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HAYLEY

O sol ainda nem havia subido direito quando o carro preto com vidros fumê parou na frente da casa de Vinnie e Hillary, nosso refúgio temporário na Noruega. Sair de Copenhague tinha sido sugestão de Jaden que, com anos de polícia, deixou seu instinto afiado como o olhar que avaliava uma ameaça em meio segundo. Quando ele começou a falar em "Oliver" e a ver ameaças onde eu só via neve, eu entendi o recado. Alguém do passado dele estava de olho na gente, e comigo grávida, ele não arriscaria. O país nos recebia com uma manhã gelada, mas meu coração parecia uma fogueira de expectativa.

Jaden estava de pé à porta, os braços cruzados sobre um suéter de lã preta de gola alta que moldava seu torso poderoso. Apesar do cenário doméstico, ele mantinha uma postura de comando, reforçada pela austeridade das calças de sarja cinza-escuro e dos sapatos sociais de couro envernizado que completavam o visual. O pé direito, no entanto, balançava com um ritmo ansioso, traindo a fachada de controle.

— Você está nervoso? — perguntei, saindo da cozinha com uma caneca de chá de hortelã nas mãos.

— Nervoso é pouco. Eu estou prestes a apresentar minha família para a mulher que... mudou tudo. E que está esperando minhas filhas.

Sorri, apesar do frio que percorreu minha espinha.

— Eu sei como me portar, tá? Não sou mais a mesma.

— Não é isso. É que... eles vão amar você. E eu só quero que tudo dê certo.

Ele me puxou pela cintura e me segurou por ela, enquanto eu abraçava seu pescoço. A barriga, agora, era evidente entre nós.

— E dará. - digo, antes de beijá-lo.

Minutos depois, a campainha soou. Foi Vinnie quem atendeu.

Dois passos depois, a cena era quase surreal. Inimaginável. 

Cooper, irmão mais novo de Jaden, surgiu primeiro. Alto, moreno, e com os olhos castanhos, um pouco mais contidos, talvez. Em seguida, Amy, a mãe. Vestida com elegância discreta, segurava uma pequena sacola de presente. E por fim, John, o pai, alto, expressão fechada, mas havia ternura escondida nas rugas dos olhos.

— Oi Hayley. — Amy sorriu, estendendo a mão. — Como você mudou.

— Oi Amy. É um prazer recebê-los.

John observou em silêncio por um instante.

— Então... você é a mulher que realmente roubou o coração de meu filho.

— Alguém tinha que tentar — brinquei, e ele riu. Sincero.

O clima aos poucos foi se tornando mais leve. Noah, sempre expansivo, correu pela casa mostrando seus brinquedos. Cooper ria com ele. Amy ajudou Hillary na cozinha. E eu me vi parada no meio da sala, sentindo algo que ainda era novo: pertencimento.

Quando a sobremesa foi servida, um tiramisù que Hillary havia aprendido com uma vizinha italiana, eu já estava mais leve. Aquele dia havia sido longo, mas aconchegante. A família de Jaden era... surpreendente. Gentis, calorosos e, acima de tudo, verdadeiros. Amy me tratava como uma filha. Cooper ria das histórias dele e de Jaden, quando eram menores, e se divertia com Noah como se fossem irmãos de criação. Até o pai dele, o mais reservado de todos, me lançou um olhar cheio de admiração ao se despedir.

— Você fez meu filho voltar a sorrir — ele disse, antes de me abraçar brevemente. — Isso vale mais do que qualquer dívida ou passado.

Suas palavras ficaram martelando em minha cabeça enquanto os vi entrarem no carro e sumirem pela estrada. Fiquei na varanda por alguns minutos, o olhar perdido no céu acobreado do fim de tarde, uma das mãos repousando sobre minha barriga.

𝐀𝐒𝐒𝐀𝐒𝐒𝐈𝐍𝐀 𝐕𝐄𝐑𝐌𝐄𝐋𝐇𝐀 | ʲᵃᵈᵉⁿ ʰᵒˢˢˡᵉʳOnde histórias criam vida. Descubra agora