Capítulo Dezenove - O Livro e o Cofre

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Três labaredas alumiavam o caminho. Typson posicionara-se à frente de todos, enquanto Helena e Anabell ao meio, distribuindo a luz. Desceram calculando o espaço de cada passo. Passado pelas runas, os degraus que forneciam a descida retornaram ao estado anterior, lacrando a passagem, excluindo a ínfima esperança de retorno, ressaltando a marcha para o desconhecido.

– Perfeito. – Rosnara Peter.

Era uma escadaria em espiral, ao que se assemelhava. Feita da própria rocha que revestia as paredes úmidas, característica essa revelara-se como rígida, escura e porosa; detalhes sentidos ao toque e pelo atrito das botas. Parte da escadaria, delimitação óbvia de onde os pés se arrastam, estava visivelmente gasta com se por muito tempo alguém subisse e descesse pelo túnel. Typson, por sua vez, ignorara a curiosidade ao apalpar a importância dos objetos que carregava.

Não trocaram palavras. Um silêncio emanava da escuridão permanente, deixando-os cabisbaixos e instintivamente receosos. O ambiente não facilitava. O ar em movimento costumeiro das construções não se mostrava presente, acentuando o calor. Não haviam cristais. O pouco que se discernia era pelo fogo conjurado e pelas pedras portadas pelos assistentes. Passado mais alguns minutos, Anabell acelerara o passo emparelhando-se com seu irmão.

– Como soube deste lugar? – Sussurrara sem enfraquecer a chama. – Pensei que... cuidado, mais devagar... não tínhamos o livro ou como achar ele ou o cofre.

– Eu também. – Respondera observando Helena e Razi se aproximarem. – Eu não tinha mais esperanças, esperava pelo pior... foi então quando ouvi o hino pela primeira vez. Digo primeira vez porque apenas agora entendi o seu significado além das palavras. – Sorrira excitado. – Tudo ficou claro. Tudo que vi li e aprendi "estourou" em minha cabeça e por fim... bem... estamos aqui, não?

– Não seja humilde. – Retorquira Razi arqueando uma única sobrancelha. – Mas, não entendi como encontrou o livro. Foi na Biblioteca?

– Isso é o mais surpreendente. O livro estava comigo o tempo todo.

– Com você?! – Esbravecera Razi entredentes. – Passei seis dias naquela Biblioteca embolorada por nada?

– Desde quando? – Reformulara Anabell a Typson.

– Há alguns meses, eu acho. – Encolhera os ombros. – Mas devem me perdoar. Ao que sei, os objetos foram escondidos nas construções importantes do guerreiro.

– E onde você encontrou o livro? – Perguntara Helena.

– No quarto de ofício de minha mãe, sob o chão de madeira.

– O buraco! – Iluminara-se Anabell. – Da qual caí.

– Exatamente.

– Você tem certeza que é o livro certo?

– Disto não posso duvidar. – Respondera Typson buscando de sua trouxa o objeto mencionado. – Olhem na primeira página.

Lido o nome do guerreiro, o trio estudava as pistas quando Anabell tropeçara propelindo-se para frente. Antes que alguém pudesse gritar o seu nome, rapidamente a jovem erguera-se portada com uma lavareda, totalmente molhada. Os cabelos ruivos delineavam o busto. A pedra âmbar cintilara.

– É o fim! – Agitava a chama para todos os lados. – Venham, é apenas água. – E um por um desceram para a extensão d'água, profundidade que variava da rótula à parte da tíbia.

Seguiam em linha reta por uma vasta bolha subterrânea. A escuridão do túnel, outrora percorrido, substituíra-se por uma dimensão mais afastada em todos os ângulos possíveis. Era uma atmosfera quieta e onerosa, limitando-se aos sons das gotas que caiam do teto e da travessia dos jovens. Cada passo era dado com custo. A água, por si, estava extremamente gélida, infligindo – em especial aos portadores do calor – uma desaceleração natural. Dentes atritavam-se. Labaredas diminuíam, em exceção a de Typson.

A Jornada de um Assistente e a Esfera da LuaOnde histórias criam vida. Descubra agora