Eu sinto o ódio correndo em minhas veias ansiando por vingança, por seis anos eu planejei cada passo meu, cada morte, cada jogada. Jaden Hossler acabou com a minha vida, e agora é a minha vez de acabar com a dele.
"O inferno está cada dia mais pró...
O sol da manhã invade o quarto mesmo com as cortinas semicerradas. A claridade me obriga a abrir os olhos antes da hora e, pela primeira vez em muito tempo, não estou sendo acordada por gritos, ordens ou toques frios na porta. Há silêncio. Um silêncio quase incômodo.
Demoro alguns minutos para levantar. Sento-me à beira da cama, deslizo os dedos pelos fios desalinhados e observo a parede oposta, onde o papel de parede ainda preserva uma estranha memória da infância. Não deveria me importar com isso. Mas me importo.
Depois de fazer minhas higienes matinais e me trocar, saio do quarto com passos lentos, como quem pisa em território hostil. Pela mansão, tudo está quieto. O cheiro de café fresco paira no ar, junto ao som abafado de vozes e risadas que ecoam de um dos cômodos ao lado. A cada passo, percebo como aquele lugar, apesar de imenso, consegue me sufocar.
Quando passo pelo corredor, a voz de Hillary me atinge com força.
"—...eu só não quero que ele coma tanto chocolate antes do almoço, Vinnie!"
Pausa.
"—Me dá esse pirulito, Noah! Agora!"
Sorrio sem querer. Reconheço a cena mesmo antes de alcançá-los.
Viro a curva do corredor e vejo Noah no colo de Vinnie, com os lábios e os dedos todos lambuzados de doce, enquanto Hillary tenta, sem sucesso, convencê-lo a entregar o pirulito. A cena poderia ser comum em qualquer outra casa. Mas aqui, é quase um milagre.
Hillary levanta os olhos e me vê. Os movimentos dela travam por um segundo. Vinnie também me olha, mas com aquele meio sorriso dele — o mesmo sorriso que sempre usava quando tentava amenizar as tensões entre nós três anos atrás.
Noah, no entanto, parece alheio a qualquer constrangimento.
—Tia Elly! — ele grita animado, estendendo os bracinhos pra mim.
Não consigo resistir. Vou até ele, e Vinnie me entrega o pequeno como se estivéssemos todos bem, como se não houvesse nada entre nós. Como se eu não tivesse sido traída.
—Você tá com cara de sono — Noah diz, tocando meu rosto com as mãozinhas pegajosas. — Toma um pedaço do meu pirulito. É de framboesa.
—Vou deixar só pra você, Flash — respondo, apertando seu nariz.
Hillary pigarreia, e por um segundo, o ar entre nós volta a pesar. Ela segura a embalagem do pirulito com mais força do que o necessário, e eu quase posso ouvir os pensamentos correndo em sua mente.
—A gente... — ela começa, mas sua voz falha. — Quer dizer, eu tô fazendo panquecas. Se quiser... pode comer com a gente.
Olho para ela. Hillary, com o cabelo preso em um coque alto, manchada de farinha na blusa e com olheiras que entregam noites mal dormidas. Diferente da mulher que me encarou em silêncio no altar. Ela não está tentando se esconder hoje.
—Tudo bem. Eu aceito.
Seguimos para a cozinha. Hillary abre a gaveta de talheres, e eu noto como suas mãos tremem. Não com medo. Mas talvez por estar exposta demais.
Vinnie se afasta com Noah, distraindo-o com alguma história boba sobre dragões e castelos de chocolate.
—Você leu todas as cartas? — ela pergunta de repente, sem me encarar.
—Li. — respondo, depois de alguns segundos. — Algumas, duas vezes.
Ela finalmente se vira. Seus olhos estão marejados, mas ela pisca rápido, tentando manter o controle.
—Eu queria que você soubesse... que não houve um dia sequer em que eu não pensei em você.
Fico em silêncio. As palavras pesam como chumbo. Há algo na voz dela que quebra as defesas que lutei tanto pra manter de pé.
—Você podia ter dito não, Hillary. Podia ter se recusado.
Ela engole em seco. E diz, quase como um sussurro:
—Eu estava grávida. Ele ameaçou todos nós. Eu você sabe melhor do que eu que não teríamos chance sozinhos.
Olho para a bancada, para os talheres, para as panquecas que começam a queimar na frigideira. Evito os olhos dela por mais alguns segundos.
—E agora? Por que me chama aqui? Por que quer me alimentar?
—Porque... — ela se aproxima, mas respeita a distância entre nós. — Porque você sempre foi minha irmã, Hayley. E eu nunca deixei de te amar.
As palavras ecoam em mim com força, mas antes que eu possa respondê-las, o barulho da campainha preenche o ambiente. Hillary se afasta instintivamente, como se temesse que alguém visse o que quase aconteceu entre nós: uma fissura no muro.
—Vai comer? — ela pergunta, tentando soar casual, com a voz levemente embargada.
—Mais tarde.
Saio da cozinha com passos firmes. E por mais que minha mente diga para seguir em frente, meu coração... ainda está ali, na bancada de mármore, junto das panquecas queimadas e das palavras que nunca foram ditas.
Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.
Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.
🌸✨ Oi, gente linda! Passando aqui rapidinho pra desejar a todos uma Feliz Páscoa, cheia de paz, carinho, renovação e muitos chocolates, é claro! 🍫🐰
Aproveitem o feriado pra descansar, recarregar as energias e — por que não? — ler um capítulo ou dois (ou mais 😏).
Obrigada por estarem comigo nessa história. Vocês tornam tudo mais especial 💛 Nos vemos no próximo capítulo!
com carinho,
autora <3
e, só para deixar uma pulguinha atrás da orelha de vocês: às vezes, os silêncios dizem mais que mil palavras. o que ficou nas entrelinhas desse capítulo pode ser tão importante quanto o que foi dito em voz alta. me conta: o que você ouviu nesse silêncio? 👀