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𝐇𝐀𝐘𝐋𝐄𝐘

O sol de fim de tarde invade os corredores da mansão, refletindo sobre os vidros altos com uma tonalidade dourada que quase engana, como se aquele lugar fosse, por um segundo, menos sombrio do que realmente é. Estou descendo as escadas quando o som abafado de uma risada rouca me paralisa por um instante. Conheço esse som.

Bryce.

Paro no último degrau, hesitando. Não falamos desde... bem, desde que tudo desmoronou. Ele foi o primeiro a virar o rosto, o primeiro a aceitar as ordens de Jaden sem hesitar. Ou pelo menos foi o que pareceu.

Mas hoje, algo me impulsiona. Já me reaproximei de Hillary, de Vinnie... Talvez, só talvez, seja hora de encarar quem eu mais sentia falta.

Me aproximo da sala de jogos, e o vejo de costas, mexendo no velho fliperama que Jaden mandou instalar recentemente. Ele está mais forte, os braços tatuados agora cobertos por uma camisa de mangas dobradas, e a postura despreocupada é a mesma de sempre — como se o mundo estivesse em chamas, e ele apenas observasse com um refrigerante na mão.

—Você continua péssimo nesse jogo — digo, e minha voz sai mais firme do que eu esperava.

Ele congela. As mãos, antes ágeis nos botões da máquina, param. Bryce vira lentamente, como se não acreditasse que eu realmente estivesse ali.

—Hayley?

—A própria — respondo, com um meio sorriso. — Surpreso em me ver?

Ele me encara por longos segundos. E então ri, uma risada baixa, quase nervosa.

—Eu jurava que seria o último da fila. O último da fila da chance de reconciliação. Pensava que talvez você me desse um soco antes de me dar um "oi".

—Ainda tô pensando nisso — cruzo os braços, mas sem hostilidade. — Você me deve muitas explicações.

—Eu sei — ele suspira e se encosta na lateral da máquina. — Só não sei se tenho respostas que vão te satisfazer.

Me aproximo um pouco, mantendo uma distância segura. O suficiente para mostrar que ainda não é um perdão completo, mas que talvez... seja um começo.

—Por quê, Bryce? De todos, você era o que mais me conhecia. Você sabia quando eu estava mentindo. Sabia quando eu estava sendo usada. E mesmo assim...

—Eu soube — ele me interrompe, o tom sério agora. — E foi exatamente por isso que aceitei. Porque, se eu recusasse, Jaden ia te destruir sozinho. Pelo menos assim, eu poderia estar por perto. Vigiar. Esperar o momento certo de te puxar de volta.

Fico em silêncio. Não esperava essa resposta. Não sei se acredito.

—Você está dizendo que foi tudo um teatro?

—Não — ele balança a cabeça. — Algumas coisas... eu realmente me calei. Por covardia. Por raiva. Porque você também nos deixou. Você nos mandou ir e foi para a guerra sozinha.

Sinto o impacto das palavras. Porque são verdadeiras.

—Eu deixei vocês irem porque era a única coisa que eu podia fazer. Não podia deixar vocês morrerem muito menos irem para a prisão comigo. Eu não podia fazer isso com vocês.

—Você precisa recomeçar Hayley, as coisas mudaram e agora você está livre.

O silêncio paira entre nós. Não estou livre mas não estou dentro daquelas grades mais. Eu voltei. Estou aqui.

—Talvez eu só esteja pronta para lembrar quem eu era. E... talvez você possa me ajudar com isso.

Bryce sorri. Um daqueles sorrisos de canto, quase arrogantes, que sempre me tiravam do sério — e do eixo.

—Quer começar com uma partida de fliperama? Quem perder conta um segredo?

Reviro os olhos, mas a tensão diminui.

—Você ainda luta? — pergunto, mudando de assunto.

Ele arqueia a sobrancelha, surpreso.

—Todo dia. Mas hoje... se você quiser, a luta pode ser sua. Eu só assisto.

—Você é ridículo.

—E você sente falta disso — diz ele, com aquela confiança debochada que, por mais irritante que fosse, sempre me fazia rir.

A risada escapa antes que eu consiga impedir. Ele também ri, mais leve, como se aquele momento fosse um sopro em meio à tempestade que ainda paira sobre nós.

Jogamos. Ele perde de propósito. Deixo-o pensar que não percebi.

—Bryce — chamo, enquanto estamos saindo da sala. Ele para, me encarando. — Eu não sei se consigo confiar em você de novo. Não completamente.

Ele acena, compreendendo.

—Eu não espero isso. Só quero poder tentar, sabe? Você foi... a melhor parte de mim. E se ainda restar uma fagulha disso, qualquer coisa, eu aceito.

Dou um passo à frente. E então, antes que o impulso morra, o abraço.

Demora dois segundos até ele retribuir, forte, como se não quisesse soltar. Como se o tempo perdido pudesse ser resgatado naquele instante.

Talvez não exista conserto para o que fomos. Mas pode haver um novo começo.

E, por agora, isso basta.

—Preciso das suas aulas de luta, faz muito tempo talvez eu não saiba nem dar um chute agora.

—Pode deixar comigo, eu sou o melhor professor que você conhece, vou te ensinar tudo de novo. — ele diz com orgulho e eu não seguro a risada.

E, de repente, me sinto em casa novamente.

E, de repente, me sinto em casa novamente

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Nem todo pedido de desculpa vem com as palavras exatas

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Nem todo pedido de desculpa vem com as palavras exatas. Às vezes, está no gesto, no olhar, no silêncio compartilhado entre duas pessoas que carregam a mesma dor em lados diferentes da história. Hayley e Bryce ainda sangram... mas talvez, hoje, tenham começado a se curar.
Espero que esse capítulo tenha tocado algo em vocês.

Cuide do que importa, inclusive de você. 


Nos vemos no próximo. 🌙🕊️

Com amor, 

autora <3 

𝐀𝐒𝐒𝐀𝐒𝐒𝐈𝐍𝐀 𝐕𝐄𝐑𝐌𝐄𝐋𝐇𝐀 | ʲᵃᵈᵉⁿ ʰᵒˢˢˡᵉʳOnde histórias criam vida. Descubra agora