(...)
– Santa estrela. O acordamos. – Desesperara-se Ana. – Va-vamos sair daqui.
– Bem que te avisei. – Deliciara-se Typson.
– Ora, fique calado e se esconda.
Mas era tarde. O contorno da cabeça através do vidro baço apareceu. A maçaneta redonda de ferro girou em um rangido metálico. Pela brecha da porta um homem falou, mostrando sua cara para os jovens que tentavam sair de seu campo de visão, ante pé a ante pé, quase escondidos por dois barris na frente da casa.
– Mas o que... – uma pausa no ambiente seguida por uma entonação mais grave. – Anabell?
Typson esbarrara em Ana com sua parada súbita.
– E o Typson, de Atícia!?
Vendo que não mais havia como se esconder, ergueram-se languidos e vergonhosos ao homem ereto na varanda.
– Sim, Sr. Lucvan. Somos nós. – Disseram em um monótono uníssono. O homem alargara um sorriso atenuado.
– Ah – disse o homem –, não são os meus pequenos ajudantes? Ótimo vê-los mais uma vez. Já faz tanto tempo. Deixe-me ver... um dia ou talvez menos? – O homem grisalho dera uma risada velha e pesada, a aprumar suas vestimentas inapropriadas de se mostrar aos convidados e ou mesmo de usar ao ar livre.
– Santa madrugada, vocês se superaram desta vez. Olhem para esse cabelo e para essas roupas. – Estalara a língua contra os dentes. – Vamos, entrem de uma vez. – Ofereceu em um gesto convidativo repetitivo.
Ao entrarem, um cheiro de madeira recentemente queimada e cortada circulou no ar. Tentaram tirar o máximo da lama grudada em suas botas, raspando-os na ponta dos degraus na tentativa de uma melhora. "Ao menos o do sapato posso limpar" – pensou Typson.
– Isso mesmo. – Instruía o homem. – Agora tirem os sapatos e botas e os coloquem perto da porta, bem no canto. Pode ser atrás sim. Isso mesmo. Agora, venham comigo. Acabei de ferver leite para mim, mas acho que dará para todos ao menos um copo.
Lucvan, aos olhos de Typson, era um bom homem. Ele fazia questão de manter uma harmonia entre os que conhecia bem, e mesmo com aqueles que não tinha muita simpatia. Era um antigo amigo de Typson e muito mais de sua mãe e de Ana e sua família.
Desde muito pequeno, referido homem o acompanhava e Typson não recordava de nenhum momento em que ele não estivesse por perto. Das muitas vezes que sua mãe contava histórias, a maioria referia-se a Lucvan, em especial sobre a infância e da amizade que crescera entre os dois. Ele sempre prestava assistência quando algum momento difícil afligia a família de Typson. E quando o caso era o reverso, sua mãe, sendo uma pessoa boa em tratamento de feridas e ervas curativas, retribuía o favor cuidando de suas doenças ou ferimentos provindos de seu ofício. Era um homem educado de um espírito calmo e quieto.
"Sendo esse um de seus dons". Assim dizia Atícia em um humor carinhoso. "Mas..." Sempre exaltava quando o assunto decorria em casa. "... sua verdadeira habilidade está em suas mãos e cabeça. Não consigo imaginar o que passa naquela cachola. É divino. Ele é o melhor carpinteiro que qualquer um que eu tenha visto."
"Realmente é", pensava Typson. Não importava quantas e quantas vezes em que entrasse em sua casa, ele sempre a admirava – não apenas a casa em si, mas o que se havia nela. Eram inúmeras, todas em perfeita ordem e tamanho. Aquelas mãos encontravam forma na madeira de uma maneira não mera talentosa, tinha-se alma nelas; um irradiar mais forte que a luz que penetrava pela janela ao seu lado.
VOCÊ ESTÁ LENDO
A Jornada de um Assistente e a Esfera da Lua
AbenteuerNada inicia-se sem uma perturbação. Do que você seria capaz caso perdesse parte do que ama e tudo que tivesse como esperança fosse uma lenda antiga esquecida por muitos? Um jovem chamado Typson encontra-se numa situação semelhante, juntamente a Anab...
