-Ele não... Eu não... -Minha mãe não sabia o que dizer, mas como culpá-la? Não esperaria isso do Bernardo, mesmo ele sendo quem ele é.
Comecei a soluçar de tanto chorar. Escondi meu rosto nas minhas mãos e senti que minha mãe colocou a mão em minhas costas e ficou fazendo carinho. Poucos segundos depois senti um abraço, era o meu irmãozinho.
O abracei de volta e ele sentou no meu colo.
-Vamos dar um jeito. -Minha mãe disse levantando do chão. -Podemos ver se o seu tem conserto ou podemos ver se conseguimos comprar outro. -Ela pegou um copo d'água e me entregou.
Meu irmão me soltou e voltou para sala, após trocarmos beijos na bochecha. Aceitei o copo d'água e o bebi.
-Não quero outro, mãe. -Levantei. -Temos coisas mais importantes para pagar e comprar. Posso estudar pelos livros que eu consigo pegar na biblioteca. -Sabia que aquilo atrasaria meus estudos, e muito, mas não queria fazê-la gastar dinheiro com isso.
Nos abraçamos.
-Eu vou tomar um banho. -Falei e ela assentiu.
-Vou lavar a sua mochila e colocar para secar. -Foi minha vez de concordar.
Fui para o meu quarto e me joguei na cama, sem vontade de fazer nada. Não queria tomar banho, estudar ou fazer qualquer outra coisa. Peguei meu celular no bolso e vi que tinha várias mensagens da Liara querendo saber se tinha conseguido configurar meu notebook, achei melhor ligar para ela do que responder por mensagem. Ela atendeu no segundo toque.
-Já está estudando com o note novo? -Perguntou animada.
-Meu note novo morreu afogado. -Virei de barriga para cima e encarei o teto.
-Como que você fez isso, Anne? -Ela praticamente gritou e eu afastei o celular do ouvido.
-Foi o idiota do Bernardo!
-O QUE? Esse garoto não tem noção da vida mesmo, né? -Contei a breve história para ela que não economizou xingamentos.
-Só deixa isso morrer, Liara. Ele fez isso pelo chute, eu não posso ficar irritando aquele babaca mais ainda.
-Isso é muito injusto.
-É o último ano que eu tenho que aturar esse mala na escola, depois disso vou para uma faculdade e ele... Bom, sei lá o que ele pensa em fazer da vida.
-Amém.
-Vou tomar um banho agora e tentar estudar.
-Vou tentar seguir um pouquinho o seu exemplo.
-Vai estudar? -Levantei da cama.
-Ai, credo! Não! Eu vou tomar banho. -Dei uma risada com sua resposta.
-Tchau, Liara.
-Beijinhos. -Desliguei a chamada e joguei o celular na cama.
Mortinho.
Afogado.
Completamente apagado.
Foi tudo que eu pensei quando o técnico, no dia seguinte, falou que meu notebook não ligava mais. O pior de tudo foi que eu precisei pagar 50 reais para ele falar o óbvio. Peguei o que restou do meu notebook e fui para casa muito triste, mas sem chorar, não restaram lágrimas em meu corpo.
Para melhorar o meu dia, dei de cara com Bernardo no começo da rua de sua casa e, por um motivo que não me interessava, ele estava sozinho e, infelizmente, me viu.
-Como vai os estudos no notebook novo? -Revirei os olhos.
-Me erra, Bernardo. -Não estava com paciência para as gracinhas dele.
-Eu falei que você iria pagar pelo que me fez.
-Olha, parece que alguém cumpre com o que fala. -Fui irônica.
-Sempre cumpro.
-Nem sempre... Lembro de um dia que disse que ia se mudar para a Itália, mas infelizmente continua aqui. -Apressei o passo e ele fez o mesmo.
-Sentiria minha falta se eu fosse.
-Bernardo, isso não é um filme e você não é um galã babaca de filme adolescente, você é só babaca mesmo.
-Não tem mesmo noção do perigo, né querida? -O jeito que ele fala querida sempre é capaz de me deixar enojada.
-Pelo menos tenho noção que a vida não acaba no ensino médio... -Minha raiva dele era tão grande que eu não conseguia deixar de enfrenta-lo. Eu só queria que ele sumisse do mundo ou quem sabe tivesse a memória apagada, quem sabe assim ele pudesse ser uma pessoa melhor. Ou não... Não sei se uma pessoa dessa tem salvação.
-Você...
Cansei, não quero mais ouvir nada que ele falar. Sei que moro dentro da propriedade dele, mas isso não quer dizer que eu tenho que andar até o fim da rua com ele.
Dei meia volta e segui o caminho oposto.
-Eu sou tão maravilhoso que você não consegue nem ficar perto de mim. -Ele gritou enquanto eu me afastava.
-Babaca... -Sussurrei enquanto caminhava sei lá para onde.
VOCÊ ESTÁ LENDO
De repente tudo mudou
RomanceAnne é uma menina inteligente, amiga e dedicada que dá duro para conseguir ajudar os pais a cuidar do seu irmão mais novo. Ela, com a sua família, mora na casa da família Soares, onde vive Bernardo, um garoto mimado, sem noção e que não dá valor as...
