-Todo mundo fala de você, Bernardo. -Respondi. -E se você fosse como antigamente iria estar amando ser o centro das atenções da escola.
Ele ficou apreensivo.
-Eles sabem... Sabem sobre... Minha memória?
-Não, mas acho que agora que a Lavínia esteve aqui, todos vão saber. -Falei.
-Enfim... Eu estava pensando... A minha terapeuta disse que por mais que eu não lembre de eventos da minha vida, minha memória de habilidades está intacta então se eu sabia fazer alguma coisa antes, quer dizer que eu ainda sou bom, mesmo que eu não lembre que sou bom. -Ele olhou para o teto, franzindo o cenho. -Deu para entender?
Assentimos.
-Basquete. -Respondi.
Ele ficou nos olhando esperando que falássemos mais alguma coisa em que ele era bom, afinal esporte é uma coisa que vai demorar muito tempo para ele conseguir praticar novamente.
Eu e a Liara nos olhamos, desconfortáveis. Não o conhecemos, mas a menos que ele seja um personagem de filme adolescente que esconde um talento para canto ou artes a sete chaves, ele não é bom em outra coisa...
-Só isso? Não é possível que eu não tenha outra habilidade. -Ele parecia irritado com ele mesmo.
-Você se dedicava muito ao basquete, muito mesmo. -A Liara falou. -Você é o melhor da escola.
-Isso não é muito útil agora, não é mesmo? -Ele parecia decepcionado.
-Você é bom em paquerar garotas. -A Liara falou. -Bom, as que não te odeiam...
-É, as que não me odeiam... -Ele repetiu as palavras da minha amiga, lançando-me um olhar penetrante.
Uma sensação estranha percorreu pelo meu corpo, mas não quis dar atenção a isso. Claramente era raiva por ele falar algo desse tipo na frente da minha melhor amiga. A Liara também percebeu a indireta das suas palavras, mas ela sabia que eu a mataria se ela zoasse ou colocasse pilha no que o Bernardo disse, então ela não fez.
Para o bem dela.
-Não te conhecemos bem, você pode perguntar para o Giovanni, ele vai saber seus talentos. -A Liara sugeriu.
-Fotografia. -A palavra escorreu dos meus lábios em um sussurro.
O Hugo, o pai dele, tinha como hobbie a fotografia. Lembro que antes dele ir embora de casa de vez, ele e o Bernardo ficavam pela casa tirando fotos de animais e plantas. Eu já não era mais amiga dele nessa época, mas via da minha janela o quanto os dois se divertiam juntos e o quanto o Bernardo amava perguntar sobre para o pai. Depois que o Hugo saiu de casa de vez, o Bernardo nunca mais foi para a varanda tirar fotos.
-O que? -Ele perguntou interessado.
-Fotografia. -Falei para fora dessa vez.
-Por que minha mãe não me contou?
-Você parou há muito tempo, ela não deve nem lembrar.
-Quando eu poder sair dessa cama, vou tentar tirar umas fotos então. -Falou decidido. -Mas chega de falar de mim, do que vocês gostam?
-Eu gosto de filmes. -A Liara respondeu. -Passo muito tempo da minha vida vendo filme, seja o gênero que for e do país que for.
-Nossa, que interessante! E qual é seu filme preferido?
-Essa eu respondo! Donnie Darko!
A Liara me olhou com cara feia e eu comecei a rir. Ela simplesmente odeia esse filme com todas as forças dela, eu não sei bem o porquê, já que eu nunca vi. Ela costuma dizer que não gosta dos personagens e que ele é superestimado.
-A espera de um milagre. -A Liara respondeu.
Por mais incrível e imprevisível que possa parecer, nós três conseguimos manter uma conversa civilizada e eu quase... quase conseguir esquecer tudo que ele me fez, nesse meio tempo.
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De repente tudo mudou
RomanceAnne é uma menina inteligente, amiga e dedicada que dá duro para conseguir ajudar os pais a cuidar do seu irmão mais novo. Ela, com a sua família, mora na casa da família Soares, onde vive Bernardo, um garoto mimado, sem noção e que não dá valor as...
