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Remarquei o horário dos estudos para a parte da tarde do sábado, pois não iria perder a grande oportunidade de levar o meu irmão para brincar com um coleguinha de turma. Passamos a manhã inteira na praia. O Cae e o Rafa brincaram demais, eles ficaram fazendo castelinhos na areia e aproveitaram bastante a água também. 

-Posso fazer uma pergunta? -A Clarisse perguntou meio desconfortável. 

Assenti olhando para os meninos.

-É muito difícil? -Ela me olhou sem jeito. -É que minha filha mais nova está no caminho do diagnóstico...

Pensei em todos os momentos difíceis que já passei com o meu irmão... São muitos, mas os momentos bons também ocorrem com frequência. 

-É desafiador... -Olhei para ela. -Não só pela criança, mas pelo pitaco dos outros e propostas de curas milagrosas. 

-Essa parte da cura milagrosa já tive bastante contato. -Ela falou rindo. Eu entendo a sua risada, pois chega a ser cômico como as pessoas acham que um cházinho, um padre ou um remédio vai tirar as pessoas do espectro. 

-Ela já está nas terapias? -Ela assentiu.

-Começou mês passado e eu já vi muita mudança.

-Compreendo, o Cae virou outra pessoa depois da terapia, ele aprendeu a se comunicar com a gente. 

-Vocês sofrem muito preconceito? Eu tenho tanto medo da minha filha sofrer com isso.

-Não a todo momento, mas sim, existem muitas pessoas ruins no mundo que não entendem as coisas. Mas, você também vai encontrar muitas pessoas boas no seu caminho, pessoas que vão amar vocês e a sua filha e vão fazer o possível e o impossível para ver vocês felizes. 

-Ela é tão inteligente! Eu queria que as pessoas olharem para ela e visse isso, visse o quanto ela é boa gravando cores de personagens e como é organizada, mas quando olham para ela... Só reparam que ela não presta atenção quando a chamam, não come massa e tapa os ouvidos com barulhos. -Ela deixou uma lágrima escapar. 

A dor dela é compreendida por todos que têm um filho, ou alguém muito próximo, com autismo. As pessoas cismam em achar que as pessoas do espectro não sabem viver em sociedade, não têm empatia e são gênios da física ou matemática. Mas a verdade é que eles são só pessoas... Pessoas com dias bons e dias ruins, pessoas que, em alguns casos, se expressam de formas diferentes. Elas não são um diagnóstico, ninguém é... Todo mundo é muita coisa junto... 

-A parte mais difícil, para mim, não é lidar com o meu irmão, mas sim com as pessoas que acham que meu irmão é incapaz. Não estou dizendo que tudo será umas mil maravilhas, pois não será. -Olhei para o meu braço que tinha algumas cicatrizes de unha de quando meu irmão se desregula e eu não tenho força suficiente para soltar sua mão do meu braço. -Ela vai se desregular, coisas vão estressá-la, mas pode ser que ela se desenvolva bastante com a terapia e apresente menos sintomas no futuro. 

-Estamos esperançosos com a terapia. -Ela sorriu limpando a lágrima. 

-Pode contar comigo para o que precisar, tem meu número! 

-Obrigada... Mudando completamente de assunto, semana que vem eu vou fazer um bolinho para o Rafael lá em casa, mas não chamei muita gente, gostaria que o Caetano fosse. Leva os seus pais. 

-Claro! Estaremos lá. -Sorri com o convite.

De repente tudo mudouOnde histórias criam vida. Descubra agora