[12] Superstição

8.8K 1.1K 1.5K
                                        

Kwon Sook's P.O.V.

A lucidez me abandona diante do baú escancarado. Todas as teorias que criei se acabam no interior da caixa forrada com seda puída. Há três livros de capas de couro, com lombadas deterioradas e numeradas em 1, 2 e 3. Na capa do primeiro livro está escrito: Propriedade de Wang Juran. Retiro-os cuidadosamente e os disponho sobre o balcão.

Quero devorar cada livro. Tateio a primeira capa e abro. Ela estala nas costuras gastas do encadernamento e exala a mofo. A folha está em branco, exceto pela assinatura de uma caligrafia floreada. É bonita, mas pouco legível. No canto superior há uma data, para a qual Hoseok aponta perspicaz, envergando o corpo sobre o balcão. Ouço um espirro discreto de Jungkook, que se afasta um pouco de nós.

— Aish, isso ataca minha rinite. — Queixa-se.

— Aaah, Sook... Se seus planos eram entregar esses cadernos ao dono, só há um endereço em que poderá encontrá-lo. O cemitério. — Hoseok fala alto e Jungkook ri entre os espirros. — Aqui diz... 29 de janeiro de 1907, ou seja, há mais de cem anos. Se foi o dono que escreveu, e eu creio que sim, está morto há muito tempo. Assim, nada impede a gente de invocar uns espíritos e tal, pra devolver, mas não fecho com morto. Poucos são confiáveis e eu sou supersticioso.

— Você é doidinho. — Rio e limpo uma lágrima no canto do olho. — Vamos saber ao menos do que se trata, né? — Passo uma página escrita à mão. Leio algumas linhas e fecho o caderno com cuidado. — É um diário, não posso ler o diário de outra pessoa. É errado.

Hoseok concorda e beberica seu chá, curvando os lábios para baixo. A expressão de Jungkook, no entanto, é intrigada.

— Mas essa pessoa está morta.

— Diários não são escritos pra outras pessoas lerem. E esses estavam trancados e enterrados, ou seja, a Srta. Wang não queria que ninguém lesse. — Devolvo-os à caixa.

— Srta. Wang?!

— Sim, ela era uma menina, tinha quinze anos. Não vou invadir a privacidade dela.

— Você adora fazer amizade com gente que já morreu. - Jungkook.

— Não fecho com morto. — Hoseok repete e coloca a xícara no balcão. — Nem com morto, nem com baratas. Nem com robôs. Robôs querem destruir a humanidade. Eu já sonhei que os robôs dominavam o planeta, e só sobravam mortos e baratas. É o que a galera chama de apocalipse. E eu acredito muito em sonhos, além da astrologia. Também acredito no poder do sal grosso e, se eu fosse você, andaria com um punhado, Sook. Só pra garantir.

Fitamos o rapaz de cabelos alaranjados e rimos.

— Gente... regras de diário são claras. Não posso ler o diário alheio sem autorização.

— E quem escreve diários hoje em dia? — Agora há deboche no tom de Jungkook, como se escrever diários fosse ridículo.

Penso em debater com ele sobre isso, mas me controlo.

— Jungkookie, eu escrevo diários, de vez em quando. — Hoseok faz um bico e puxa o ar entre os dentes. — Acho bem normal. Inclusive, fico muito puto quando o Jin pega pra ler.

—- E você escreve assim: "Querido diário"...? — Jungkook ri, ainda mais debochado, e eu não me aguento. Soco seu braço e ele me encara com uma postura defensiva. — Que foi que eu fiz agora?!

— Eu tenho milhares de diários, seu idiota!

— Você... tem?

— É... O terapeuta disse que me ajudaria a colocar pra fora o que eu não consigo contar em voz alta.

Girl Meets EvilHistórias para pegar e não largar. Descubra agora