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-Você pode se abrir comigo.

-Mas, às vezes, eu penso que ele está bem assim. -Ela me olhou esperando um olhar de julgamento, mas seria hipocrisia julgá-la e completamente errado. Quem conheceu o Bernardo assim pelo menos uma vez pensou nisso... -Ele não conversava comigo, me dava patada e eu sei como ele te tratava, mesmo que nunca tenha reclamado comigo. Eu tentava conversar com ele, fazê-lo abandonar toda a raiva que ele sentia do pai, mas ele não me ouvia... Agora é diferente, ele está me escutando, tem interesse em saber o que eu estou fazendo e quer ficar comigo... Eu gosto mais de um estranho do que meu filho.

Coloquei a mão em seu braço, transmitindo sentimentos bons.

-Ele não é um estranho. É o Bernardo... O seu Bernardo, livre de toda dor e todo sofrimento.

-Flávia? -Minha mãe apareceu na cozinha preocupada e sentou ao seu lado.

-Oi, minha amiga. -Ela deixou a cabeça cair no ombro da minha mãe, que a abraçou. Ela me olhou buscando uma ajuda, uma luz, para ela estar assim e eu dei de ombros. Não tinha como falar tudo que ela me contou apenas com um olhar.

-Flávia, você não estar errada por, às vezes, querer que ele não recupere a memória. São pensamentos que são inevitáveis vendo como ele está comunicativo agora.

-Você acha? -Ela me olhou e eu assenti. -Eu também acho que você precisa pensar mais um pouco em você. Está pagando todas as terapias e tratamentos para o Bernardo, mas não está fazendo nada por você.

-A Anne está certa. -A minha mãe fortaleceu minha opinião. -Você precisa fazer terapia também, vai te ajudar a controlar suas emoções. -É tão bom vir de uma família que não menospreza a saúde mental ou diz que é "frescura". Saber que eu tenho apoio dos meus pais para seguir a carreira que eu quiser e que eles não acham uma perda de tempo é incrível.

-Será? -Ela não pareceu convencida.

Eu e minha mãe concordamos com a cabeça.

-Vou procurar amanhã então.

-Está certíssima, Flávia. -Sorri com a sua iniciativa.

-Filha, você pode nos dar licença? -Minha mãe me olhou e eu assenti levantando da cadeira.

Parei ao lado da Flávia.

-Amanhã depois da aula estarei lá. -Sorri. -Mas não quero nenhum dinheiro para isso.

Ela sorriu e eu dei um beijo em sua testa.

Fui para o meu quarto, triste pelo jeito que a Flávia chegou aqui em casa, mas feliz que, sem muito esforço ou relutância, ela aceitou fazer terapia.

De repente tudo mudouOnde histórias criam vida. Descubra agora