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𝐉𝐀𝐃𝐄𝐍

Quando chegamos, ela não falou uma palavra sequer. Apenas subiu às pressas para seu quarto, me deixando para trás. As próximas duas horas deram início a uma chuva intensa, com fortes trovoadas e raios cortando o céu. Em nenhum momento quis ir até ela ou invadir, de alguma forma, seu espaço pessoal.

O que eu disse realmente a afetou. Sinto uma pontada de culpa enquanto entro na cozinha. Minha busca por açúcar, leite e achocolatado foi intensa, mas, quando encontrei, preparei o melhor chocolate quente do mundo. Bom, pelo menos meu irmão achava.

Subi para seu quarto e dei duas batidas na porta, chamando por seu nome. Até mesmo coloquei meu ouvido sobre a madeira. Nenhum barulho veio de dentro. A única coisa que preenchia o lugar eram as gotas da chuva caindo sobre o telhado. Suspiro, passo a mão no rosto e volto para a escada. Mas, antes de descer, meus olhos parecem presos ao corredor à esquerda. Estou sendo atraído novamente.

Ando em direção ao corredor e acendo as luzes pelo interruptor. Três portas. Meu olhar se fixa na de madeira marrom, com detalhes de cobra. Ando até ela, pousando minha mão sobre a maçaneta dourada — que, por ironia, também é uma serpente.

Entro no cômodo escuro à procura de um interruptor. Um raio corta o céu, clareando o lugar. Meus olhos captam apenas um piano no centro da sala. Acendo as luzes e fico vidrado. As paredes, iguais às de uma biblioteca, são todas cobertas por prateleiras cheias de livros. Mais à frente, quase ao lado da entrada para a sacada, há dois cavaletes de pintura e uma caixa ao lado, aparentemente cheia de tintas e pincéis.

Sento-me no banco em frente ao piano e levanto a tampa do teclado. Meus dedos pousam suavemente sobre as teclas e, como num passe de mágica, começo a dedilhar uma música que escrevi quando ainda estava no ensino médio — a música da minha banda. Ela estava lá comigo, quando ainda estávamos juntos e felizes.

Fecho os olhos, me concentrando na melodia, como se estivesse em um foguete que me leva a outro mundo. Longe das minhas dores, tristezas e preocupações. Um lugar onde apenas eu e ela existimos. É estranho, pois mal consigo lembrar de seu rosto, mas ainda sei que é ela.

Alguém limpa a garganta e eu erro uma tecla. Olho em sobressalto para trás e vejo Lana parada. Seus longos fios de cabelo caem sobre os ombros até o quadril. Ela veste uma regata preta e calça de moletom.

— O que tá fazendo? — pergunta, parecendo sonolenta. Estendo a caneca de achocolatado e ela pega sem hesitar.

— Estava explorando e vi o piano... Sinto muito se, de alguma forma, invadi seu espaço. — Me levanto, mas ela sorri, balançando a mão.

— Não, tudo bem. Aliás, você toca muito bem. — Ela leva a caneca à boca e toma um longo gole. Seus olhos se arregalam, e ela solta um pequeno gemido. — E faz o melhor chocolate quente que já tomei na vida.

Rio da sua reação, fingindo que o som que saiu da garganta dela não me afetou. Olho ao redor, notando a grande quantidade de livros nas prateleiras.

— Você já leu algum deles?

— Não, mas minha mãe com certeza sim. Ela passava horas aqui dentro lendo, pintando e até tocando piano. Esse lugar era um porto seguro pra ela.

— Se sua mãe era apaixonada por mitologia, por que não há nada aqui dentro sobre isso? — pergunto, e ela quase não reage.

— Bom, a porta com os detalhes de cobra é uma referência à Medusa, assim como o vaso que você viu lá embaixo. A maioria das coisas meu pai vendeu ou doou quando ela morreu. — Ela suspira, um pouco mais pesado.

Fecho a tampa do piano e passo por ela, parando antes de chegar ao batente da porta. Me viro, vendo-a ainda me olhando.

— Vamos? Que tal fazermos um macarrão à carbonara para o jantar? — Sorrio de canto.

𝐀𝐒𝐒𝐀𝐒𝐒𝐈𝐍𝐀 𝐕𝐄𝐑𝐌𝐄𝐋𝐇𝐀 | ʲᵃᵈᵉⁿ ʰᵒˢˢˡᵉʳOnde histórias criam vida. Descubra agora