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𝐇𝐀𝐘𝐋𝐄𝐘

O jantar havia sido servido mais cedo naquela noite. Estava tudo perfeitamente disposto sobre a longa mesa de carvalho no salão principal da mansão, pratos alinhados, taças de vinho, castiçais acesos, tudo tão bonito que me causava um desconforto irritante. Era a típica beleza que tenta camuflar o caos. E todos os rostos ali sentados sorriam como se nada tivesse acontecido, como se o passado não tivesse sido enterrado sob gritos, segredos e promessas compradas.

Sentei-me entre Hillary e Vinnie. A presença dos dois agora me parecia menos agressiva. Ainda não era sinônimo de conforto, mas era suportável. Vinnie falava sobre Noah com Bryce, do outro lado da mesa. Hillary, no entanto, permanecia em silêncio.

De vez em quando, eu notava seus olhos se voltando discretamente para mim, como se quisesse dizer algo, mas hesitasse a cada nova tentativa. Até que, durante a sobremesa, a hesitação caiu.

— Você sabia que ele mandou revisar as câmeras hoje? — disse ela, casualmente, como se estivesse comentando sobre o tempo.

Meu garfo parou a meio caminho da boca. Virei lentamente o rosto em sua direção, franzindo o cenho.

— Que câmeras? — perguntei, num tom neutro, ainda processando a pergunta.

Ela arregalou levemente os olhos, percebendo o que havia deixado escapar. Tarde demais.

— Ah... — mordeu o lábio, tentando consertar. — As câmeras da casa, dos corredores... segurança, sabe?

— Você quer dizer que ele monitora a casa inteira? — minha voz saiu baixa, carregada de algo que nem eu mesma consegui identificar de imediato — incredulidade, raiva ou... medo.

Vinnie se calou.

Hillary fechou os olhos por um segundo. Quando os abriu, estava diferente. Mais séria.

— Hayley... a mansão é enorme e, bom, sim. Tem câmeras em quase todos os cômodos, com exceção dos quartos. Mas não é só pela segurança. — A última frase escapou mais como um sussurro do que como uma explicação.

Tudo dentro de mim se fechou. Revirei mentalmente cada palavra que troquei com os outros ali dentro. Os risos com Noah, as conversas com Anne. Os momentos com Bryce, com Hillary... tudo.

— Ele sabe de tudo? — perguntei, agora encarando Vinnie. Sua expressão endureceu. Aquilo foi mais resposta do que qualquer palavra poderia ser.

Hillary colocou a mão sobre a minha, como se quisesse evitar o rompimento que se anunciava.

— Ele não vê tudo o tempo todo, Hayley. Mas... quando quer saber algo, ele dá um jeito. Sempre deu.

Retirei minha mão da dela devagar, não com raiva, ainda, mas com o peso de algo que se partia de novo dentro de mim. Como confiar em qualquer palavra trocada? Como acreditar em qualquer gesto de cuidado, se tudo podia estar sendo observado?

Levantei-me da cadeira de forma contida. Todos os olhares se voltaram para mim, até os dos que fingiam estar distraídos com a sobremesa.

— Eu não estou com fome — falei, já me afastando da mesa.

— Hayley... — Hillary se levantou também, como se quisesse me seguir.

— Não. — Virei-me para ela. — Só me deixa respirar. Só isso.

Andei depressa pelos corredores. A mansão, com toda sua grandiosidade, agora me parecia claustrofóbica. Cada canto, cada espelho, cada detalhe de luxo... tudo parecia esconder uma lente, uma escuta, uma sombra de Jaden.

Estive presa por três anos, mas nunca me senti tão presa e observada como agora.

Quando cheguei à varanda do segundo andar, finalmente parei. O ar da noite estava frio, o suficiente para me fazer abraçar o próprio corpo. A cidade ao longe parecia viver em outro mundo. Aqui dentro, eu era apenas uma peça no jogo que eu nem sabia mais se queria vencer ou destruir por completo.

𝐀𝐒𝐒𝐀𝐒𝐒𝐈𝐍𝐀 𝐕𝐄𝐑𝐌𝐄𝐋𝐇𝐀 | ʲᵃᵈᵉⁿ ʰᵒˢˢˡᵉʳOnde histórias criam vida. Descubra agora