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-Cirurgia? 

Eu imaginei que tivesse sido algo grave, mas não ao ponto de precisar de uma cirurgia. 

-Não me deram muita informação. -Ela me olhou desesperada. -Eu quero meu filho, Anne! -Ela soluçava de tanto chorar. 

-Eu vou atrás de informações. -Olhei para a Liara que estava sentada em uma cadeira ao lado do Caíque que abraçava sua mãe, enquanto o pai do Giovanni conversava com alguém no telefone andando a passos largos e pesados de um lado para o outro. -Mas antes vou te trazer algo para beber. -Balancei a cabeça chamando a Liara, ela veio no mesmo instante. -O que quer?

-Eu quero um chá bem forte de camomila. -Assenti e fui até a minha amiga. 

-Ela vai ficar bem? Tem notícias do Bernardo?

-Ela está sem notícias. Eu vou na recepção, você pode pegar um chá de camomila para ela? -A Liara concordou e foi para a lanchonete enquanto eu ia para a recepção.

-Oi, bom dia. -A recepcionista sorriu alegremente. Deveria ser proibido alguém demostrar tanta felicidade na recepção de uma emergência. 

-Bom dia. 

-Eu gostaria de informações sobre o Bernardo, um dos adolescentes do acidente de carro.

-Ah sim... -Ela olhou para o notebook com desgosto, escondendo completamente o sorriso. -O motorista... -Ela disse com desdém e eu senti nojo da sua falta de profissionalismo. É errado dirigir bêbado? Sim, é errado, mas isso não é motivo para ela achar que pode fazer cara de deboche quando tem cinco adolescentes internados e machucados. Aqui, do meu lado do balcão tem pais, irmãos e amigos que não querem que uma estranha tenha esse tipo de postura, ela precisa unicamente nos fornecer informações da maneira mais solidária, ou no mínimo indiferente, o possível. Contudo, essa informação já esclarece muito sobre o que causou o acidente: motorista claramente bêbado, mas não explica como eles conseguiram um carro ou porque decidiram que era uma boa ideia dirigir. 

O tempo passava e nada dela me fornecer uma resposta.

-Desculpa, mas eu não tenho o dia todo. -Fui rude.

-Aqui diz que ele foi para uma cirurgia com o Dra. Cláudia. -Ela me olhou como se estivesse me fazendo um favor e como se eu soubesse quem é esse Dra. Cláudia. 

-É só isso? -Não é possível que uma incompetente dessas trabalha nesse hospital mega caro.

-Sim, essa é toda a informação que consta no sistema.

-Olha aqui... -Olhei para o crachá dela que estava escrito "Ângela". -Ângela. -Sorri amarelo para ela. -Ali tem uma mãe super desesperada com o filho e seria muito importante para aquela mãe se ela tivesse informações úteis sobre o estado de saúde do filho! -A cada palavra que dizia, minha voz se alterava mais. 

-Eu en...

-Não, você não entende. Se entendesse teria ao menos perguntado a uma enfermeira, técnico, médico ou até o papa se tem alguma nova informação. -Vi quando a Liara passou por mim com olhos arregalados com a minha postura... É estranho saber que eu estou discutindo com alguém pelo Bernardo, mas a verdade é que apesar de toda raiva que eu sinto dele, eu não o quero mal. Não quero o mal de nenhum deles, isso seria muito muito muito errado!

-Eu vou ver o que posso fazer pela senhorita. -Ela levantou enfiando um sorriso completamente falso no rosto. 

-Antes disso, pode me dizer qual a especialidade da Doutora Cláudia? -Engana-se quem acha que toda a vez que perguntamos é porque queremos uma resposta, existem coisas no mundo das quais precisamos saber mesmo sem querer e essa era uma dessas coisas. Eu não sei qual resposta me deixaria mais apreensiva ou qual me deixaria mais tranquila, se é que tem alguma resposta que me tranquilizaria ou a Flávia. 

-Ortopedia. -Não sei se essa informação me deixava tranquila ou mais nervosa. Pelo menos não era neurologista, mas será que em um acidente de carro com um motorista bêbado um ortopedista é melhor? 

-Obrigada. -Fui até a Flávia e a Liara. -Ela foi atrás de novas informações. -Omiti a parte da ortopedia até ter mais informações sobre o que de fato tinha acontecido.

De repente tudo mudouOnde histórias criam vida. Descubra agora