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HAYLEY

É estranho como a vida pode parecer calma justo antes de desmoronar.

Naquela manhã, a luz invadia o quarto com doçura. O aroma de café preenchia o corredor, e Jaden... bem, ele estava de avental na cozinha, tentando fazer panquecas.

Eu ri.

Era inédito.
Quase absurdo.

E, por um instante, quis acreditar que aquele mundo podia ser real.

Quis esquecer onde tudo começou.
Quem ele foi.
Quem eu fui obrigada a ser.

— Você tá rindo de mim ou das panquecas? — ele perguntou, fingindo indignação.

— Das duas coisas — respondi, me aproximando dele.

Jaden virou com uma espátula na mão e farinha na bochecha. Eu limpei com o polegar. Ele segurou meu pulso por um segundo a mais do que devia.

E aquele toque... ainda me queimava por dentro.

Comemos juntos. Sem pressa. Ele me ouvia, me perguntava coisas sobre minha infância, sobre as coisas que eu queria fazer depois de "tudo isso".

— Depois de tudo isso... o que vem? — ele quis saber.

— Liberdade. E, talvez, um mochilão na Europa.

— E eu? — ele perguntou, de repente.

Eu o encarei, fria.

— Você está tentando ser diferente, Jaden. Mas isso não apaga o que fomos.

Ele assentiu, com dor no olhar.
Mas não insistiu no assunto.

Foi aí que o telefone dele tocou.

Ele se afastou para atender. Achei que fosse algo trivial. Mas percebi a mudança no seu tom de voz. Um "sim, senhor" seco, uma respiração contida, um "eu disse que isso não importa mais".

Algo dentro de mim acendeu um alerta.
Uma curiosidade incômoda.
Como uma pedra no sapato que você tenta ignorar, mas está ali.

Resolvi segui-lo. Fui até o corredor. A porta do escritório estava semiaberta. Dei um passo e fiquei ouvindo-o conversar.

— Eu não quero mais o dinheiro, pai. — A voz dele era firme. — Você não entende? Isso deixou de importar desde o momento em que ela se tornou real pra mim.

Pausa.

— Eu sei qual foi o acordo. Eu aceitei por impulso, por raiva... mas agora não é mais sobre isso. Eu amo ela. Eu... preciso dela.

Meu corpo paralisa.

Minha mente demorou um segundo para assimilar o que acabara de ouvir.

Acordo. Dinheiro. Aceitei.

Afastei-me devagar, sentindo a garganta fechar. Entrei no quarto e sentei na beira da cama.

"Desde o momento em que ela se tornou real pra mim..."

E antes?
O que eu era antes?

Uma peça? Um objeto? Um preço?

Meu coração batia descompassado. Minha visão ficou turva.
Tudo voltou: a cela. As algemas. O medo.

E agora... a confirmação.
Ele me tirou da prisão por um acordo financeiro com seus pais.
Uma coisa que eu nunca soube. Uma coisa que ninguém teve a decência de me contar.

Como pude ser tão burra?

Como pude me entregar de novo?

Na mesma noite em que fui mais dele do que de mim mesma...
Na mesma manhã em que quase acreditei em nós.

𝐀𝐒𝐒𝐀𝐒𝐒𝐈𝐍𝐀 𝐕𝐄𝐑𝐌𝐄𝐋𝐇𝐀 | ʲᵃᵈᵉⁿ ʰᵒˢˢˡᵉʳOnde histórias criam vida. Descubra agora