Capítulo 17

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Três dias mais tarde. Trem para o centro.


Kali levou algum tempo para pensar antes de fazer qualquer coisa a respeito de Fenrir, quem quer que seja ele. Na infinidade de alvos de seu display, falhei em encontrar a marca dele, tendo visto no máximo um quarto de todas elas. Apenas depois de três dias ela pega o trem e vai atrás dele.

E eu vou atrás dela.

O trem que leva até o centro e à Praça Atômica começa seu caminho fora da terra, no subúrbio, mas entra no subterrâneo das montanhas, no centro da cidade, seguindo em uma linha reta ascendente até seu destino, andando sobre um viaduto.

A garota encontra-se na outra ponta do vagão, seus cabelos tapando os lados do rosto e os olhos fixos no display. Como de costume, ela tem fones de ouvido enfiados nas orelhas. O que é um comportamento bastante comum, já que a maior parte das pessoas no interior do vagão está quieta, mexendo em seus displays, ouvindo música, jogando em tablets ou usando um daqueles óculos com prisma de vidro para acessar a Teia.

O trem passa por cima da Zona Industrial, que acompanha o rio, e bastante próximo do Núcleo de Nascimentos que Ceres comentou. Daqui é possível ver um pouco mais das montanhas do lado de fora da cidade, por cima dos altos muros que a cercam. O Sol desce lentamente atrás de uma delas, o céu se manchando com as cores do entardecer iminente.

Subitamente, o túnel.

O vagão é iluminado por luz branca no interior; pelas janelas só é possível ver as paredes do túnel, que passam a uma velocidade absurda. Apesar do isolamento acústico, o silvo do vapor de água usado para refrigerar os motores movidos a núcleos atômicos é alto e claro.

Estação da Praça Atômica, diz a voz sintetizada nos alto-falantes do vagão.

Geralmente é o destino da maior parte das pessoas, de onde pode-se pegar metrôs para qualquer outra área do centro da cidade. Também é o destino de Kali e, consequentemente, o meu.

O trem para na estação e as portas automáticas se abrem. A maioria dos passageiros sai, com exceção de poucos. Mantenho um dos olhos na garota e, o outro, no ponto vermelho que a representa em meu novo localizador georreferencial, que funciona apenas com ela. Aparentemente, ele é bastante exato. Eficiente como qualquer outra coisa produzida pela Teia.

— O braço.

Estendo-o à frente e a laboradora responsável pelo filtro de entrada no centro de Dínamo passa um escâner pelo meu antebraço esquerdo.

— Seu nome e casta.

— Harlan Montag, mercador. — Respondo à necessidade de confirmação verbal.

— Qual o seu objetivo em vir para o centro de Dínamo?

— Tenho um alvo se deslocando nessa mesma direção. Estou tratando de cumprir com minhas responsabilidades com a Teia e com meu display. — Digo, as palavras saindo extremamente claras de minha boca.

A mulher digita qualquer coisa no computador junto do qual está sentada, em uma cabine de controle na estação.

— Preciso do nome e casta de seu alvo.

— Kali Assange, mantenedora.

Ela digita mais alguma coisa e, então, me deixa passar.

Assim que passo pelo posto de controle, vasculho a área com os olhos, à procura de Kali. Ela, aparentemente, já passou. O ponto vermelho em meu display está se deslocando à frente, por um corredor. Eu o sigo, a seta branca que me representa cravada no meio do mapa.

O corredor tem as paredes curvas e segue por baixo da terra até uma seção de elevadores e escadas rolantes que leva à rua, acima. Luzes brancas longitudinais o acompanham, e diversos cartazes animados de publicidade piscam junto das paredes, seguindo as pessoas que passam.

Depois de uma curva, sou posto contra a parede.

— Eu lhe disse para ficar longe de mim. — A voz de Kali é fria e dura, como uma lâmina.

O braço direito dela passa sobre meu abdômen, me empurrando contra a parede curva e me fazendo perder o equilíbrio. Sua mão esquerda segura a pistola, e o cano toca a minha barriga incisivamente. Duvido que ela seja capaz de qualquer coisa contra mim, mas a ameaça funciona.

— Estou... indo ao centro. — Digo, incapaz de pensar em qualquer outro argumento.

Kali me empurra com força contra a parede, me pressionando.

Então, agarra meu braço esquerdo e olha para a tela. O mapa com o ponto vermelho e branco continua aberto, os dois encaixados um sobre o outro. Estamos praticamente ocupando o mesmo ponto no espaço.

— Quem fez isso? — Ela pergunta.

— Ela é sua amiga — digo, minha voz tremendo contra minha vontade. — Uma tal de Ceres. Encontrei com ela em um dos servidores da Teia. Queria a sua posição geográfica em tempo real e a paguei com nectarina.

— Está mentindo. Ela é minha aliada.

Os olhos dela penetram fundo os meus, me avaliando. A cor de seus olhos é de um marrom muito escuro, quase preto. A íris quase se confunde com a pupila, mas esta é um poço de escuridão que se destaca.

Fico calado, pois disse a verdade.

— Além do quê, foi ela quem me avisou que você estaria atrás de mim — diz a garota, os olhos sorrindo um pouco, a boca estática. — Disse que descobriu que você conseguiu acesso ao meu display em um posto avançado de mantenedores e decidiu vir atrás de mim.

Respiro fundo.

— Eu disse a verdade. — Digo.

A garota continua me olhando por mais algum tempo antes de falar.

— Escute, Harlan, pois eu vou falar só uma vez — ela diz. — Você e eu temos de ficar separados, pelo menos por enquanto. Pelo menos enquanto eu tento resolver os meus problemas. Depois, veremos o que vai acontecer. Mas você precisa ficar longe, precisa me deixar em paz.

A voz dela é gelada, ainda que, como percebi da última vez, haja algo queimando por dentro de seus olhos.

— Talvez eu possa ajudá-la com seus problemas.

— São meus problemas. — Ela diz, severa.

Ela se desvencilha de mim e dá um passo atrás. Duas mulheres que andam no corredor desviam dela.

— Mas nós somos pares. — Resmungo.

— E isso só torna as coisas ainda piores. — Kali diz, dando mais um passo atrás, virando-se e seguindo pelo corredor. Ela guarda a pistola no coldre e segue em frente, entrando em um saguão e usando uma das escadas rolantes para subir ao nível da rua.

Eu fico parado.

Então, me movo, e subo as escadas também.    

Deuses e FerasOnde histórias criam vida. Descubra agora