Capítulo Quatorze - A Voz de Outrora

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Nada de verdadeiramente valioso surge da ambição ou do mero senso de dever; ao invés disso, se origina no amor e na devoção as pessoas e as coisas objetivas.

Albert Einstein


- Depressa, Typson! Não temos muito tempo. Corra! Corra! - Gritava o Merlino em seu tom de voz mais urgente.

As passadas do mago eram demasiadas longas, distância que se ocorria a deixar Typson para trás. Como era espantoso o seu movimentar acelerado. Vinha a mente o acordar de algo poderoso após séculos adormecido; o mover de uma montanha, o mover da tesa árvore. Para Typson, tudo era muito rápido. Acreditaria fielmente que não passaria de um sonho, acordando a qualquer momento em sua cama, ofegante e suado. Porém, o garoto que carregava em seus braços não o fez escapar da realidade.

Mas que lastimável palidez. Sua pele, outrora rosada, infligia-se a brancura do frio e do fim. Seus olhos, embora fechados, mexiam-se sob as pestanas, movimento que se decaía, asseverando o remate da morte; sinais que gradualmente se intensificavam.

A sua frente, Typson avistava seu professor e o braço de sua mãe pendulado, dormente, movimentando-se apenas pelo manear da caminhada. Seus olhos arderam. A chuva não parava. Encharcava-os terrivelmente dificultando qualquer ação descente que pudessem tomar. Todos corriam como podiam; todos obedientes ao grande homem, embora desconhecessem o caminho a se seguir. A dúvida desesperante transforma-se em cólera na desesperança. Typson não enxergava nada na chuva torrencial.

Assim como em um pesadelo, o caminho a ser percorrido reproduzia um irregular intérmino apavorante, um amolecer inconsciente das pernas e o assomar de uma criatura imaginária a perseguir capacitado de velocidade e força. Seus braços fraquejavam tal como seu corpo tencionado. Era frustrante e cansativo. A irritação, a raiva e a melancolia apoderavam-se em alma e físico.

- Merlino! - Berrara Typson ofegante.

O senhor estagnara, a responder em alívio depois de uma longa inspiração.

- Chegamos.

Havia uma casa agora, por onde imediatamente o senhor chutara uma porta em particular. A mesma não cedera, método usado pelo ausentar de suas mãos.

- Strink! - Vociferara o mago. Era impossível discernir o seu tom de voz; era forte e impiedoso tanto quanto os próprios trovões rompendo-se no céu. - Margariam, sua bruxa miserável, abra essa porta! Agora!

Os enormes pés do senhor batiam violentamente na porta, que por ela não resistiria por muitos. Logo o som de passos fora se ouvido do interior; passos arrastados e propositais, indiferentes ao alarme de quem que estivesse batendo à porta.

- Quem está aí? - Perguntara a velha ao lado de dentro.

- Não me faça quebrar o juramento, velha bruxa!

- Oh, é a nobre árvore. - E ouvira o destrancar da porta. - Mas, pela Esfera, por que tamanho... - Ao abrir da porta o rosto da velha, antes cansado e apático, ganhara mais lividez ao ver das cargas de cada homem.

- Sagrada Mãe, o que é isso? - Admirara-se a idosa. - Entrem, tire-os da chuva. Andem. Andem.

A velha, na sua maior flexibilidade, correra para o corredor, a desviar dos gatos, a apoiar-se a bengala com sua pedra branca a cintilar sumindo por ventura na escuridão. Typson, Merlino e a sentinela tiveram que andar de lado na estreita passagem para então chegar num lugar mais espaçoso. À esquerda, um compartimento retangular pouco iluminado onde supostamente preparava-se a comida. À direita, duas portas da qual, na mais próxima, a velha abrira e adentrara.

A Jornada de um Assistente e a Esfera da LuaOnde histórias criam vida. Descubra agora