de longe.

— Boa noite, vocês tão ligada que não sobe Uber, né não?

Isabella: ele não é Uber, não. Tá com a gente. Pode avisar pro Lobo.

O cara foi até o Lobo e voltou liberando a nossa entrada. Pedro dirigiu tranquilamente até a nossa casa.

Talita: não dou nem um dia pra notícia chegar lá na cadeia que você estava no carro de um cara.

Falou baixinho no meu ouvido.

Isabella: eu tô nem aí. Que ele fique com a marmita dele.

Pedro: aqui mesmo? — falou e eu pude notar que já estávamos na porta de casa.

Talita: isso aqui mesmo. Obrigada, primo. Se cuida.

Tirei o cinto e fiz menção de sair, mas ela me olhou com um sorriso maroto.

Talita: eu vou entrando na frente com o Gui, eu acho que ele quer falar contigo.

Arregalei os olhos pra ela.

Pedro: tu não muda, Talita.

Ela deu risada e saiu. Ele virou o corpo para me olhar melhor.

Pedro: eu te achei maneira pra caralho, Isa. Queria pedir seu número, pensei até em pegar com a Talita, mas é parada de moleque isso.

Isabella: passa seu celular.

Peguei e anotei meu número. Quando devolvi, senti sua mão parar na minha coxa. Ele olhou diretamente pra minha boca.

Pedro: outro dia a gente se encontra de novo. Com mais calma. E só nós dois.

Isabella: obrigada pela carona.

Sorri e desci do carro. Assim que entrei em casa, o celular vibrou. Era ele.

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