Capítulo Um - Orgtown

328 52 337
                                        


­­

É nas velhas casas, onde parece flutuar ainda a penumbra dourada do passado, que se recebe, mais perdurável e mais viva, a impressão da família e do lar.

Júlio Dantas


Orgtown


O sol raiava.

Pesadas nuvens cinzentas escorriam pelo claro céu azul, solitárias, carregadas por um vento distante, acima da terra, acima dos homens. Não muito longe, uma grande floresta crescia na plenitude de sua vivacidade. Pedras estadeavam. Afluentes cortavam a terra em uma água cristalina a descer dos montes, a nascer das fontes, para após juntarem-se e formarem em um único poderoso rio da qual o chamavam de O Grande não por um mero adjetivo. Animais lá viviam. Plantas lá cresciam. Um vilarejo lá perto existia.

O dia escurecia-se e tornava-se claro ao piscar de olhos na ocasião de algumas nuvens esparsas cobrirem a face do sol, pintando a terra em chiaroscuro, surgindo e manchando, oscilando entre o dia e à noite, a luz e as trevas; o trespassar da batalha interminável ao espaço doutro, exercendo a inexistência de vencedores, mas apenas de jogadores a prol do necessário equilíbrio na ignorância humana.

Perante cerúleo, a conjuntura concebida passava-se ao par de olhos de uma criança; um garoto como qualquer outro, sem artifícios exemplares ou virtudes sobre-humanas. Apoiado a base da janela estava observando despreocupado o esplendor matutinal, capturando no aspecto mais comum tudo o que considerava ser bom.

Observava como o vento balançava os galhos, as folhas que resplandeciam o verde acentuado pela luz nas colinas ao horizonte elevado. Admirava a beleza do encurvar da floresta à graciosidade do tempo numa rítmica e inóspita faina natural, talvez no que seria uma harmonia onde os casais conheciam-se pela habitual experiência laboriosa ao mundo, criaturas intangíveis numa dança inteligível; a magistral Mãe observada por profundos olhos negros de uma criança fascinada com a energia da vida, contente em presenciar a reunião concomitante dos elementos.

Este campesino sorria para o vento, cumprimentando os aldeões em suas carroças, tais que submergiam a curva da estrada onde localizava-se o centro do vilarejo não muito distante.

E assim, inconsciente sentimento cativava-o por horas, momentos que o levava a campos além da cerca sinuosa e das delimitações do terreno que cuidava e morava desde que se tinha lembranças. Admirava, mas havia algo que lhe chamava à atenção e logo seus sentidos envolveram-se numa memória familiar, uma característica exalação que se expandia no ar, silenciosa. O garoto, ao identificar do cheiro, descobriu derivar-se de seu quintal.

"Terra?" – Estudava consigo mesmo, absorvendo melhor o aroma. "As sementes!" – Despertou-se.

Lançando-se fora de casa em meio a relva de cobertura falha, sem muito esforço o jovem distinguiu-as sobre uma rocha ligeiramente plana; a face exterior coberta por um grosso e cinzento tecido cujas sementes encontravam-se sobre, secando a brisa, preparando-se para a plantação.

Ao juntá-las em um pequeno saco de pano que trouxera, o pequeno camponês recordou-se de que modo as conseguira, orgulhando-se pomposamente por esse feito; o seu primeiro, ao que se lembrava.

Orgtown era um vilarejo escondido no quase extremo do Sul de todo continente, sempre pequena e pacata. Este garoto nascera lá, crescera lá e de nada mais conhecia a não ser das pessoas que lá viviam.

A Jornada de um Assistente e a Esfera da LuaOnde histórias criam vida. Descubra agora