Meia hora mais tarde. Metrô interno.
Outra vez tomamos uma das linhas internas do subúrbio, indo em direção à Zona Industrial. Há muitas paradas no caminho, e cada uma delas é um suplício. Ainda que meu pé esteja semiprotegido por um tipo de faixa elástica, colocado em minha ida ao posto avançado de curandeiros, ele dói. E caminhar é muito difícil.
Kali anda sempre ao meu lado, mas age como se quisesse andar mais rápido.
Pegamos a última linha. O Núcleo de Nascimentos fica perto do extremo mais baixo do rio, próximo do grande muro que cerca a cidade.
— Você acredita que estes... Alys Taylor e Caleb Ford são imunes? — Pergunto.
— Eu não sei — responde ela, a voz ainda fraca. — Mas nós precisamos tentar.
— E se não forem?
— Então continuam sendo meus alvos.
— Mas Leon estará condenado. E, nós, também.
Ela morde o lábio inferior antes de responder.
— Nós sempre estivemos. — Diz.
Passamos muito tempo quietos. Dessa vez, Kali põe os fones de ouvido, mas não há música tocando neles. Parece, apenas, uma tentativa desesperada de se afastar do mundo exterior, de excluir-se dele e de tudo o que ele representa. E de me manter do lado de fora, também. De me excluir de seus pensamentos.
Em determinado momento, a fatalista segura sua sacola preta com as duas mãos, sobre seu colo, e parece pensar profundamente. Seus olhos examinam a sacola como se nunca a tivessem visto antes, e suas mãos tremem quando ela busca o zíper.
Ela o abre.
Antes de colocar a mão esquerda no interior, os olhos dela perscrutam o ambiente, atentos. O vagão está curiosamente vazio, com apenas dois homens sentados no fundo, de mãos dadas, entretidos pelo conteúdo do display um do outro. Eles soltam breves risadas de quando em quando.
Kali tira, de dentro da sacola, um pacote embalado a vácuo.
O pacote com que paguei Ceres.
Nectarina.
— Kali — eu chamo sua atenção, e toco de leve em seu joelho com a ponta dos dedos. — O que você está fazendo?
Seu lábio treme outra vez.
— Ceres me deu isso. Disse que eu deveria usar quando precisasse.
— Eu sei. Eu estava lá. Mas eu não acho que—
— Não diga nada.
Eu me calo, e ela levanta os olhos para mim.
— Eu preciso disso.
Ela abre um dos cantos do pacote, e parece que uma parte do conteúdo já foi usada.
Sem qualquer tipo de prática ou preparo, ela despeja sobre sua mão um punhado do pó azulado, claramente artificial, pura química.
Então leva o pó ao nariz e o cheira.
Por alguns instantes não há efeito algum.
Kali fecha o pacote e o coloca dentro de sua sacola. Com lentidão, fecha o zíper.
Eu espero um tempo. Ela começa a respirar mais forte.
— Kali. — Digo seu nome.
Volto a tocar seu joelho. A fatalista vira para mim, as pupilas extremamente dilatadas, um poço infinito de escuridão.
— Eu sei o que devemos fazer — diz ela, a voz subitamente dura e séria. — Eu sei exatamente o que devemos fazer.
Ela põe a mão dentro do casaco e a tira logo em seguida.
Olho para minhas mãos.
A pesada pistola preto-fosca está nelas.
Outra vez.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Deuses e Feras
Science FictionEm um futuro distópico, a Internet transformou-se em um instrumento de governo. Os países e nações desapareceram para dar lugar a um Estado virtual que governa a tudo e a todos por meio de dispositivos implantados nos braços dos cidadãos. Cada um de...
