Capítulo Sete - Além do Muro

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Acho que, se a gente pudesse correr sem nunca se cansar, nunca mais iria querer parar. Mas às vezes existem razões muito especiais para se parar.

C. S. Lewis





O pequeno lago não passava de uma mera cintilação à distância. Onde a pouco cegava-o, a superfície baça – diminuída a cada passo em que se era dado – evidenciava apenas os túmulos em si. A carroça ficara para trás. Typson não soube o porquê de sua inutilização, mas não estava com disposição para formular perguntas. Queria apenas saber aonde tudo isso daria e ver o que seu amigo queria que ele visse.

Typson nunca fora tão longe durante sua morada na Cidadela, e talvez a própria também pois, ao que se seguia em frente, não se erguia nenhuma casa aparente, renunciando a longa extensão de terra para as rochas e o capim verde-amarelado. O muro em evidência sempre se era visto. O indistinto contorno encurvado nunca escapava da visão, onde mais à direita, ao soerguer da cabeça, a Montanha do Norte arranhava o céu com seu pontiagudo pico branco. Terra, muro e montanha, tão somente a linha da paisagem com uma Cidadela atrás, tão somente o murmúrio diferençável das pessoas agitadas.

Mas não era um completo alarido, mas, sim, vozes que se intercalavam – que de fato eram poucas em comparação. Eram vozes masculinas, berros estrondosos, gritos e resmungos que aumentavam à medida que se acercavam.

Typson empertigou-se. Aprumara sua audição examinando as vozes que, ao passar dos segundos, ficavam cada vez mais próximos; batidas surdas ou pancadas na terra acentuavam-se com nitidez. O som de respiração, ou melhor, da arfagem a mesclar-se aos gritos de comando e protestos, nunca perdendo o ritmo do que que fossem que estivessem fazendo. A vozearia atroava rasgando o silêncio doce provocado pela distância da civilização, vozes que preenchiam a quietude do campo com exclamações abusivas adornados por alguns palavrões.

Razi, logo depois de mais outros passos, cortando o capim da altura de seu joelho, apresentou a fonte do vozerio; um campo aberto cingido perante o relvado.

Não fora surpresa descobrir que as vozes partiam de jovens – Typson já imaginara. Todavia, jamais imaginaria a cena a seguir; era estranho a seu ver e completamente bizarro. Tentara buscar o sentido na atividade, mas ficara cada vez mais confuso. E desistindo de compreender tal façanha, perguntara enfim ao colega ao lado:

– O que eles estão a fazer, Razi? – Indagava a cada palavra atenuada.

– Elimine essa pergunta de sua cabecinha. – O cutucara na cabeça. – Nada aqui faz muito sentido.

No campo desnudo, jovens corriam agitados de um lado paro o outro, presentes de direção, seguindo o fluxo de um objeto a deslizar, a rolar na superfície lamacenta da terra escura. Eram dez no total, dividindo-se em dois grupos de cinco pessoas possuinte de uma parte do campo, objetivando – na observação de Typson –, defender a entrada de um pequeno pórtico de madeira.

Esbarravam-se. Empurravam-se. Lesões eram-se surtidos. Urros de dores eram constantes. Mas, de alguma forma, não se preocupavam com isso. Estavam demasiados excitados perseguindo o objeto retundo para sentirem as dores de seus machucados. Sofriam, porém bem-dispostos. Pouco receavam as consequências que viriam depois em seus corpos. Ignoravam. Avançavam. Fluíam no jogo, degustando a animação aos sorrisos estratégicos; possuidores de um desejo infantil.

A Jornada de um Assistente e a Esfera da LuaOnde histórias criam vida. Descubra agora