Isabella
Minha vida caminhava aos poucos novamente. Eu já estava me acostumando a não ter o Branco por perto, a não ver ele pelas ruas, a não esperar uma ligação dele do nada.
Mas dizer que não sentia falta? Eu estaria mentindo. Porque sentia. E muito. Às vezes, no meio da noite, pegava meu celular por impulso, como se fosse encontrar alguma mensagem dele.
Como parte desse recomeço, resolvi me mudar para uma casa maior. Tudo aconteceu de última hora, mas com a ajuda dos meninos, a mudança foi rápida.
O quarto do Guilherme já estava pronto, em um tom azul bebê, suave e delicado, a coisa mais linda. Cada detalhe tinha sido pensado com carinho, o berço com os protetores fofinhos, os nichos na parede com ursinhos e um pequeno abajur em forma de lua.
Isabel veio me ajudar a lavar e passar as roupinhas dele. Ela era uma das poucas pessoas que eu sabia que podia contar para qualquer coisa. Enquanto dobrávamos os pequenos macacões e bodies, ela quebrou o silêncio.
Isabel: A Angélica vai visitar ele semana que vem, ela te falou?
Isabella: Sim, me avisou.
Ela suspirou, dobrando um dos paninhos de boca do Guilherme.
Isabel: Me dói ver ele lá dentro, mas foi a vida que escolheu pra ele também.
Fiquei quieta. Parte de mim ainda se culpava por tudo o que tinha acontecido.
Terminamos de ajeitar a cômoda dele, tudo ficou pronto para a sua chegada. E eu já estava a mamãe mais ansiosa do mundo.
Mais tarde, me deitei para descansar um pouco. Sentia uma leve cólica na barriga, mas o obstetra já tinha me avisado que isso poderia acontecer nessa reta final.
O problema era encontrar uma posição confortável. Nada parecia bom. Então apenas me sentei na cama, liguei a televisão e comecei a assistir minha série, esperando que o tempo passasse.
Não sei quanto tempo dormi, mas acordei assustada com o barulho de tiros na TV. Meu coração acelerou por um instante, até eu perceber que era só a cena de um filme.
Sennti um líquido quente escorrer pelas minhas pernas.
Tirei a coberta num susto e vi que a cama estava toda molhada. Meu coração disparou. Passei a mão e senti o cheiro, tentando entender o que tinha acontecido, se era mesmo o que eu pensei.
Minha bolsa tinha estourado.
Um frio percorreu meu corpo. Não estava pronta, eu sabia que esse momento chegaria, mas agora que ele estava aqui, parecia cedo demais.
Levantei com cuidado da cama e fui até o banheiro. Tomei uma banho rápida para me acalmar, troquei de roupa e respirei fundo antes de sair. Fui direto para o quarto da Talita e acendi a luz, vendo ela se mexer na cama.
Isabella: A minha bolsa estourou, vamo pro hospital.
Ela levantou num pulo, os olhos arregalados. Eu ri da pressa dela.
Isabella: Vou chamar a Isabel.
Desci as escadas com calma, tentando me manter tranquila. Acordei Isabel devagar, dando a notícia. Assim que ela entendeu o que estava acontecendo, se levantou num instante e já começou a se arrumar. Em poucos minutos, as duas estavam prontas.
Como eu ainda não sentia dor, consegui manter a calma. Chamamos o Kaká para me levar até o hospital. Eu iria ganhar no convênio, e foi a melhor escolha que fiz, porque assim que cheguei, já me internaram e me levaram para o quarto.
O tempo foi passando e aos poucos as dores começaram a vir. Primeiro leves, depois mais fortes.
Quando cheguei nos quatro dedos de dilatação, tudo ao meu redor virou ruído. Jaqueline e Angélica chegaram, falaram comigo, mas eu já não conseguia prestar atenção em ninguém.
Apertei forte o lençol da cama quando a dor veio mais intensa. Parecia que o tempo estava passando devagar demais.
Quando finalmente me levaram para a sala de parto, olhei pelo vidro e vi Jaqueline, Angélica e Talita. Mas quem entrou comigo foi Isabel. Com sua experiência, ela segurou minha mão e tentou me acalmar o tempo todo.
Médico: A cabeça já saiu, mais um pouquinho de força pra sair o ombro, mamãe.
Respirei fundo, tentando buscar forças de algum lugar dentro de mim. Fiz força mais uma vez, sentindo cada parte do meu corpo se abrir para trazer meu filho ao mundo.
A dor era indescritível. A pior da minha vida.
Isabella: eu nunca mais vou ter outro filho.
Todos riram ao redor, mas eu só conseguia focar em uma coisa: trazer o Gui para mim. Fiz força mais uma vez e, de repente, senti ele sair por completo.
E o choro dele ecoou pela sala.
Naquele instante, as lágrimas vieram sem que eu pudesse controlar. Meu corpo todo tremia, a exaustão me dominava, mas nada importava.
Porque ele estava ali.
Quando colocaram Guilherme no meu peito, o mundo parou. Era como se só existisse eu e ele naquele momento. Toquei seu rostinho delicadamente, tentando gravar cada detalhe.
Seus pequenos olhos ainda inchados, as mãozinhas fechadas, a respiração leve. Ele era uma mistura minha com o Michael, mas já dava pra ver que era até da cor igual ao pai.
Ele era perfeito.
Não queria soltar ele por nada no mundo. Por mim, ficaria ali para sempre.
[...]
Os dias passaram e chegou o momento de irmos para casa. Diferente do que imaginei, eu não estava sozinha. Fui rodeada de pessoas que me amavam e estavam ali para me ajudar. Até Jaqueline, que nunca foi de gostar muito de mim, ficou comigo no hospital e foi a primeira a dar banho no neto.
Quando saímos do hospital, Kaká nos esperava na porta. Ele abriu um sorriso ao ver Guilherme no meu colo.
Kaká: Menor é lindão, que isso.
Ele abriu a porta de trás do carro, e eu entrei com cuidado, colocando Guilherme no bebê conforto.
Kaká: Patrão ia tá feliz pra caralho se visse esse momento.
Isabella: Angélica tirou fotos pra levar pra ele no dia da visita. — falei e também senti o quanto queria que ele tivesse participado disso tudo.
Fomos direto para casa. Quando cheguei, vi que todos estavam lá, até mesmo Lobo que não era de misturar.
Não tive coragem de mandar ninguém embora. Só pedi que tivessem cuidado e lavassem as mãos. Felizmente, todos tiveram noção e só quiseram ver Guilherme de longe, sem pegar nele.
Olhei ao redor e vi cada rosto ali. Pessoas que estavam comigo, que queriam o meu bem e que amavam meu filho.
Não era como eu sonhei. Eu queria Branco ali, comigo, segurando nosso filho. Mas, apesar disso, eu estava feliz e não podia reclamar.
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No alto do caos
FanfictionIsabela é uma jovem de família ligada ao tráfico de uma favela rival. Em busca de liberdade, ela se aventura em território inimigo e conhece Branco. O que começa como uma atração perigosa se transforma em um romance intenso, mas cheio de conflitos.
