Branco
Liguei uma, duas, três vezes. Nada.
O coração acelerou. Eu não sabia se ela tava me ignorando de propósito ou se tinha acontecido alguma merda. Não quis esperar pra descobrir, parti direto pra casa do Brito.
Cheguei entrando. Talita me olhou assustada, largada no sofá da sala.
Talita: Com todo respeito, cara, mas tu não tá na tua casa não. Bate na porta antes, por favor.
Ignorei. Nem tempo pra isso eu tinha.
Branco: Liga pra Isabella. Descobre onde ela tá, agora.
Talita: Que foi que acontece
Branco: Liga, pô... Tu sabe onde ela tá?
Ela franziu a testa, desconfiada, mas pegou o telefone.
Talita: Ela falou que ia pro interior com a tua família, ué. Falei com ela tem coisa de uma hora, tava indo pra lá.
Meu peito apertou. Bufei, mas ainda não confiava.
Branco: Liga pra ela e põe no viva-voz. Eu não mandei ninguém levar ela hoje. Era pra ir de madrugada com minha família.
O semblante dela mudou. Dessa vez, se apressou. Ligou uma vez. Duas. Nada.
Talita: Ela foi com o Cadu, Branco. — Talita me olhou de lado. — Disse que foi ele quem buscou, que até ficou surpresa, fez piada e tudo. Mas ele falou que foi você quem pediu.
Meu sangue ferveu na hora.
Branco: Filho da puta do caralho. — Passei a mão no rosto, tentando segurar a raiva. Não dava. — Tu se cuida, Talita. Vai rolar uma guerra do caralho. Se puder, mete o pé pra casa da tua mãe agora.
Não esperei resposta. Parti direto pra boca, acionando reunião geral.
Em minutos, todos estavam lá. Eu tava fervendo por dentro, sentia o nervoso tomar conta, fazia tempo que eu não me sentia assim. Medo. Raiva. Ódio. Tudo misturado.
Branco: Papo é um só: sequestraram a mãe do meu filho. E quem levou foi o Cadu. Esse filho da puta tava de X9, entregou ela pro pessoal da Vila João.
O Brito me encarou, incrédulo.
Kaka: Procede esse papo, paizão? Ele pediu pra sair mais cedo hoje, disse que a mãe tava mal. Eu autorizei. Nem te avisei porque não era nada demais.
Fechei a cara.
Branco: Papo é reto. Quem me trouxe foi a tua mulher. Pode acionar o Lobo, porque nós vamos invadir aquela porra. — Passei a mão na barba, respirando fundo. — Quero todo mundo de lá no chão. Mas o Jhony... ele eu quero vivo. Quero olhar na cara dele antes de matar.
A tensão subiu no ar. Todo mundo já começou a botar colete, pegar fuzil. A guerra tava decretada.
Tucano veio na minha direção.
Tucano: O Xande mandou recado que os caras da facção tão vindo atrás de tu. Disseram pra esperar, querem trocar ideia contigo.
Dei um sorriso frio.
Branco: Com eles eu resolvo depois. Não dá pra esperar. Se quiserem me encontrar, que aguardem aqui.
Entramos em quatro carros blindados, armados até os dentes. Eu confiava nos meus, eles tavam prontos. Mas eu sabia que o Cadu podia ter dado o papo pros caras lá. Pega nada, ele vai se foder do mesmo jeito.
Já ajudei a família dele tantas vezes. E ele mete a faca nas minhas costas? A troco de quê?
Branco: Se verem o Cadu, pode meter bala sem dó. Quero ele igual peneira. Vai servir de exemplo pra qualquer outro X9.
O Brito bateu no meu ombro.
Brito: A gente vai trazer ela, irmão. Fica suave.
Balancei a cabeça, mas minha mente não tinha paz.
Branco: Eu vou junto. Já mandei tirar minha mãe e minha irmã daqui com o Kaká. Não quero preocupação. Essa guerra já é nossa.
Fechei os olhos por um segundo, fiz minha oração baixinho.
"Protege a mim, meu filho e a Isabella."
Um dos carros ficou posicionado na entrada da comunidade, esperando o sinal. A gente entrou por trás, na surpresa.
Chegamos.
Os tiros começaram antes mesmo de sairmos do carro. Blindado aguentou. Mas a bala comia solta. Desci no impulso, com dedo no gatilho.
Parei atrás de um beco pra trocar o pente. No deslize, olhei pro lado e vi um menor. Tava com a arma apontada pra mim.
— Tu que é o Branco, né?
Segurei firme.
Branco: Eu mesmo. Qual foi?
— Tô em paz. Vim te ajudar.
Revirei os olhos.
Branco: Quero ajuda de alemão porra nenhuma.
— Não é por tu, não. É pela Isabella.
Meu olhar mudou. Fiquei em silêncio.
— Não sei pra onde o Jhony levou ela, mas acho que pode ser numa casa dele fora daqui. Já fui pra lá com ela algumas vezes.
Cerrei os olhos.
Branco: Teu nome?
— D2. Tô ligado na treta deles. Ele fez isso por conta dela e por tua causa também. Se tivesse dado segurança pra ela, nada disso tinha acontecido.
A raiva subiu de novo. Parti pra cima dele.
Branco: Num fode, rapaz. Tá de brincadeira comigo?
Ele levantou as mãos.
D2: Só tô querendo ajudar. Vai querer ou não? A casa é na Ilha aqui do lado.
Olhei bem nos olhos dele. Podia ser emboscada. E se fosse? E se não fosse?
D2: Abraça o papo ou some do beco. Jhony não tá aqui. Ele sabia que tu ia vir. Meteu o pé rápido.
Respirei fundo. Minha mente gritava.
Branco: Solta a porra da arma. Tu vai me mostrar a saída e me levar até essa casa.
Ele hesitou.
D2: Sem chance. Vou com minha arma.
O Brito veio devagar por trás dele. D2 sorriu, debochado, mas abaixou e largou tudo no chão.
Branco: Entra no carro. Tu vai me levar até ela.
— Pegamos a saída da favela. Antes de partir, soltei no radinho — não para até avermelhar.
As respostas vieram todas ao mesmo tempo.
Lobo gritou:
Lobo: A Vila João já é nossa, papai! Vamo finalizar todo mundo daqui!
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No alto do caos
FanfictionIsabela é uma jovem de família ligada ao tráfico de uma favela rival. Em busca de liberdade, ela se aventura em território inimigo e conhece Branco. O que começa como uma atração perigosa se transforma em um romance intenso, mas cheio de conflitos.
