Capítulo Nove - A Mais de Sete Palmos

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***

Seguiram caminho até a entrada da pequena casa de pedra. Atravessaram a soleira, momento esse que Typson descobrira o estranho intérmino do lugar, precisamente uma escadaria em espiral logo ao centro do recinto, encaminhando-os para as profundezas do solo. Esta descia em um túnel, caminho esse esculpido na terra com demasiado esmero. Ana e Razi não se inquietaram com o que lhes aprecia, tomando a frente, transmitindo assim uma irritante calma que Typson desconhecia.

Desceram. Typson sentiu nauseado pela longa espiral até que alcançarem solo plano. Olhou para cima vislumbrando o caminho e a distância percorrida; o seu fim não passava de um pedacinho de luz quase indistinguível. Retomaram caminho respirando o característico ar fresco que percorria as construções da Cidadela. Typson assimilara o mesmo ar com o do ofício do Sr. Alorry, questionando-se da possibilidade de tamanha ventilação em um local profundo, um local sob rochas e pedras.

A escadaria ficara para trás e, logo em seu fim, o mesmo estendia-se a um estreito revestimento de rochas, onde duas pessoas andariam desconfortavelmente lado a lado. Os mesmos cristais baços de luz alva e fria estadeavam próximos ao teto, presos em estacas de ferro a emanar seu brilho acima das cabeças dos jovens. Murmúrios abafados ressoavam. Passos alastravam-se ecoando pelas paredes. Vozes transmitiam timbres de excitação criando assim uma mescla de sons; um singular alarido aos ouvidos desatentos.

Da mesma direção que partia as inúmeras vozes em desencontros, uma constante luz branca – onde a pouco não passava de um mísero ponto indistinguível – manifestara intensidade, revelando o suposto fim do alongado corredor. Não tardou que essa mesma luz os envolvessem e os capturassem, de certa maneira essa que não distinguiram o momento certo do abrir dos olhos, em especial Typson que desconhecia a fonte de tamanho fulgor. Fora após o acostumar com a recente luz branca que Razi dirigiu-se a Typson, a falar-lhe aos ouvidos em um tom que superasse o falatório incessante dos demais jovens.

– E aqui estamos. – Disse pomposamente quase aos berros. – Seja muito bem-vindo, meu estimado companheiro. Seja bem-vindo a nossa querida Abóbodala.

À medida que seus os olhos acostumavam-se a constante e ao mesmo tempo fria luz, Typson descobriu-se estar na entrada de um grande âmbito redondo recheado por jovens. Esse era sustentado por largas colunas arqueadas que se encontravam particularmente no centro do teto, e deste mesmo encontro brotava um colossal cristal baço que emanava a mesma alva luz dos demais cristais, diminutos em comparação. No total era a visão de uma grande cúpula, de uma grande abóboda subterrânea.

– Por que tudo tem de ser grande demais? – Perguntou-se Typson admirando o imponente lugar. – Tampouco haverá a necessidade de me explicarem a razão do nome "Abóbodala".

– Albert poderia, entre os contos, ser o mais recluso. Mas não há como negar a incrível visão que tinha dentro de sua cabeça. É um pouco difícil imaginar que ele tenha feito tudo isso sozinho.

– Sozinho?! – Typson virara-se para seu amigo. – Impossível. – Enrugara o cenho. Razi sorriu em retorno.

– Esquece-se de quem estamos falando? – E olhara estranhamente para Ana. – Ele fez sem ajuda alguma. – E calara-se.

Em intermédio da conversa, a multidão começara lentamente a se concentrar numa área específica ao centro do espaço, reunindo-se envolta de uma limitação em específico, delineando um longo retângulo pelo espaçamento provocado. Identificando a movimentação, Typson, Ana e Razi direcionaram inconscientemente para o aglomerado, penetrando entre os jovens a fim de encontrarem um local com boa visualidade. Fora neste deslocamento que um homem saíra entre o amontoado, caminhando passivamente sentido ao espaço retangular traçado imaginariamente com perfeição admirável.

