Capítulo Treze - Entre Fogo e Gelo

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As pessoas são responsáveis e inocentes em relação ao que acontece com elas, sendo autoras de boa parte de suas escolhas e omissões.

Lya Luft


- Mãe!!? - Trovejou Typson ao acordar.

Apalpava o corpo buscando ferimentos, desnorteado, acometido, invadido pelo pavor do pesadelo que tivera; sua mãe sendo atacada. Sentia-se pesado. Faltava-lhe ar. Ao passar a mão em sua fronte, gotas de suor vieram-lhe frias, ao menos era a sensação desta. Seu peito estava dolorido, dor essa sentida a cada bater de seu coração. Tão pouco acreditava que estava em sua cama, ou em seu quarto. Tudo lhe parecia trêmulo, frouxo como se o mundo não passasse se uma grande massa sem liga. A cabeça latejava. Sua pedra ardia.

Demorou para recuperar o fôlego tanto quanto o estado decente de locomoção. Saíra da cama a apoiar-se nas paredes. Não lembrava de como o chão era gelado. Estava tentando se lembrar de algo a mais de seu sonho quando sua irmã aparecera na porta.

- Typson!? Você está bem? Alguém gritou? Foi você? Acho que eu ouvi você gritar. - Preferia atormentada a um tom de preocupação ajudando-o a se sentar na cama.

Ana estava impecavelmente assanhada. Mechas de seu cabelo cobriam boa parte da testa a bater fios em seus olhos. Suas orelhas não estavam visíveis. Seus olhos estavam inchados. Seria uma cena onde Typson teria sorrido.

- Eu estou bem, minha irmã. - Respirara a se deitar. - Foi apenas um sonho, nada mais.

Já amanhecia. Fato fora que Typson não dormira mais, permanecendo assim num estágio de letargia onde o corpo não obedecia aos comandos provindos da cabeça. Alguns chamariam isso de exaustão, já outros de preguiça. Alimentou-se. Esperaria ficar tarde para encontrar com seu professor e esperar o que realmente aconteceria. Mas, por ora, era um dia relativamente silencioso. Ana não falara mais nada após o susto matutino e tão pouco sorrira. Sua aparência era cansada como de uma noite mal dormida.

- Você está mais péssima do que o de costume, Ana. - Cutucara-a tentando alegrá-la.

- Você não está numa posição de críticas, meu irmão. - Respondera secamente a levantar-se da mesa e ir para fora. Ela não terminara seu café.

Typson banhara-se a olhar para o céu com um ar de interrogação. Verdade era que sempre se sentia melhor depois de um bom banho. Terminado, caminhara até seu quarto a sentar na ponta de sua cama, pensativo, tentando compreender seu pesadelo; ou à maior parte dele. Era uma tarefa inútil, não apenas ao sonho desta noite, mas em todo o decorrer de sua estadia na Cidadela, ou antes. Há pouco mais de cinco anos que pesadelos o assombravam, começando no dia de sua fuga, ao ruir de seu vilarejo; sonhos que nunca mudavam, sempre o mesmo homem a carregá-lo, o medo constante, uma mulher estranha e um mal ameaçador e agora sua mãe ferida. "Seriam verdades?" Em um certo momento cansara em tentar assimilar.

- Anabell, espere! - Chamara-a ao vê-la de relance na entrada de seu quarto. - Por favor.

- O que quer, Typson?

- Quero conversar.

- Não estou com ânimo para isso agora. - Respondera a escorar se na parede. - Eu, digo, nós temos que ir para a Abóbodala. Lembre-se que eles são rigorosos na disciplina do tempo.

- Ainda temos tempo. Quero somente te perguntar uma coisa. - Dissera a bater na cama, insinuando onde sua irmã deveria se sentar. - Vamos, não demorarei ou arrancarei pedaços.

E Ana, com um ar de irritabilidade e tédio, sentara-se ao seu lado a enrolar em seu indicador mechas de seu cabelo, agora úmido. Era um sinal claro, e Typson compreendia. Algo estava errado.

A Jornada de um Assistente e a Esfera da LuaOnde histórias criam vida. Descubra agora