(...)
– Nãooooo! Mentirosa! Mentirosa! Pare, por favor. Pare com isso!
Por instinto, Typson disparou até a tenda, largando a égua, pronto para adentrar fosse o que fosse o ocorrido. Sua mãe, todavia, saíra antes, assustada por ver seu filho tão inesperadamente face a face. Abraçara-o. Juntara o gesto de afeto com Lucvan, a soluçar, a gemer de dor, a abraçar tão forte que Typson não conseguiu conter um suspiro. Lucvan refletia uma face dura como estivesse indiferente ao acontecido, mas Typson fitou-o nos olhos, uma janela onde a mentira não conseguia fluir.
– Está feito. – Balbuciara sua mãe, entre soluços controlados. – Aconteceu.
– Sinto muitíssimo, Atícia. – Sussurrara Lucvan ao ouvido dela. – Eu...
– Não sinta por mim. – Retrucara Atícia a enxugar as últimas lágrimas. – Sinta por ela.
Se Typson soubesse como era a dor de uma lâmina transpassar o coração, essa seria semelhante ao que sua mãe passava, onde apenas o tempero era o seu próprio. Não havia mais dúvidas. Acabara.
– Quero falar com ela. – Exigira. Atícia acenara indistinta com a cabeça, com Lucvan a consolá-la, levando-a para longe em um abraço amigo.
Entrou.
Clic... clac... clic... clac... clic...
– Ana?!
– Vá embora! – Clamou irritada.
De costas para a entrada estava, sentada, abraçando as pernas aos soluços, o longo e embaraçado cabelo a envolvê-la como num casulo, cobrindo-lhe as pernas, protegendo-a.
Clac... clic... clac...
– Ana? Ana, olhe para mim. O que aconteceu?
– O que aconteceu? – Silvara.
Clic... clac... Cloc!
– Aconteceu apenas a pior das coisas, Typson! – Virou-se. Lágrimas caíram. Nas mãos, ela segurava um medalhão de madeira onde compulsivamente o abria e o fechava sem mesmo direcionar a atenção.
Clic... clac... clic... clac...
– Ana... – Sussurrara aproximando-se. Segurara nas mãos dela tentando encontrar seus olhos entre os espessos fios de fogo. – Fale para mim.
– É tão difícil perceber?
– Não. – Confessara.
Estava mais que claro. Ana deixara de olhar para o medalhão, fechando-o ao pôr no pescoço com seus olhos selados, chorando, falando...
– Morreram lutando. – Anunciara com orgulho feroz. – Salvaram muitos, meus pais. Eles lutaram, Typson! Lutaram! E morreram por aquelas malditas...
Olhou para as mãos como se delas o que mais desejasse. Levantara o olhar, confusa.
– Por que eles me prometeram, Typson? Por que eles não voltaram? Por que quebraram a promessa?
Typson desesperou-se internamente. Seus olhos inquietaram-se, conseguindo formular uma única frase decente em mente:
– Eu... não sei.
Ana erguera-se, a um berro, como uma lavareda incorporada, com seus olhos fundos a cintilar lágrimas e fúria. Quando Typson processara a situação, pegara-se correndo atrás de sua amiga, situando-se pelo seu cabelo revoltoso crepitando a luz do dia. Ana sempre fora a mais rápida, mais rápida que Typson, mais rápida que todos. Tudo que aprendera sobre ela fora aperfeiçoado por ele e nunca que um aluno superaria seu professor. Até agora.
Dentre a floreta, os arbustos cortavam a pele. Alguns espinhos perfuravam fundo. Alguns tropeços, joelhos machucados, mas nada conseguia barrá-los no mover ira ou no temor do obliterar.
– Anabell! – Clamara Typson em cada letra ao parar de correr. – Pare com isso!
Fachos de luz perfuravam a densa floresta. A luz mergulhava a cada mínima oportunidade da vida; e mesmo estes transitórios, a luz encarregava-se de seu propósito fixando-se especialmente a uma garota ruiva, realçando os fios vermelhos e uma pele saturada por sardas. O rosto desta mesma garota recebera essa luz. O rosto desta mesma garota revelara a lateral de sua face sem o voltar de seu corpo.
– Eu só pedi uma coisa.
Typson caminhava em sua direção.
– Eles prometeram que estariam ao meu lado. – Puxara o medalhão. – Eles prometeram que me ajudariam. E o que devo fazer agora? Eu... não sei o que fazer... eu... não tenho mais ninguém. – O hexágono estava aberto revelando o símbolo e suposta mensagem. – Eles só me contaram mentiras!
Ana teriam jogado o medalhão, perdendo-o para sempre na extensão da floresta, caso não fosse por Typson ao segurar seu braço em movimento. Typson agarrava-a pelos pulsos, soltando-a para, em seguida, devolver o que a pouco estaria perdido.
– Jamais, em toda em sua vida, repita isso Anabell Donavan! Você me entendeu? – Soara severidade. Ana pestaneja assustada. – Eu nunca te deixarei sozinha. Muito menos minha mãe ou o Sr. Lucvan ou mesmo seus pais. Eles estão aqui, – repousara a mão no coração – em um melhor lugar, cuidando de você, mas cuidando de uma outra maneira.
– Eu quero que guarde isso com você. – Finalizou Typson.
Os olhos de Ana estavam abem abertos. Typson tentou imaginar a dor que ela sentia, a dor se algum dia perdesse sua mãe. A dor de perder seu lar. A dor da solidão, do próprio desespero. Certo que de longe a sentira por conclusa, mas teve uma boa ideia de como poderia. Ana repousara sua cabeça no ombro de seu amigo; suas lágrimas escorreram mornas pelo tecido, silenciosas pela dor.
– Nós somos sua família agora, Ana. E eu sou parte dela também.
– Como irmãos? – Acrescentara em um meio sorriso.
– Sim. – Abraçara-a forte. – Irmãos de coração.
Caminharam de volta ao acampamento a retirarem os espinhos doutro. Os verdadeiros.
Atícia estava desesperada ao alívio de os verem outra vez. O abraço fora forte o suficiente para se quebrar uma costela e doce o bastante para curá-la. Ana pedira desculpas, mas Atícia sequer a aceitara pelo mesmo motivo: não havia o que ser perdoado.
Não demoraram em juntar os pertences, guardando-os nas cestas providas para cavalgarem acampamento afora. Typson com Lucvan. Atícia com Ana. Todos a marchar para o misterioso Norte, deixando para trás tudo que conheciam e prezavam; seus amigos, suas casas, suas famílias. Typson olhava para o que se restava, despedindo-se, deixando uma parte de si que sabia não mais voltaria, que não voltaria para mais ninguém, sentimento esse que se compartilhava com Ana, mesmo com Atícia, mesmo com Lucvan.
Jamais retornariam. Jamais regressariam, eles sabiam.
Nunca mais.
Acabara.
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A Jornada de um Assistente e a Esfera da Lua
AdventureNada inicia-se sem uma perturbação. Do que você seria capaz caso perdesse parte do que ama e tudo que tivesse como esperança fosse uma lenda antiga esquecida por muitos? Um jovem chamado Typson encontra-se numa situação semelhante, juntamente a Anab...
