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HAYLEY

O céu estava dourado em tons de mel e cobre, como se o universo decidisse fingir calma antes do caos.

De pé diante do espelho do chalé, observei o reflexo de uma mulher que quase não reconhecia.
Hayley Hossler. Ou, em poucas horas, Hayley Zimmermann Hossler.

O vestido de linho marfim moldava minha barriga de oito meses, as meninas agitadas, como se também soubessem que algo estava prestes a mudar.
Hillary ajeitava a coroa de flores em meu cabelo com mãos trêmulas.

— Você está radiante — ela sussurrou, tentando disfarçar o choro. — Ele vai perder o ar quando te vir.

Sorri, nervosa. — Ainda não acredito que estamos fazendo isso.

— Depois de tudo que vocês passaram, é quase um milagre. — A voz dela quebrou no meio da frase. — Mas, enfim, chegou o dia.

O som de pneus sobre a grama cortou o momento. Um CRETA preto estacionou diante do chalé. O motorista saiu, abriu a porta traseira, com movimentos calculados, precisos, como se cada gesto tivesse sido ensaiado.

— O carro chegou. — Hillary respirou fundo. — Você vai nesse. Eu vou no outro, com as flores e o bolo.
Ela riu nervosamente, tentando soar leve. — Não quero que nada dê errado antes do "sim".

Assenti.
Ela me abraçou com força demais antes de ir. Por um instante, achei que fosse chorar, mas ela apenas sussurrou algo como "Vai ficar tudo bem" e desapareceu entre as árvores, seguindo o outro carro branco que aguardava mais atrás.

Fiquei ali, sozinha por um breve segundo, antes do motorista abrir a porta.
— Senhora Zimmermann — disse ele, sem me encarar.

Inspirei fundo. O ar parecia denso, pesado, quase metálico. As meninas chutaram como se percebessem minha hesitação. Entrei no carro.

A viagem começou em silêncio. O motor zunia, a estrada serpenteava entre campos e mata fechada. Por alguns minutos, o mundo parecia suspenso, até que o silêncio se tornou algo mais. Algo errado

— Esta é a rota certa? — perguntei, franzindo o cenho.

— Sim senhora— o motorista respondeu, sem hesitar.

Comecei a contar o tempo. 

Vinte minutos.
Vinte e cinco.
Trinta.

Estradas de terra. Nenhum sinal de civilização.

— Pare o carro.

Nada.

— Eu disse pra PARAR!

Ele não respondeu. Apenas acelerou.

O motor rugindo como uma fera. O medo subiu como ácido na minha garganta. E então, ele removeu os óculos escuros. No retrovisor, dois poços verdes de escuridão me encararam.

Oliver.

Meu corpo congelou.

— Você...

— Sim, Hayley. Eu. — O sorriso que surgiu era uma ferida aberta. — Surpresa. Achou que eu deixaria você brincar de família com ele? Depois do que fizeram comigo?

— O que está acontecendo?

Ele soltou uma risada baixa, rouca, que fez o ar gelar.
— Digamos que os últimos meses foram... produtivos. — Seus olhos voltaram brevemente ao espelho. — Fui contratado para te proteger. E foi exatamente isso que fiz.
—Enquanto você dormia, eu vigiava. Enquanto amava ele, eu catalogava cada vulnerabilidade. — O carro invadiu uma trilha fantasma, engolida pela floresta. — Hoje, vou cobrar a dívida.

𝐀𝐒𝐒𝐀𝐒𝐒𝐈𝐍𝐀 𝐕𝐄𝐑𝐌𝐄𝐋𝐇𝐀 | ʲᵃᵈᵉⁿ ʰᵒˢˢˡᵉʳOnde histórias criam vida. Descubra agora