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Entre minhas muitas horas de estudo, a Flávia me ligou.

-Flávia? -Perguntei assustada. -Está tudo bem?

-Está sim, minha linda. -Ela hesitou. -O Bernardo está perguntando de você. 

Será que eu vou me acostumar com isso antes dele recuperar a memória e minha vida voltar a ser um inferno? 

-Está é? -Continuei fazendo a questão de física que eu havia começado. Sei onde a Flávia quer chegar, mas não vai rolar.

-A médica disse que é bom ele ficar em contato com as pessoas que ele conhece, pode ajudar a memória voltar. 

-Flávia, desculpa, mas não acho que eu seja uma pessoa boa para fazer a memória dele voltar. -Ela suspirou. -Você deveria ligar para o Giovanni, ele está preocupado com o Bernardo. 

-Eu liguei e eles conversaram um pouco, mas ele ainda não consegue andar até aqui. 

-E os outros amigos dele? -Terminei a questão e larguei o lápis em cima do caderno.

-Todos inventaram uma desculpa para não vir. Parece que você que não gosta do meu filho se preocupa mais com ele do que os amigos. -O jeito que a Flávia proferiu as palavras me deixou triste. Não por ela constatar o óbvio, afinal não é segredo para ninguém que eu e ele não nos damos, mesmo que eu nunca tenha lhe dito tudo que ele me fez, mas o fato dela saber que os amigos do filho dela não se importam com ele foi de partir o coração. Parece que o Hugo e os amigos do Bernardo são iguais...

-Eu não posso deixar meu irmão sozinho... 

-Posso mandar sua mãe para casa, eu preciso muito mais de alguém para conversar com meu filho do que alguém para arrumar minha cama. 

-Hoje eu estou cheia de coisas para estudar...

-Amanhã, então? -Ela não ia desistir.

Por ela. Eu vou ir conversar com o Bernardo por ela...

-Amanhã. -Dei-me por vencida. 

-Obrigada, Anne. Eu não sei como te agradecer. -Sua voz saiu como se estivesse segurando o choro. 

-Não tem que me agradecer. 

-Até amanhã, Anne.

-Até amanhã, Flávia. -Desliguei a chamada e voltei para os meus estudos de física que se estenderam até às onze da noite. Depois disso, caí morta na cama. 

Acordei no dia seguinte com o meu irmão pulando em cima de mim. Nossa aula só começa às oito, mas o pestinha adora acordar com as galinhas e às 6 da manhã já de pé, acordando todo mundo ao seu redor.

-Já acordei, Cae! -Sentei na cama, com meu irmão ainda em cima das minhas pernas, esmagando-as. -Vem cá e me dá um abraço. -Ele não saiu do lugar. -Quer dizer que você pula em cima de mim e nem um abraço vai me dar? 

Ele levantou da cama e saiu do meu quarto.

-É, fiquei sem meu abraço... -Falei para mim mesma e fui viver, fazendo tudo que se faz pela manhã. 


A escola continuava meio estranha e sem novidades. Diferentemente de metade dos adolescentes, não ficávamos falando sobre o acidente do Bernardo e seus amigos o tempo todo. Óbvio que perguntamos sobre o Giovanni e eles pelo Bernardo, mas não ficamos julgando ou fazendo conjecturas sobre o que e como tudo aconteceu. Entre os "amigos" deles, havia uma competição para quem tinha mais informações, mas a verdade é que nenhum deles estava ligando para o que aconteceu. A prova viva disso era que o técnico propôs de suspender o treino por ter dois jogadores à menos ontem, mas os meninos não aceitaram, preferiram treinar a ir ver os amigos (fosse o Bernardo ou o Giovanni, ou até mesmo as meninas que também estavam no carro).

-Eu estava pensando em fazer educação física. -O Caíque disse.

-Ontem você não queria nutrição? -Questionei.

-E amanhã vai querer engenharia de alimentos. -A Liara disse.

-Isso foi antes de ontem. -Ele revirou os olhos e nós rimos.

O Caíque é a pessoa mais indecisa sobre o vestibular que você vai conhecer na sua vida. Cada dia quer uma coisa diferente e, às vezes, essas coisas tem à ver, mas no início da semana passada ele queria arquitetura e no final, ciências sociais. Vai entender... 

-Deveríamos fazer um bolão de que curso o Caíque vai fazer. -A Liara disse e o Caíque revirou os olhos. 

-Acho que isso nem as entidades superiores sabem responder. -Nós rimos e o sinal tocou dando início a aula.

De repente tudo mudouOnde histórias criam vida. Descubra agora