Este ao longe se destacava entre as inúmeras cabeças que se viraram ao fitá-lo. Tendo seus dois metros de altura, tal homem necessitava inclinar-se para receber ou efetuar comprimentos aos que se arriscavam manifestar. Vestia uma pesada túnica azul bordado por fios negros e reluzentes. Sua barba grisalha não chegava à altura do seu peito. Seus olhos faiscavam mirando a multidão, verdes como a pedra que carregava envolto a madeira de seu pesado bordão. Usava um estanho sapato escuro que deveria ter a idade da própria Cidadela e um pequeno chapéu pontiagudo de abas moles ao centro de sua nuca, transmitindo um receio de queda, tal que nunca acontecia.

O robusto homem aprumara-se a vista de todos, analisando as faces de cada criatura que existia a sua frente. Batera deu bordão no chão, e tamanha fora a força que exercera que o seu ressoar silenciara os focos de conversas que não atentaram a sua presença. O alarido de imediato extinguira-se.

– Saudações, jovens assistentes. – Sua peculiar e forte voz fizera corações vibrarem. Inúmeras pedras de ínfimas cores e formatos cintilaram pela excitação, raiva, vergonha ou medo. – Todos conhecem o propósito desta reunião. E se há aqueles que não conhecem, aconselho-os que se elucidem com o companheiro ao lado, todavia posterior à minha pontuação.

Houve alguns murmúrios logo encerrados pelo mesmo grande homem.

– Hoje, – frisara a palavra no intuito de silenciar conversas prolongadas – neste exato dia, é de conhecer de todos que se inicia o Equinócio da Primavera!

Houve-se uivos de alegria e salva de palmas energéticas.

– E... – continuara – certamente conhecem o seu significado.

O enorme homem virara-se para um lado indefinido, a respirar fundo e bater seu bordão ao solo, produzindo um fraco tremor e um elevar singular da rocha. O retângulo antes imaginário ganhava altura aos pés do suposto homem, delineando um sobre-nível onde um lance de três degraus dava a seu topo. Terminado o evento, o mesmo homem pronunciara-se:

– Hoje, jovens assistentes, a inicialização da Contenda começa!

Mais uivos e aplausos. Preencheram o ar de tal maneira que limitava o mais simples raciocínio. O grande homem erguera a mão num gesto solicitando o silenciar.

– Contudo, antes de prosseguirmos... – sua poderosa voz embargara-se – existe aqui neste recinto alguém que almejo conhecer. Uma pessoa da qual não encontro entre todos. Uma pessoa que deverá ter uma participação singular nesta ocasião...

Cochichos se seguiram, contidos após pelos próprios jovens. O robusto homem pareceu fitar a multidão sem um ponto específico, intermédio esse que formulara sua pergunta:

– Onde se encontra o Sr. Typson Matteric? – Disse cautelosamente.

Fora-se notório que olhares encarregaram-se em localizar o conhecido portador, que mesmo durante todo tempo em sua discrição, não havia um homem ou criança que não soubesse o seu nome.

– Aí está você! – Seus olhos verdes encontraram-se com os de Typson. – Venha para ao meu lado, portador.

Assim fora. Typson sentia não possuir controle sobre suas próprias penas. Notou que havia caminhado somente quando estava à frente do colossal ser humano. Tivera que erguer a cabeça para enxergar seu rosto, consequente que a figura se inclinara para Typson a mesma proporção.

– Sr. Matteric? – Perguntara com sua voz vibrante. – Portador da pedra de Alfred?

– Sim, senhor. Sou eu.

De alguma maneira surpreendedora Typson sentiu aqueles olhos verdes e penetrantes trespassar seu corpo; uma cor que o fazia arrepiar, contendo uma energia selvagem que não conseguia definir. Este não moveu os lábios e Typson também não.

– Sabe quem eu sou? – A voz do grande homem soara em sua cabeça.

– Não. – Respondera-o em mesma habilidade, atônito. – Como o senhor conhece meu nome? – Perguntara-o.

– Da mesma forma que conhecerá o meu.

– E qual seria? – Typson retrucara e o homem retribuíra com um sorriso que o fez petrificar-se.

– Eu me chamo Ambrósio, – e repousou sua mão no ombro do jovem – Merlino Ambrósio.    

A Jornada de um Assistente e a Esfera da LuaOnde histórias criam vida. Descubra agora