20.

1K 48 5
                                        


-Ele não... Eu não... -Minha mãe não sabia o que dizer, mas como culpá-la? Não esperaria isso do Bernardo, mesmo ele sendo quem ele é.

Comecei a soluçar de tanto chorar. Escondi meu rosto nas minhas mãos e senti que minha mãe colocou a mão em minhas costas e ficou fazendo carinho. Poucos segundos depois senti um abraço, era o meu irmãozinho.

O abracei de volta e ele sentou no meu colo.

-Vamos dar um jeito. -Minha mãe disse levantando do chão. -Podemos ver se o seu tem conserto ou podemos ver se conseguimos comprar outro. -Ela pegou um copo d'água e me entregou.

Meu irmão me soltou e voltou para sala, após trocarmos beijos na bochecha. Aceitei o copo d'água e o bebi.

-Não quero outro, mãe. -Levantei. -Temos coisas mais importantes para pagar e comprar. Posso estudar pelos livros que eu consigo pegar na biblioteca. -Sabia que aquilo atrasaria meus estudos, e muito, mas não queria fazê-la gastar dinheiro com isso.

Nos abraçamos.

-Eu vou tomar um banho. -Falei e ela assentiu.

-Vou lavar a sua mochila e colocar para secar. -Foi minha vez de concordar.

Fui para o meu quarto e me joguei na cama, sem vontade de fazer nada. Não queria tomar banho, estudar ou fazer qualquer outra coisa. Peguei meu celular no bolso e vi que tinha várias mensagens da Liara querendo saber se tinha conseguido configurar meu notebook, achei melhor ligar para ela do que responder por mensagem. Ela atendeu no segundo toque.

-Já está estudando com o note novo? -Perguntou animada.

-Meu note novo morreu afogado. -Virei de barriga para cima e encarei o teto.

-Como que você fez isso, Anne? -Ela praticamente gritou e eu afastei o celular do ouvido.

-Foi o idiota do Bernardo!

-O QUE? Esse garoto não tem noção da vida mesmo, né? -Contei a breve história para ela que não economizou xingamentos.

-Só deixa isso morrer, Liara. Ele fez isso pelo chute, eu não posso ficar irritando aquele babaca mais ainda.

-Isso é muito injusto.

-É o último ano que eu tenho que aturar esse mala na escola, depois disso vou para uma faculdade e ele... Bom, sei lá o que ele pensa em fazer da vida.

-Amém.

-Vou tomar um banho agora e tentar estudar.

-Vou tentar seguir um pouquinho o seu exemplo.

-Vai estudar? -Levantei da cama.

-Ai, credo! Não! Eu vou tomar banho. -Dei uma risada com sua resposta.

-Tchau, Liara.

-Beijinhos. -Desliguei a chamada e joguei o celular na cama.



Mortinho.

Afogado.

Completamente apagado.

Foi tudo que eu pensei quando o técnico, no dia seguinte, falou que meu notebook não ligava mais. O pior de tudo foi que eu precisei pagar 50 reais para ele falar o óbvio. Peguei o que restou do meu notebook e fui para casa muito triste, mas sem chorar, não restaram lágrimas em meu corpo.

Para melhorar o meu dia, dei de cara com Bernardo no começo da rua de sua casa e, por um motivo que não me interessava, ele estava sozinho e, infelizmente, me viu.

-Como vai os estudos no notebook novo? -Revirei os olhos.

-Me erra, Bernardo. -Não estava com paciência para as gracinhas dele.

-Eu falei que você iria pagar pelo que me fez.

-Olha, parece que alguém cumpre com o que fala. -Fui irônica.

-Sempre cumpro.

-Nem sempre... Lembro de um dia que disse que ia se mudar para a Itália, mas infelizmente continua aqui. -Apressei o passo e ele fez o mesmo.

-Sentiria minha falta se eu fosse.

-Bernardo, isso não é um filme e você não é um galã babaca de filme adolescente, você é só babaca mesmo.

-Não tem mesmo noção do perigo, né querida? -O jeito que ele fala querida sempre é capaz de me deixar enojada.

-Pelo menos tenho noção que a vida não acaba no ensino médio... -Minha raiva dele era tão grande que eu não conseguia deixar de enfrenta-lo. Eu só queria que ele sumisse do mundo ou quem sabe tivesse a memória apagada, quem sabe assim ele pudesse ser uma pessoa melhor. Ou não... Não sei se uma pessoa dessa tem salvação.

-Você...

Cansei, não quero mais ouvir nada que ele falar. Sei que moro dentro da propriedade dele, mas isso não quer dizer que eu tenho que andar até o fim da rua com ele.

Dei meia volta e segui o caminho oposto. 

-Eu sou tão maravilhoso que você não consegue nem ficar perto de mim. -Ele gritou enquanto eu me afastava.

-Babaca... -Sussurrei enquanto caminhava sei lá para onde. 

De repente tudo mudouOnde histórias criam vida. Descubra agora