Capítulo Dezoito - O Cetro

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(...)




Fechados os olhos, as imagens vieram curiosamente embaralhadas, amalgamadas a uma certa percepção. Eram profundos e perfeitamente claros em fragmentos, enquanto outros não passavam de borrões e rasuras de vozes distorcidas.

Uma sequência de imagens se transcorreu.

Primeiramente uma colossal e magnífica Lua cheira; uma tempestade; a fronte da Biblioteca; uma caverna; o cemitério; a Esfera; a floresta; o Vulto e uma escuridão donde saia uma voz. "Caia", e Typson caiu mergulhando nos grandes e poderosos olhos brancos para ser apanhado pelos braços de um homem encapuzado, mas o homem não segurou. Typson era largado devorado pela terra, ressurgindo em seu vilarejo em chamas. As pessoas corriam, gritavam e agonizavam-se, mas apenas um garoto não conseguia correr. Suas pernas eram seguradas pelas cinzas de seu povo e a grande Sombra que destruíra tudo em seu caminho aproximava-se com os braços estendidos sedentos pelo fim. Desta forma, a massa da sombra o engolia exercendo então o despertar do tormento.

A chuva estava clara e forte como nunca antes. Uma goteira formara-se em direção a cama, ou mais propriamente na cabeça de Typson. Trovoadas chacoalhavam a casa de madeira, tal como o vento assobiante. Flashes de luz branca entravam pelas brechas existentes.

– Difícil dormir com uma goteira em sua testa. – Comentara a Alan agora desperto, imóvel na cama.

– Os trovões são os que me assustam mais. – Confessou.

– Mas não foram os trovões que o acordou.

Infligira Typson uma longa pausa para então continuar:

– Com o que sonhou, Alan?

– Com o mar. – Respondera-o estranhamente nostálgico. – Ou eu acho que era. Já ouvi muitas estórias sobre essas águas e suas grandes ondas sem fim. Longe de tudo, homens a singrar. E naquela imensidão eu ficava em um barco, mesmo que nunca tenha visto um. – Refletira longinquamente. – Pensando bem, até que não foi um sonho ruim.

– Na verdade, é um belo sonho. Melhor que o meu, tenha certeza.

– Como assim?

– Gostaria muito de sonhar assim, Alan. Há muito tempo que meus sonhos são sempre o mesmo. É muito frustrante, para não dizer enlouquecedor. – Recolheu-se.

– Sempre o mesmo sonho? – Sorriu a incrédula criança. – Isso é impossível, Typson. Você sabe que...

Interrompido o argumento, som de passos pesados e céleres os fizeram alertas.

– Melhor ajudarmos a sua mãe com a casa antes que ela fique com raiva. E não a queremos ver assim.

– Vejo que aprendeu a primeira lição. – Levantara-se Typson, cambaleante.

– Typson! – Exclamara Atícia no seu melhor chamado. – Acorde, meu filho, antes que essa casa vá para os ares! Ajude-nos com os vasilhames.

Typson não conteve um sorriso ao ver o movimento na casa. Atícia corria para todos os lados com recipientes cheios e outros vazios, jogando a água pela janela, que ao ser aberta, jorrava a mesma água jogada fora. Ana espalhava copos e recipientes pela casa cobrindo o chão, dificultando a passagem. Algumas vezes Atícia esbarrava em alguns jarros e vasilhas clamando injúrias em voz alta para não enlouquecer.

– Typson, não fique parado como uma tábua. Pegue os jarros do meu quarto que devem estar cheios e jogue a água fora. Depois busque meus retalhos em cima do armário e espalhe-os pela casa, pois eles estão costurados. Alan, se Lucvan demorar mais um pouco nesta tempestade...

A Jornada de um Assistente e a Esfera da LuaOnde histórias criam vida. Descubra agora