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𝐇𝐀𝐘𝐋𝐄𝐘

Passei o dia inteiro no quarto, mergulhada nas cartas da Hillary. As palavras dela ecoavam em minha mente como sussurros insistentes — cada linha carregada de arrependimentos, explicações e memórias. Estava tão envolvida que não percebi quando o dia cedeu espaço à noite.

Levantei-me da poltrona com certa relutância, decidindo ir até a cozinha buscar algo para comer. A casa estava estranhamente silenciosa — um contraste gritante com os dias anteriores ao casamento, quando até os seguranças pareciam fazer parte da decoração com seus passos constantes e vigilância excessiva.

Caminhei pelos corredores, surpresa por não encontrar ninguém pelo caminho. Antes mesmo de chegar à cozinha, ouvi risadas calorosas ecoando pelo ambiente. E, de algum modo, não me surpreendi ao cruzar a porta e dar de cara com Noah e Anne.

— Vamos, garotinho, você precisa comer, ou sua mãe não vai mais te deixar ficar com a tia Anne — dizia Anne, com um tom brincalhão, mas firme.

— Tia Anne, eu não gosto de sopa de abóbora... tem um cheiro esquisito — a voz infantil arrancou de mim um sorriso discreto. Hillary odiava abóboras. Uma ironia quase poética.

Entrei na cozinha devagar, e os olhos dos dois logo se voltaram para mim. O cheiro agradável da comida se espalhava pelo ambiente, tornando a cena quase acolhedora. Quase.

— Precisa de ajuda, Anne? — perguntei, esboçando um pequeno sorriso.

Desde que cheguei, nossa única interação havia sido sobre o vestido de casamento. Ainda assim, ela me recebeu com uma expressão calorosa, como se estivesse esperando por esse momento.

— Por favor... faça esse menino comer — disse ela, rindo, voltando-se para as panelas no fogão. Noah me observava com os olhinhos atentos, curioso.

— Você é a marida do tio Jaden, não é? — disparou ele, antes mesmo que eu me aproximasse.

Não pude conter uma risada leve.

— Não, eu não sou.

— Mas a mamãe chama o papai de marido. Então você é a marida do tio Jaden — ele falava com tanta certeza que era quase convincente. — Qual o seu nome, tia?

— Hayley.

Ele franziu o cenho, pensativo.

— Vou te chamar de tia Elly.

Sorri. De todas as coisas que eu esperava sentir hoje, ternura não estava entre elas.

— Eita papo... você tem que comer, Noah — disse Anne, focada nas panelas.

— Vamos lá, Noah, abóbora nem é tão ruim assim — peguei a colher de plástico no prato dele e levei um pouco da sopa em sua direção.

— Tia Elly, a senhora é tão legal... não me faça comer isso — ele disse manhoso, tentando me convencer com os olhos brilhantes.

— Que tal se fizermos assim: você come tudinho e a gente brinca até mais tarde?

Os olhos dele brilharam como fogos de artifício. Ele se apressou em dar uma colherada, como se a sopa tivesse deixado de ter gosto ruim. Segurei o riso diante da cena.

Em poucos minutos, o prato estava vazio e, claro, ele queria subir para brincar. Comi algo rápido enquanto Anne lavava a louça e logo subi com Noah para o andar de cima.

— Tia Elly, eu sou igual ao Flash. Olha! — gritou ele antes de sair correndo pelo corredor.

Não resisti e corri atrás dele até o quarto. Ele se jogou no tapete rindo, e eu me sentei ao lado, ainda com um sorriso no rosto. O quarto tinha o caos típico de criança — brinquedos espalhados, uma pequena capa de super-herói no canto da cama, livros coloridos por toda parte.

𝐀𝐒𝐒𝐀𝐒𝐒𝐈𝐍𝐀 𝐕𝐄𝐑𝐌𝐄𝐋𝐇𝐀 | ʲᵃᵈᵉⁿ ʰᵒˢˢˡᵉʳOnde histórias criam vida. Descubra agora