Capítulo Onze - O Caldeirão de Clyddno Eiddyn

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Espreguiçando-se, Typson acompanhou o mago até uma outra porta que há pouco não existia. A maneira como fora aberta foi-se fechada apresentando ao visitante mais uma ala desconhecida. Era muito semelhante a anterior, divergente no formato do lugar que era relativamente oval, ao teto que era fechado e ao espaço que era de fato menor. E no que faltava em recinto, tinha-se em objetos. As prateleiras, assim como a primeira ala, brotavam na parede rochosa aos montes, sempre ocupados por frascos, livros ou algo semelhante. Tudo possuía um tamanho compatível ao robusto homem, sensação que fez Typson se sentir minúsculo no que via e tocava.

Ao olhar fundo mais à frente, quase uno à parede, observara-se um avultado escrínio. Tinha em sua superfície uma quantidade singular de livros, uma ampulheta ainda com a alva areia a escorrer, uma pena escura mergulhada no tinteiro e outros pequenos objetos que não se definiam bem pela distância. Atrás do móvel, um pouco acima da cabeça de quem repousasse na rústica e larga cadeira, uma redonda janela criava um longo holofote de luz da qual demarcava as partículas de poeira salpicadas no ar, sem rumo.

O mago, ao caminhar direção ao móvel e, seguidamente, mexer em papéis e livros, desviara-se de algo em seu trajeto retilíneo, algo antes não apercebido e que logo ganhara a atenção de Typson. No centro do oval ofício parecia haver uma rocha fixa, que com o aproximar caracterizara-se aos poucos como um tipo de recipiente ou uma grande panela; estava escuro para ter certeza. Em sincronizado intermédio, Merlino batera seu bordão, e ao lado logo crepitaram duas tochas antes escondidas. Não era uma panela como pensado. Preso por uma alça que se acoplava nas bordas fincando-se ao chão e o suspendendo, o caldeirão do mago não demostrava nenhuma qualidade em destaque. Toras de lenha guarneciam a base, aparentemente recém-cortadas, circulando-o com perfeição. O caldeirão não estava quente – Typson o havia tocado – supondo que em tempos o mago não o usara.

Ao nivelar-se a altura do caldeirão Typson viu, incrustado na superfície saliente, uma estranha e detalhada face humana; o longo cabelo e barba serpenteavam em alto-relevo pela escura superfície. Os olhos bem fechados, a boca fina, as sobrancelhas enrugadas carregavam a expressão da velhice no rosto de bronze.

Typson pegou-se a deslizar seu indicador na face da figura, caminhando por entre as mechas de cabelo e contornos. Espantou-se ao ver o rosto se vivificar e abrir seus olhos metálicos.

– Se eu fosse você, afastaria o dedo. – Sugeriu o mago com a voz.

Logo a face de bronze, ao resmonear irritada, retornou ao seu estado antigo inanimado.

– Aproxime-se, garoto. Venha cá. – Gesticulara com a mão. – Sabes ler?

Er... sim. – Deu alguns passos, afastando-se receoso do caldeirão. – Sim, eu sei.

– Aprendestes aqui? – Soou sutil interesse.

– Minha mãe me ensinou tudo desde pequeno. Bem, pelo menos o pouco que ela sabia. Depois eu fui aprendendo sozinho. – Aproximava-se do mago, este que escrevia num pergaminho alguma coisa que não se assemelhava a letras comuns.

– Sua mãe? – Não era uma pergunta. – A que trabalha com a terra aqui na Cidadela. – Parou de escrever, voltando-se ao jovem. – Lembro-me bem dela. Cabelos escuros. Belos olhos verdes. – Sorriu descontraído. – Uma mulher gentil e airosa.

– Algo que eu precise ler, senhor? – Interrompera-o com um pigarro, acanhado com o rumo da prosa.

– Algumas. –Voltou a escrever ciente do devaneio. – Não agora, é claro. Mas com o tempo, quem sabe. – Levantara-se. A cadeira rangeu no movimento. – Runas é uma escrita complexa e fatigante para alguns. Eu não planejava demonstrar tão cedo, contudo o seu atraso é alarmante. Mas hoje concentremos nestas duas. – Mostrou-lhe o pergaminho em que escrevera. Typson, ao segurar o papel em mãos, identificou a horrível caligrafia no velho homem.

A Jornada de um Assistente e a Esfera da LuaOnde histórias criam vida. Descubra agora