Capítulo Vinte Um - Outro Dia

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(...)



Desacompanhado, Typson guiou-se a Biblioteca com pensamentos vagos. Procurou seus amigos, mas descontentara-se ao saber o que já seria dito pelo ancião de branco. "Entendo o senhor Merlino agora" pensou consigo. Permanecera longe, ouvindo resquícios do discurso, ouvindo como o ancião falava sobre a mágica do Solstício e das maravilhas cuja Esfera proporcionava.

A princípio, expusera a verdade politicamente, buscando, a todo momento, uma bússola fiel ao contar dos acontecimentos, privando partes exclusivas, como: a localidade do cofre, quem se libertou ou o que Alfred aprisionou. Utilizara meios: "Uma Sombra mais forte" e "um mal de grande poderio"; revelando, por final, a recuperação da Esfera da Lua, destruindo a cópia à frente de todos, repousando a Original ao lugar pertencente.

– Sua serventia acabou. – Declarou o ancião vigoroso. – Desde dia adiante, a verdadeira Esfera tomará sua posição de direito protegendo a Cidadela, protegendo este povo. Uma lídima luz na escuridão do mundo.

Para admiração de Typson, a reunião fora espantosamente curta. O clamor que se ouvia perpetuar, ante a voz do chefe do conselho, não comparecera a luz do dia, repercutindo em pálida face crispada um nublar de dor e abatimento. Typson encruzou-se por seus amigos desculpando-se pela ausência passada e da que faria seguidamente, pois seguiria o velho Tenebrarh perante a Biblioteca mal iluminada.

E assim o fez. Passado pelas pilhas de livros e corredores sombrios, Typson encontrou-se, minutos depois, ao quarto de Tatimus. A luz alva da pedra branca, fixada ao cajado do velho homem, assomava-se aos resíduos vermelhos de uma pedra portada por um jovem apreensivo.

– Senhor Tenebrarh?

– Oh – sobressaltara-se o senhor, falsamente –, és tu jovem Matteric. És tu.

O vetusto homem mirava seu olhar a simples cama sem dobras, para o criado-mudo de madeira negra. A luz alva da pedra entrava em oposição ao corpo do homem, tomando o quarto ao escuro de sua própria sombra.

– Está um belo dia além destas paredes, jovem assistente. – Comentou o ancião. – O que fazes aqui neste lugar escuro e melancólico?

– Gostaria de falar com o senhor. – Asseverou. – Falar sobre o que aconteceu.

– E ressaltar que, dia após dia, eu o perdia aos poucos, Sr. Matteric? Não preciso disso agora. – Negara debilmente em execução de gesto irregulares. – Tampouco ajuizei-me perante os sinais gritantes; e eu, em minha longa teia de estultos, os ignorei. – Sobrestou-se. – Como estava inteiramente cego!

– Senhor eu...

– Está um dia lindo lá fora, não está? – Typson não soube discernir a alegria em frase. – Eu via em seus olhos e sabia, não era mais os dele. Algo o havia mudado, ou alguém... mas o isso adianta com ele morto? – Respirou profundamente, aos soluços. – O que será de mim agora, céus? Santa mãe! Santa mãe! – Apoiava-se ao cajado. – Imploro-te. Perdoe-me! Peço perdão, peço perdão, minha filha! – Postulava. – Minha amada, falhei contigo e com o teu bem mais precioso. Eu... falhei com meu único neto.

– Senhor, eu preciso dizer...

– Deixe-me sozinho, portador. – Abscindira em tom. – Vá! Não há nada para você aqui.

– Mas, senhor eu...

– VÁ! – Vociferou o velho homem ao estopim da ira. – NÃO OLHE PARA MIM! SAIA! SAIA!

Em visão das lágrimas, Typson retirou-se em silêncio.

O velho ancião de branco permanecera parado, aos prantos, soluçando, esmorecendo o brilho níveo da pedra, mergulhando o quarto a uma escuridão além da privação de luz. Entre corredores e tetos arqueados, Typson ouvia os berros de lamentação e urros de dor em um homem da qual se amargava a cessação completa da vida, da inexistência a um ente amado. Typson caminhou sob tétrica consonância, cruzando os braços, corcovando-se ao peso aflitivo, adentrado ao coração da Biblioteca.

A Jornada de um Assistente e a Esfera da LuaOnde histórias criam vida. Descubra agora