Capítulo 67

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Tarde do dia seguinte. Depósito de mercadores.


Na mesa, executo os programas que mostram as imagens das duas câmeras que sobraram no centro de treinamento da Kali. Ela está lá. Seus movimentos são um pouco mais lentos do que de costume. Ela chuta o saco de pancadas, e parece sentir dor a cada um de seus golpes.

— Harlan — diz Jayden, parado a meu lado, colocando sua mão sobre a minha. — O que aconteceu?

Certamente há algo em meu rosto que mudou. Algo que se endureceu, como o olhar inocente e macio de um recém-inserido muda conforme ele passa por provações dentro da Teia. Foi o que aconteceu comigo. E eu jamais poderei voltar atrás.

— Eu matei uma pessoa.

Ele arregala os olhos. Sua mão sai de sobre a minha.

— O quê?

— Ontem. Eu e a Kali fomos ao Núcleo de Nascimentos para tentar descobrir se dois dos políticos que trabalhavam lá eram imunes — digo, em voz baixa. — E ela cheirou nectarina, antes de irmos. Ela ficou estranha. Não parecia estar agindo como sempre.

— É claro. Estava drogada.

— Sim... quando encontramos os políticos, ela não esperou antes de matar um deles, o homem. Ela não quis saber se ele era ou não um imune. Ela simplesmente foi até ele e o matou. Então conversamos apenas com a mulher. Ela disse todo tipo de coisa. Disse que era uma escrava da Teia tanto quanto nós. E disse que isso tudo só se chama "Teia" porque, em algum lugar, existe uma aranha que se alimenta de todos nós. Por isso, quando termina, ela pode nos descartar — murmuro uma última frase: — Ninguém é insubstituível.

— Não diga isso — fala Jayden. — Não diga isso.

— É a verdade. Temos curingas para o caso de alguém morrer antes do tempo. E, quando morremos com o display zerado, também. Kali atacou a mulher e a pôs no chão. Disse que, se eu não a matasse, eu iria morrer. E...

Eu respiro fundo, mas a expiração sai entrecortada.

— E você a matou.

Concordo com a cabeça.

— Sim. Eu a matei.

Jayden dá um passo atrás, ainda que continue próximo de mim.

— Harlan — ele diz. — Eu sinto muito por tudo isso. Sinto mesmo. Mas a Kali não faz bem a você. O que ela fez com você não é justificável, nem compreensível.

— Ela estava tentando uma atualização à força. Mas não conseguiu.

— Isso também não justifica forçá-lo a fazer algo que está no display dela — diz meu melhor amigo. — Não justifica. Ninguém deveria ser obrigado a fazer algo que não quer fazer. Algo tão terrível como matar alguém.

Eu passo as duas mãos pela cabeça.

— E quanto a ela, Jayden? — Pergunto. — Será que tudo o que faz não é apenas algo imposto à ela? E se a Teia a moldou para fazer o que faz? Será que ela não está sendo obrigada a matar?

— O que ela e você fazem são coisas diferentes — responde ele. — Você é um salteador, ela é uma assassina.

Jayden fecha a boca, lentamente, pensando no que disse.

— Uma fatalista. — Corrige.

Eu olho para as imagens das câmeras.

— Ela tirou de você algo que você nunca mais será capaz de recuperar — diz ele. — Faça o mesmo a ela.

Volta a pôr a mão sobre a minha.

— Roube-a, Harlan. Tire dela o que sempre pertenceu a você.

Minha mente dá voltas, confusa, tentando encontrar algo em que se apoiar, mas incapaz de achar tal apoio.

Continuo olhando para as imagens. Ele beija meu rosto e passa a mão em minha cabeça, e diz que eu preciso ser forte para enfrentar os obstáculos no meu caminho. Que eu não posso desistir, não agora. E, depois, volta para sua própria mesa.

Kali desaba.

— Levante. — Diz a tutora.

— Eu não consigo — resmunga a garota, muito baixo. Aumento o volume dos fones.

— Como uma fatalista, você precisa estar preparada para qualquer tipo de provação — diz Sybil, puxando Kali pela blusa com violência, forçando-a a levantar. — Qualquer tipo de provação.

— Não estou preparada para essa.

Ela respira fundo, e o ar sai entrecortado quando ela expira.

Levanta um pouco a blusa, para mostrar à mulher os hematomas roxo-amarelados em sua barriga e cintura. Seu rosto também tem marcas diversas. Sybil não parece impressionada, a princípio. Provavelmente já viu coisas muito piores, como torturadora. Inclusive causadas por ela própria.

A tutora suspira.

— Vamos continuar com o treino. — Diz, severa.

— Eu preciso de sua ajuda, Sybil. — Diz Kali.

Ela olha para a garota como se fosse um ser inferior.

— Ajuda? Que tipo de ajuda pode querer de mim?

— Eu preciso saber. Preciso saber se você gostaria de ter um novo par.

Sybil fica em silêncio.

— Isso não lhe interessa.

— Interessa, sim. Como nada nunca interessou, antes.

— E porque eu?

— Porque você é a única pessoa que eu conheço que está na mesma situação que eu — diz Kali, frágil. — A única pessoa que eu conheço que tem apenas um par.

Sybil parece pensar.

— O que você faria se lhe oferecessem um novo? Um novo par?

Ela respira forte.

— Eu aceitaria. — Diz.

As duas apenas se olham por algum tempo, remoendo a resposta.

— Eu daria qualquer coisa para ter um novo par. — Complementa a mulher.

É a resposta que eu nãogostaria de ouvir.    

Deuses e FerasOnde histórias criam vida. Descubra agora