Branco
Uma hora o silêncio vira castigo, e sua mente, sua própria inimiga.
Quase um mês aqui dentro, e eu já estava ficando maluco. Tive só uma visita desde então, e depois de ver a Isabella, a única coisa que passa na minha cabeça todos os dias é ela e meu filho.
Eu tentava me distrair de todas as formas. Conversava com o Urso, jogava bola de manhã e, olha só, até fumar cigarro eu tava fumando. Nunca fui fã, mas aqui dentro qualquer coisa que acalme a mente é válida.
Se não tomar cuidado, a cadeia destrói qualquer vagabundo, corrói a alma até não sobrar nada.
Urso me encarou enquanto tragava seu cigarro.
Urso: Tá chegando visita minha hoje, eu pedi pra trazerem uma parada especial. Se tu quiser, pode usar.
Branco: Tá falando de quê? Eu tô suave.
Urso: Pra você falar com tua família, pô. Só não pode deixar eles verem, tá ligado?
Fiquei quieto. Eu sabia exatamente do que ele estava falando. Mas não podia dar vacilo, não agora. Minha audiência estava chegando, e o advogado disse que talvez fosse daqui a quatro meses. O problema era segurar a mente até lá. A incerteza consumia.
Branco: Valeu aí. Qualquer coisa, te dou um salve. Tamo junto. Obrigado pela força que vem dando.
Urso: Se a gente não se ajudar, ninguém ajuda, não. Todo mundo que tá aqui dentro tem o mesmo sentimento lá no fundo. Você tá chegando agora e já tá vendo como é a parada. Sorte tua que talvez não fique aqui nem cinco anos, mas imagina minha mente como fica sabendo que eu peguei 40 anos? Cumpri até então 11, somente. Eu tô velho, vou sair daqui perto de bater as botas.
Urso tinha a aparência muito além da idade. Ele dizia ter 54, mas a vida tinha cobrado juros pesados. Seu rosto era marcado, a pele cansada.
Branco: Bagulho é louco. A mente perturba 24 por 48, mas eu tô mantendo meus pensamentos firmes porque tem gente esperando por mim lá fora.
Ele concordou com a cabeça. Logo depois, começaram as visitas. Eu já sabia que a Angélica viria, então me dirigi ao pátio, sentei numa das mesas e fiquei esperando.
Quando ela entrou, me levantei pra ser visto. Assim que me encontrou, veio na minha direção sem hesitar e me abraçou forte.
Angélica: Porra, que saudade que eu tava.
Fiquei um tempo ali, sentindo o calor do abraço dela.
Branco: Tá bem?
Beijei o topo da cabeça dela antes de me afastar.
Angélica: Tô. E você? Como tá se saindo aqui dentro?
Branco: Eu tô bem, tô tranquilo... Trouxe o quê de bom pra mim?
Ela abriu a sacola e tirou uns potes de comida. Peguei um e abri na hora. Tava morrendo de fome. Quando vinha comida boa, era lucro, porque a daqui de dentro... era comestível e olhe lá.
Entre uma garfada e outra, Angélica me olhou séria antes de falar:
Angélica: Seu filho nasceu.
Meus olhos se arregalaram.
Angélica: Ele é a coisa mais linda, Branco. Muito bonzinho por enquanto, só dorme.
Parei de comer, segurando o garfo no ar.
Branco: Caralho... tô feliz demais. Tem foto?
Ela sorriu, mexeu na bolsa transparente e tirou algumas fotos reveladas.
Angélica: Aqui, olha. Parece que vai ser sua cara.
Peguei as fotos e fui vendo uma por uma. Um calor estranho tomou conta de mim, uma felicidade diferente de qualquer outra que já senti. Ele era bonitão mesmo. Nas fotos do parto, dava pra ver Isabella chorando com ele no peito. Linda demais também.
Mas a felicidade veio junto com a tristeza. Meu primeiro e único filho, e eu não estava lá. Não estava pra ver ele chegar ao mundo, nem pra segurar sua mãozinha pela primeira vez.
Quando percebi, já tava chorando. Angélica me olhava preocupada.
Branco: Promete pra mim que tu vai dar uma assistência pra Isabella no que ela precisar? Eu que deveria estar lá, mas não tô.
Angélica: Eu vou, Branco. Mas não faz bobagem. Espera o tempo que tem que esperar. Melhor sair daqui livre pra viver a vida com teu filho. Se fugir, vai viver trancado na favela pra sempre.
Branco: Eu tô ligado. Tô segurando minha onda aqui dentro. Até a audiência, não tem muito o que fazer.
Ela suspirou antes de continuar.
Angélica: Conversei com o doutor ontem. Sua audiência tá marcada pra daqui três meses. Ele disse que tem chance de você sair em seguida, porque é réu primário e não acharam provas de que você tem ligação com o tráfico. Mas você sabe como esse povo é sujo. Se cismarem contigo, vão te incriminar até pelo que não fez.
Branco: Eu tô tendo fé... Mas tem dia que não dá não.
Ela mordeu o lábio, hesitando antes de fala.
Angélica: Acho que vão chamar a Isabella pra depor.
Balancei a cabeça na hora.
Branco: Quero ela longe disso tudo. Não é justo ela passar por isso.
Angélica: Mas quem vai decidir é ela. Se tiver chance de te ajudar, eu sei que ela vai.
Cocei a nuca, nervoso.
Branco: Não quero mais falar disso. Semana que vem o doutor vem aqui, ele fala comigo... Jaqueline tá suave?
Angélica: Estamos todos bem. A gente se apega no Guilherme pra ter forças. Tem dias que a mãe passa o dia todo na Isabella só pra ficar com ele. As duas ainda não estão se bicando, mas pelo menos se respeitam.
Branco: Pelo menos isso. Tô até imaginando a babação em cima do meu menino.
Olhei mais uma vez pra foto dele, usando uma roupinha azul bebê.
Ficamos um tempão conversando. Ela me distraía, falava do lado de fora, das coisas que eu sentia falta. Quando o sino ecoou, indicando o fim da visita, nos levantamos.
Antes que ela fosse, puxei seu braço.
Branco: Preciso que tu me faça um favor... mas deixa isso entre nós.
Ela me olhou, desconfiada.
Angélica: Que foi?
Branco: Fala pro Lobo colocar a tua amiga aqui dentro. Preciso dela.
Angélica: Que amiga?
Branco: A Nicolle.
Ela cruzou os braços, me olhando feio.
Angélica: Branco... Você tem que decidir quem você quer.
Branco: Não se mete. Só faz o que eu falei. Se ela topar, avisa que vai ter recebimento. O Lobo desenrola com ela. É visita normal, nada da íntima.
Ela balançou a cabeça negativamente, mas disse que passaria o recado.
Nos despedimos com um abraço firme e um beijo na testa. Assim que ela saiu, voltei pra cela com a sacola do que sobrou do almoço.
Branco: Aí, rapaziada. Quem quiser, tem uns bagulhos maneiros aqui pra comer. Pode pegar.
Coloquei a comida no canto. Nem todos recebiam visitas, então a gente se ajudava como podia.
E assim segui, mais um dia dentro desse buraco, contando os minutos pra sair.
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No alto do caos
Fiksi PenggemarIsabela é uma jovem de família ligada ao tráfico de uma favela rival. Em busca de liberdade, ela se aventura em território inimigo e conhece Branco. O que começa como uma atração perigosa se transforma em um romance intenso, mas cheio de conflitos.
