Capítulo Treze - Entre Fogo e Gelo

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Ouvia-se unicamente o esvoaçar de seu capuz e o som de seus passos perante o corredor. Corria. O frio diminuía de acordo com a distância percorrida. Ele corria. Não sentia suas pernas. Queria sair daquilo tudo. Passara pela Abóbodala. Alguém chamara o seu nome entre o aglomerado de vozes, mas não chegara virar o rosto. Subira a escadaria numa velocidade surpreendente; e quando viera sentir o cansaço, a muitos estava sentado na soleira da pequena casa. Ao lado de fora, ainda respingava. A verdadeira chuva não tardaria em chegar, mas alguém estava ao seu lado.

– Seria uma grande tolice.

– Eu sei. – Respondeu Typson. – Bem... Na verdade, não. – Pensou.

– Ninguém nunca sabe. Mas, se eu dissesse a você que chuva se aproxima ciente de seu conhecimento, ainda sim afirmaria. Pelo menos alguma certeza. Muitas das vezes a evidência do inevitável é reconfortante.

– Não funciona sempre, ouso contrariá-lo. Mas entendo o que quer dizer, senhor.

– Venha comigo então, Sr. Matteric. – E o robusto homem pusera-se a caminhar.

Em geral, estava um tempo parado, quietude quase rotineira companheira ao sinal da tormenta. Era-se certo que choveria e não demoraria para isso.

– O senhor sabe o que aconteceu? – Perguntou, cabisbaixo.

– Sim.

– Então, o que há de errado comigo!? Por que temer?

– Medo não é algo a se controlar. – Soava reprimenda. – O desconhecido ou mesmo o diferente sempre culminará em aversão e temor àqueles que são ignorantes. Não deverás culpa-los ou muito menos repreende-los. Forneça-os tempo.

– Eu não queria temer mais nada.

– Isso não o tornaria melhor que ninguém, apenas o corromperia e o destruiria até restar-lhe mais nada, ou uma única mísera fagulha do que um dia se alimentava de luz e saber. Tornar-se-ia insensível as dores do mundo, pois o medo vem de sua descoberta, a afeição e logo ao amor das coisas do mundo. Sem isso, tu não passarias de um vazio, um recipiente entornado por uma força descometida.

– O senhor fala como se meu desejo fosse possível de se realizar. – Confessou.

– Nunca se há garantia de nada, caro assistente. Meu temor pela natureza obscura faz-me com que observe minha posição e meus feitos. Deverás ter cautela com o que dirás daqui por adiante, pois malditas sejam as palavras ditas na ira de um homem, ou no medo do mesmo.

– Chamaram-me de um nome.

Duomentar, eu acredito. Mas, perdoem-lhes pelo espanto. A muitos que esse nome não é pronunciado. – Expirou. – Vejo que possui muitos títulos a carregar agora: um jovem forasteiro portador de uma pedra pesada pelo passado, um descobridor de um lado diferente da natureza comum e agora um dom raro que poucos possuem habilidade de exercer.

O grande mago parara de andar. Typson estava fronte a sua casa. O grande portão anunciava-se a direita.

– Como... chegamos aqui?

– Andando. – Respondeu naturalmente.

– Mas foi curto.

– Se é assim que pensa. – E o mago virara-se para o portão. – Acompanhe-me.

Estavam na base do grande portão do sul. Fazia um tempo que Typson não a via de tão perto. Ao chegarem, aluno e professor cumprimentaram as sentinelas em seus postos, para em sequência o mago ordenar o abrir da passagem com sua voz impassível.

– Mas, senhor. – Contestara a sentinela da esquerda. – Não há ninguém...

– Faça o que digo. – Falara pesadamente.

Como ordenado, o portão fora aberto para o vazio do campo aberto e para a floresta ao longe.

– O que está a fazer, senhor? – Perguntara Typson. – Ninguém virá. – Observara.

– Ouça bem. – Havia em sua voz o tom urgente de uma sombria mestria. – Existe algo que você precisa saber. – Um vendaval fizera com que suas vestimentas tremulassem. – Algo que a pouco aconteceu semoto de minha visão.

– Queres realmente me dizer? – Interrogara-o.

– Não precisarei. Tu já o sabes. – E soprara mais forte, vento esse vindo da floresta e além. – Curiosos os sonhos são. Misteriosos e também perigosos. Bendito será aquele capaz de enxergá-los, e maldito será por elucidá-los.

Typson enrugara o cenho. Seus olhos inquietaram-se em busca da assimilação, e quando a achara, um soco no estômago não teria doído tanto quanto.

– Impossível, senhor. – Sua voz tremia sujeitada a indignação daquilo que se é inalcançável.

– Mas, aconteceu. – Respondera a virar seu rosto para o horizonte. – Perdoe-me, filho.

Uma nota monótona de uma trombeta soara no tempo decadente da chuva. Tal era longa, triste e alarmante por algo que se aproximava a uma velocidade absurda. Typson não conseguia discernir o que deveria sentir quando reconhecera a carroça. O terror o contaminara ao ver sua mãe sangrar. Era tudo que conseguia enxergar no desespero de sua ajuda.

Ao lançar-se de encontro, deparara-se com um garoto como guia que ao vê-lo desfalecera em seus braços. Seu corpo estava mole e frio, a boca pálida, o corpo escoriado.

– Ela nos espera. – A voz do menino estava rouca, os olhos vidrados. – A Dama. A Senhora Escura.

Toda a tensão da fala do pequeno decaíra em esforço, a resultar em um último balbuciar:

– O mal cresce na luz. – Tremera-se e revirara os olhos.

Typson não fizera outra coisa senão gritar por ajuda. Mas esta já estava pronta, pois o mago não estava lá por acaso. Merlino segurava sua mãe enquanto as sentinelas um outro passageiro que Typson não vira o rosto e tampouco desejava conhecer. A chuva desabou. O tempo escurecera-se mais que o normal com pesadas trovoadas a rasgar o céu. Longe, muito longe alguém ria, mergulhado no gozo da pura satisfação.

Criatura essa que gargalhava ao saborear na solidão a antiga maldade do mundo.

A Jornada de um Assistente e a Esfera da LuaOnde histórias criam vida. Descubra agora