Capítulo Dezessete - A Espada

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(...) É prodigioso o que o pulso pode revelar sobre o interior de um homem. Não somente sobre o estado momentâneo de sua saúde, mas sobre suas tendências habituais, seu temperamento, e mesmo seu caráter, se ele é superficial ou profundo, agressivo ou suscetível, sedoso ou áspero. Há o pulso do saudável e o do doente, há também o pulso da caça e o do caçador.

A Noite dos Tempos – René Barjavel




– Ainda se lembram do que faremos? – Perguntara Typson. – Sobre o que falei há pouco?

– Se eu não estiver em casa, eu... digo, nós procuraremos.

– Nós nos veremos então.

Assim Ana e Razi se despediram de Typson a capturarem o olhar apreensivo do jovem, observando-o sumir sentido à superfície em direção à casa de seu mentor para melhores explicações. Visto o desaparecer do jovem, acomodaram-se melhor no assento, respirando desanimados, tamborilando os dedos da mesa de pedra. Algumas vezes trocavam olhares entre si, incluso a senhora que semicerrava seus olhos para os jovens sem compromissos. Um estranho ambiente atarracava, enrijecendo o corpo, acelerando o secar da saliva, tornando os pigarros frequentes e desconfortavelmente desnecessários.

– Então... – Falara Ana a prolongar a entonação final do advérbio, a inclinar a cabeça para a esquerda enquanto olhava para cima apurando em mente algo para dizer. – Está tudo bem?

– Sim. – Respondera Irisin numa entonação questionadora. – Não esperava ter companhia, apenas.

A senhora olhava para o túnel as costas com frequência, no claro entendimento de duas variáveis: ou empertigava-se com o atraso dos assistentes ou simplesmente desejava ficar só. Era regular o comportamento da esguia mulher, especialmente ao destacar seu cabelo bem preso ao centro da nuca e o penteado que a dava, casualmente, a singular ênfase do seu caráter inflexível.

– Como a senhora se tornou tutora, mentora, professora... ou seja qual for a melhor qualificação. – Perguntara Razi com um dar de ombros.

– Por que quer saber?

– Ficaremos um bom tempo aqui. – Retrucara. – Para ser sincero, esperamos alguém do outro grupo. Ao que vejo, isso demorará.

– Infelizmente. – Suspirara a mulher. – Mas, o termo é: Mestre. Não o usamos mais, mas alguns ainda resgatam essa educação ou mesmo outros títulos semelhantes. Particularmente, a meu ver, o respeito se vem do bom coração; apesar que senhor ou senhora deve-se manter por definição.

– A senhora sempre ensinou? – Perguntara Ana.

– Eu já fui jovem uma vez, Srta. Donavan. Assim como todos, eu passei pelos estágios naturais de uma pessoa comum.

– E por que ensina? – Perguntara Razi.

– Alguém tem que o fazer. – Cruzara os dedos das mãos entres os outros sobre a mesa.

A mulher fixara seu olhar para longe, para um lugar no passado, evidentemente se deliciando com as particulares recordações. Não chegara a sorrir, mas um pesar pairou em sua expressão.

– Foram tempos amargos para os homens e mulheres. Muitos tinham famílias, e naqueles anos na Cidadela, ou o próprio Norte, constituía-se de um desanimo funesto como se algo ruim incorporasse em terra; um peso que ninguém distinguia. Em meus tempos de assistente, o mundo para mim era mais simples. Certo que tinha meus problemas, mas estes eram problemas irrisórios comparados aos de hoje e aos que haviam. Quanto o tempo passou, eu iniciei uma nova visão e esta não me agradou ao ver todos sucumbidos em esmorecimento. Fora desta maneira que quis me tornar o que sou hoje. Eu queria compartilhar minha energia com outras pessoas.

A Jornada de um Assistente e a Esfera da LuaOnde histórias criam vida. Descubra agora