Isabella
Eu já não estava bem fazia dias. Desde tudo aquilo, parecia que eu só piorava. O Branco apareceu aqui, a gente transou. Quando acordei, ele já tinha sumido.
Fiquei remoendo isso por um bom tempo. A sensação era horrível, como se eu tivesse sido só a marmita do dia. Me comeu e foi embora, sem nem ao menos dizer uma palavra. Depois disso, a gente mal se olha. Nos falamos pouquíssimas vezes, e quando falamos, nem assunto temos.
Terminei de fechar minha mala. Coloquei pouca coisa, afinal, seria só um final de semana numa casa no interior. Pelo que eu sabia, ia eu, a irmã e a madrasta do Branco.
Eu tava com um pé atrás, era óbvio que aquela mulher não ia com a minha cara, e eu nunca fiz nada contra ela. Mas, sinceramente, ainda era melhor ir pra lá do que ficar aqui no meio de tanto confronto. Ainda mais grávida.
Faz tempo que falei com minha avó, mas só por cima. Não contei nada, no fim das contas, o Jhony é filho dela. E, sem dúvida, se precisasse, ela daria a vida por ele.
Ouvi uma batida na porta. Levantei e já puxei minha mala, sabendo muito bem quem era. Mas, quando abri, fui pega de surpresa e dei um sorriso.
Isabella: Olha só, não sabia que era você quem vinha! — Abracei Cadu. — Andou por onde?
Ele riu de leve e me soltou.
Cadu: O chefe me botou numa missão porra louca. Fiquei na neurose, mas não tinha o que fazer. Tá pronta?
Isabella: Tô, vamos.
Puxei minha mala, mas ele logo tomou da minha mão e foi na frente.
Entrei no banco de trás do carro. Não tinha ninguém além de mim, ele guardou a mala na parte de trás, deu a volta e entrou no lado do motorista.
Isabella: A Angélica e a Jaqueline não vão também? — perguntei quando ele saiu da comunidade.
Cadu: Parece que o Branco mandou elas irem na frente. — Respondeu seco. — Vou te deixar lá e depois volto.
Isabella: Ah, sim.
Respirei fundo e passei a mão pela minha barriga, que começava a aparecer.
Fiquei quieta e peguei o celular pra mexer no Insta. Até que chegou uma mensagem de um número desconhecido.
Cadê você??? — Franzi a testa.
Isabella: Quem é?
Branco: Branco. Tá onde?? Fui na tua casa e falaram que você saiu.— Meu coração deu um pulo.
Isabella: Ué, teu segurança foi me buscar, né, Michael?
Branco: Quem? Tá indo pra onde??
Isabella: Indo pra casa onde você falou que ia me levar.
Branco: Me manda sua localização. Tá de brincadeira comigo? Mandei ninguém te levar pra canto nenhum, Isabella.
A ficha caiu. Meu corpo inteiro gelou. Larguei o celular no colo e levantei o olhar.
Isabella: Cadu... A gente tá indo pra onde? — Ele ficou em silêncio. Me encarou pelo retrovisor. — Ei? — insisti.
Num movimento rápido, ele virou e puxou meu celular da minha mão. Num segundo, jogou pela janela. O medo bateu com força e meu coração disparou.
Cadu: Foi mal, Isabella. Vou te levar pra tua família.
Meu estômago afundou.
Isabella: Tá maluco?! Me deixa sair desse carro, agora! — Tentei abrir a porta, mas estava trancada. Fui abaixar o vidro. Travado.
Cadu: Para de gritar, fica quieta que é melhor pra nós dois.
Minha respiração acelerou. Meu peito subia e descia rápido.
Num impulso, me joguei pra frente e agarrei o cinto de segurança dele puxando com toda a força, apertando contra o pescoço.
Ele arregalou os olhos. Se engasgou. Mas, antes que eu conseguisse fazer mais alguma coisa, senti um impacto brutal no rosto.
Minha visão escureceu na hora. Meu corpo ficou mole. Tudo apagou.
Quando abri os olhos, a primeira coisa que senti foi o gosto metálico de sangue na boca. Minha cabeça latejava. Meus olhos demoraram a focar, mas quando finalmente reconheci o lugar, um arrepio subiu pela minha espinha.
Eu estava na casa que o Jhony tinha na Ilha do Fundão. Vim aqui só três vezes na vida, sempre quando tinha operação na favela e ele trazia eu e minha vó pra cá.
Meus braços estavam amarrados à cadeira. E a cadeira... era fixa no chão. Eu estava presa.
Isabella: SOCORRO! — gritei com toda a força.
Ouvi passos e um cara apareceu na porta.
- Cala a boca. Jhony já tá chegando. Vai trocar uma ideia contigo.
Isabella: Lixo. É isso que ele é. Avisa esse bosta que eu não quero falar com ele!
O cara nem piscou. Só deu as costas e saiu, me deixando sozinha de novo. Meus olhos se encheram de lágrimas.
Eu tava presa. Sozinha. Com medo, mas não só por mim.
O tempo passou arrastado, sem eu ter noção de quantas horas fiquei ali. Até que a porta abriu de novo e o Jhony entrou.
Jhony: Quanto tempo, sobrinha... — Ele me olhou dos pés à cabeça, os olhos brilhando com deboche. — Tá linda com essa barriga.
Isabella: Vai se foder. — Ele riu.
Jhony: Não seja malcriada, criança. Não ficou com saudade? — Eu cerrei os punhos, mas as cordas cortavam meus pulsos.
Isabella: Você quem me expulsou de lá, não foi? Por que quis me sequestrar agora? Me deixa em paz!
Ele suspirou, impaciente.
Jhony: Isso não é sobre você. Fiquei sabendo que teu macho ia invadir minha comunidade. Tive que garantir alguma coisa. Você pode não valer nada pra ele, mas o filho dele vale. Questão de troca. Não vou te machucar.
Isabella: Você é nojento. — Ele riu de novo.
Jhony: Você que é inocente demais, Bella. Achou que ia pra lá e tudo ia dar certo? Acorda. Essa hora, os caras da facção já tão atrás do teu macho. Pra eles, ele recebeu uma X9 na favela dele.
Meu estômago revirou.
Isabella: Você sabe que isso é mentira! Nunca fui X9 pra lá!
Ele se inclinou, os olhos frios.
Jhony: Mas os caras da facção não sabem. E eles não perdoam. Quem anda com alemão, é alemão também. Depois que o Branco morrer, eu te deixo livre.
Minha voz saiu num fio.
Isabella: Imagine o desgosto da minha vó quando souber disso... — Jhony riu baixo.
Jhony: Ela não vai saber, porque morreu.
Minha respiração parou.
Isabella: mentira.
Jhony: Infarto. Tem dois dias, desde que você saiu, ficou mal.O coração não aguentou.
Minha mente se recusava a acreditar. Mas quando vi o olhar dele, soube que era verdade.
Meu peito rasgou.
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No alto do caos
FanfictionIsabela é uma jovem de família ligada ao tráfico de uma favela rival. Em busca de liberdade, ela se aventura em território inimigo e conhece Branco. O que começa como uma atração perigosa se transforma em um romance intenso, mas cheio de conflitos.
