"Às vezes, através dos séculos, essa batalha antiga chega a um pico. O mal fica muito forte e quase vence. Mas sempre ao mesmo tempo há algum líder no mundo, um grande homem que às vezes parece ser mais do que um homem, que leva as forças do bem a recuperar terreno e os homens que pareciam ter perdido."
Susan Mary Cooper – A Rebelião das Trevas – Acima do Mar, Sob a Rocha
Cavalgaram. Quando não capaz foram, puseram-se a andar. E andaram. Andaram cada vez mais. Manhãs, tardes até noites inteiras sem descanso. Caminhos, estradas e trilhas que surgiam interminavelmente, domínios e terras dos quais aparentavam se capacitar de extensões incalculáveis. Nada parecia ter fim. Florestas forâneas avolumavam-se, salve guardas, adversas; e seus rios eram violentos, outros longes ou resguardados por elementos naturais ou não; em soma, o mundo não lhes mostrara compaixão.
A natureza assolara-os com vento, chuva, calor, frio ou dias em que se decorriam em montante e consecutiva. Nas pouquíssimas pausas que realizavam, discutiam o melhor caminho a prosseguir, evitando participar das notícias que recebiam ou pelo simples e melhor repouso por alimento e sono. Assim seguiram-se dias, semanas e meses... nove longos meses. A rotina permanecia a mesma: cavalgar ao Norte e desviar de quaisquer surtos aparentes.
Nesse meio tempo, Lucvan despedira-se rumo ao seu pai enfermo, a um vilarejo consideravelmente longe do caminho a traçar. Abraçaram-se e, embaixo da copa das árvores, assistiram-no partir com a chuva a chiar nas folhas, com as gotas aparadas a encharcá-los. Fadigados e tristes, os três viajantes seguiram em frente, cada vez mais mergulhados em um Norte semoto. Sentiam-se a cada noite mal dormida, mais cansados, famintos e solitários.
O esgotamento encravava-se aos ossos. Caminhavam a passos curtos, passivos, lutando contra arbustos, emaranhando-se dentre as árvores, adentrando em fileira e de mãos dadas e cabeça abaixada no desconhecido, no território de coníferas. Não tinham ideia do quão ficaria frio à noite durante ao passar de terras. Em razão disso, e pela enorme fome que sofreram, Atícia negociara a égua – nas parcas civilizações que surgiam – em troca de algumas roupas e mantimentos: um pouco de comida, algumas frutas e capotes baratos e usados. As capas – dois negros chamuscados de pelos brancos e uma cinza – couberam sem muita perfeição nos viajantes desgostosos. O cinza de três grandes botões com uma sobra de tecido abaixo do pescoço ficara com Atícia, enquanto os negros, com Ana e Typson.
– Por que não ficamos aqui, mãe. – Implorou Typson, a um olhar abatido ante as casas descaídas do vilarejo apático. – Essas pessoas aparentam ter bom coração. Talvez possamos ficar e, quem sabe, começar tudo outra vez.
Atícia não o respondeu. Recebera a mercadoria de troca sem mais palavras. Partiram logo ao amanhecer.
Apesar dos capotes evidenciarem uma qualidade considerável, o frio continuava a penetrar por entre as brechas, enregelando o nariz e pontas de dedos. Já faziam três dias que um vendaval acoitava os três viajantes e aproximadamente uma semana em que atravessavam uma sinistra floresta da qual não sabiam o nome.
Era-se certo, estavam perdidos. A sombria madrugada carregava-os, lançando-os desgovernados a seu bel-prazer. Era desesperante olhar para os lados e não fazer ideia de qual caminho tomar, sendo todos incrivelmente iguais e escuros. No céu, a lua ausentava-se de sua branda iluminação. Os pinheiros que os envolviam, portando-se de extensos troncos e extremidades pontiagudas, emanava uma escuridão profunda e sutilezas melancólicas. A vasta floresta estendia-se até onde os olhos não alcançavam, desorientando viajantes desinformados, desviando-os a tétricos algures, a caminhos das quais adentravam na infecta obscuridade. Um labirinto de troncos e raízes criando ilusões, desnorteando a lógica; uma bruma sobre os olhos, uma cegueira inconsciente, tácita. Regia algo da floresta, na floresta, entre a floresta, árvores e raízes, pois as trevas e a solidão da travessia os predispuseram a pavores súbitos, desprovidos de qualquer causa aparente. Sentiam ser puxados ao seu centro obscuro, a um lugar silencioso em infertilidade, como se nada além de árvores pudesse existir, como se há muito tempo à própria vida do lugar extinguira-se por algum evento inexplorado. Mas assim continuavam.
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A Jornada de um Assistente e a Esfera da Lua
AdventureNada inicia-se sem uma perturbação. Do que você seria capaz caso perdesse parte do que ama e tudo que tivesse como esperança fosse uma lenda antiga esquecida por muitos? Um jovem chamado Typson encontra-se numa situação semelhante, juntamente a Anab...
